Ensinamento para o ano novo tibetano

Mensagem para o losar de Guru Vajradhara, Djamgon Kenting Tai Situpa (com opção de legendas: clique no ícone de configurações no canto inferior direito).

https://youtu.be/e15Zaancwsw?t=119

(tradução e transcrição de Dani Karma Yeshe)

Saudações neste dia que marca o início do Ano Masculino do Tigre de Água do 17º ciclo de sessenta anos do calendário tibetano!

Que haja auspiciosidade, alegria e bondade!
Que vocês tenham longevidade e boa saúde!
E que vocês tenham sempre felicidade,
Que continuamente aumenta cada vez mais!
Desejo isso a todos vocês.

O Losar é uma ocasião muito importante. Todos vocês sabem mais ou menos que o Ano Novo tem a ver com cálculos astrológicos relacionados aos planetas, estrelas, casas do sol, e outros elementos. Se quiserem saber mais sobre isso, podem perguntar a alguém que conhece a astrologia.

No geral, quando falamos sobre o Ano Novo, as crianças aguardam ansiosamente o Ano Novo, assim como os idosos, e também os adultos. Até mesmo os monásticos observam o ano novo.

Quanto aos yoguis, eu não sei quanta fixação eles têm em relação ao ano novo, mas certamente dizem algumas preces durante as celebrações do Losar.

Todos estão familiarizados com o dia do Ano Novo. Porém, se quisermos saber todos os detalhes, o assunto é muito vasto.

De modo geral, o antigo ano chega ao fim e o novo ano começa. Para marcar essa transição, observamos as celebrações do Losar. Quando o antigo ano termina, olhamos para trás e refletimos sobre as boas ações que fizemos durante o ano passado para o benefício de nós mesmos e boas ações em benefício dos outros.

Como somos budistas, também contemplamos as atividades do Dharma que fizemos para o benefício de todos os seres sencientes: as atividades que temos oferecido aos ensinamentos do Buddha e atividades altruístas para o benefício de todos os seres sencientes ilimitados como espaço. É importante que pensemos sobre o que fizemos e que façamos uma dedicação.

Ao mesmo tempo em que olhamos para todas as boas ações que nós mesmos fizemos durante o ano que passou, também lembraremos naturalmente das boas ações que os outros fizeram. Devemos dedicar todas as boas ações que nós mesmos fomos capazes de realizar, e então fazer aspirações, e nos regozijamos com elas.

Devemos também nos regozijar com todas as boas ações feitas por todos os outros que já vimos ou ouvimos falar. Com relação ao passado, isso é o que devemos fazer.

Ao mesmo tempo, naturalmente veremos todas as ações inadequadas que realizamos, que foram prejudiciais a nós mesmos, prejudiciais aos outros, prejudiciais aos ensinamentos do Buddha, ou prejudiciais a todos os seres sencientes sem limites como o espaço, assim como todo o tempo que desperdiçamos e todos os erros que cometemos. Devemos olhar também para eles. Tendo feito isso, damos origem ao arrependimento. É dito: "Embora não haja nada de bom em relação à não-virtude, sua única boa qualidade é que pode ser purificada através da confissão". Sem arrependimento, não haverá purificação. É melhor se a confissão incluir todos os quatro poderes oponentes, mas mesmo que não sejamos capazes de fazer isso, devemos ao menos reconhecer as ações impróprias como impróprias, suplicar às Três Jóias, e resolver não voltar a cometê-las.

Ao olhar para os outros, certamente veremos que eles fizeram algo impróprio ou negativo, mas se pensarmos muito nisso, vamos nos tornar alguém que procura sempre encontrar falhas nos outros. Procurar por falhas nos outros é responsabilidade daqueles que estão encarregados disso. Por exemplo, a busca de falhas nos discípulos é responsabilidade do guru, que deve eliminar tais falhas, ressaltando-as. Da mesma forma, a busca de falhas nas crianças é responsabilidade de seus pais, que devem apontar tais falhas e corrigi-las oferecendo suas orientações e conselhos. Não é apropriado que todos procurem as falhas uns dos outros, pois dessa forma é possível se envolver demais nisso, e há o perigo fazer com que as impurezas de alguém, os cinco venenos, aumentem. Portanto, quando pensamos nos outros, nesse momento, nosso objeto de atenção é muito vasto.

