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Guia sobre crise ambiental para comunidades budistas

A iniciativa Fé no Clima está divulgando guias sobre a crise ambiental para comunidades espirituais, com o objetivo de conscientizar e mobilizar os praticantes. A versão budista pode ser baixada aqui. Há uma contribuição deste centro para esse guia na forma do texto abaixo:

A mandala da vida no budismo tibetano#

Emersom Karma Kontchog

A mente do despertar, ou boditchita, é o elemento espiritual central para nós que praticamos o budismo tibetano, no sentido de que sem ela, tudo se torna estéril; com ela, poderíamos até dispensar o restante.

Em tese, a mente do despertar implica que buscamos realizar a natureza buda não para nós mesmos, mas como um instrumento para que outros seres sejam beneficiados e, no final, também revelem sua iluminação. Na prática, é mais fácil recitar do que fazer. E neste período de degeneração em que vivemos, somos constantemente desafiados em nossas atitudes sobre como aplicar no mundo essa compaixão universal.

Especialmente diante das atuais emergências climática e ecológica, há um chamado gritante para praticarmos os preceitos de nossa tradição. Apesar das consequências desta crise não se desdobrarem de modo tão óbvio e rápido como uma guerra, por exemplo, no final são as mesmas: danos, morte, doença e sofrimento massivos, com uma degeneração que não se restringe ao presente, comprometendo o futuro de nossas crianças e outras formas de vida.

Hoje talvez já tenha chegado a hora de passarmos a considerar também plantas como seres sencientes, já que sua “inteligência” está bem determinada cientificamente — apesar de operar em outra escala. Muitos cientistas acreditam que isso pode ser estendido até para microrganismos e fungos. Mas independente de considerarmos ou não a consciência vegetal, proteger esse reino é parte dos preceitos desde quando Buda Shakyamuni pisava descalço nesta terra: não destruir a vegetação é um voto da Sangha. Como diz o Dalai Lama, “se o Buda voltasse ao nosso mundo, ele certamente estaria conectado com a campanha para proteger o meio ambiente.”

Não saímos desmatando florestas por aí, mas e o nosso consumo, e nossas condições de vida?

A vida como um todo no planeta está pedindo socorro e, se soubermos escutar, ouvimos esse grito também dentro de nós, já que nossos corpos e mentes estão intimamente ligados à teia da vida.

O desafio da prática da mente do despertar é ir expandindo genuinamente nosso círculo de cuidado. Seriam bem-vindas até pessoas mais difíceis, como aquelas que criam essas dificuldades em nome do lucro individual — em menor escala, não é isso que também fazemos quando erramos?

No final, esse círculo de compaixão se expande até se fundir com a própria mandala da vida, quando então a ação compassiva e imparcial se torna um reflexo espontâneo da mente da iluminação. Até lá, vamos cultivando nossas ações gradualmente, sem precisar nos limitar no tempo: seres do futuro não são diferentes de nós. Assim como herdamos condições de vidas adequadas devido ao cuidado e preocupação que as pessoas de gerações anteriores tiveram, temos a mesma responsabilidade com as gerações vindouras.

A mente do despertar implica também ação, com a prática das “Seis perfeições”. Por exemplo, na perfeição da generosidade, doamos a “proteção contra o medo”, ou seja, protegemos outros seres — humanos ou não — contra ameaças. E essa atitude de preservar um ambiente saudável não se restringe a seres vivos. Inclui elementos como pedras, água, terra, ar etc. No vajrayana ou tantra, um aspecto importante do budismo tibetano, não há nada inanimado, tudo é permeado pelas diversas expressões de sabedoria da natureza buda. Nesse sentido, a degradação do ambiente é o mesmo que permitir que se jogue lixo em nosso altar.

Um lembrete constante que o Dalai Lama nos traz é que ficar rezando para o Buda não vai resolver nossos problemas coletivos. Fomos nós que criamos isso e somos nós que temos que resolver.

Há pouco tempo antes que as consequências atuais degenerem para níveis muito mais perigosos. Devido a essa urgência, simplesmente mudar hábitos — como consumir menos ou reciclar — não vai ser suficiente para a transformação necessária, já que o próprio modo como nossa civilização produz, consome e gera riqueza é o que está autodestruindo-a. A melhor chance que temos são medidas governamentais, por exemplo, para acabar com as emissões de gases do aquecimento e o ecocídio. Para isso, sem a organização da sociedade em torno dessas demandas, há pouca chance. Isso não tem ligação com política partidária, são ações para tentarmos proteger, sustentar e celebrar a vida — princípios que estão no coração da prática budista.