Neste mundo, existem seres de todos os seis reinos, mas se pensarmos apenas nos seres humanos, Quantas pessoas existem? Quase oito bilhões. Quanta dificuldade todas elas tiveram durante os dois últimos anos devido à atual pandemia? Quantas pessoas já morreram? Quanto a economia tem sofrido e quanto prejuízo cada indivíduo sofreu? Tudo isso é sofrimento.

O sofrimento certamente surge devido a causas, mas agora todos nós estamos experimentando este sofrimento como a fruição de certas causas. Todos os seres sencientes deste mundo, todos os seres humanos deste mundo, estão passando por isso. Considerando isso, rezamos para que tal situação não volte a surgir no futuro.

Da mesma forma, durante os últimos dois anos, a pandemia tem afetado nosso mundo e causando grandes dificuldades, mas nossos líderes e os trabalhadores da área da saúde cumpriram o seu papel - especialmente os trabalhadores da saúde sofreram grandes dificuldades - e os cientistas e médicos também trabalharam muito para nos ajudar. Devemos orar por todos eles, nos regozijarmos com seus esforços, orar para que no futuro tal doença não ocorra novamente, e que para quaisquer novas doenças que possam ocorrer, que medicamentos apropriados para tratá-las sejam desenvolvidos e aprimorados. Esta é uma maneira prática de orar neste momento. Sem a necessidade de se inventar ou visualizar algo, isso é claramente evidente, por isso é muito bom, benéfico e prático refletir sobre isso.

Outro problema que está causando dificuldades agora, e com certeza vai causar dificuldades no futuro, é a questão ambiental, que se refere aos quatro elementos: terra, água, fogo e ar, ou se o espaço estiver incluído, os cinco elementos, causando desastres naturais. Todas essas calamidades ocorrem devido a nossa própria imprudência, elas são causadas por nossas próprias ações irresponsáveis. Isso é um problema. De modo geral, o Buddha disse, "Todas as coisas compostas são impermanentes. Todas as máculas são sofrimento". Portanto, devido a esta ser a natureza do samsara, ocorrem os desastres naturais relacionados com os quatro elementos externos. Porque este é o período dos conflitos, a desarmonia surge na mente dos seres sencientes e devido a tais guerras inimagináveis, confrontos e disputas surgem em nosso mundo. Portanto, também oramos: possa isso não ocorrer e possa isso ser pacificado.

Tudo isso está relacionado com o passado. Com relação ao presente, a partir de agora, em relação ao nosso corpo, é importante cuidar bem da nossa saúde, mas a coisa mais crucial é a nossa mente, portanto, é essencial que cuidemos bem da nossa mente. Como devemos cuidar da nossa mente? Não permitindo que ela caia sob a influência do apego, não permitindo que ela caia sob a influência da raiva, não permitindo que ela caia sob a influência da inveja, não permitindo que ela caia sob a influência do orgulho, e já que a ignorância é a raiz de tudo isso, não permitindo que ela caia sob a influência da ignorância, da fixação egocentrada, o que chamamos de "eu". Isso é o que temos que fazer. O que devemos fazer primeiro? É essencial praticar a compaixão - desejando que todos os seres sencientes estejam livres do sofrimento, e bondade amorosa - desejando que eles sejam felizes, e equanimidade - sendo livre de apego e aversão aos que são próximos e distantes. Por meio disso, nossa fixação ao "eu" será subjugada.

Além disso, certamente precisamos ter devoção às Três Jóias. Devemos também ter respeito por nossos pais, mestres espirituais, mais velhos e professores. Da mesma forma, precisamos ser amáveis e estar em harmonia com todos aqueles com os quais temos uma conexão. Se fizermos isso, servirá como um remédio para a nossa fixação ao "eu" e para a ignorância, e isso é algo que todos nós podemos fazer agora mesmo. Se isso acontecer, se tornará naturalmente um remédio para nosso apego, raiva, orgulho, e inveja também, uma vez que tudo isso se deve ao nosso agarramento a um eu. Sem fixação ao "eu" estas máculas não surgirão. Portanto, o tanto que estivermos envoltos na fixação ao "eu", será o tanto que estaremos envoltos em máculas. O tanto que estivermos envoltos em máculas, será o tanto de karma negativo que iremos acumular. O tanto de karma negativo que acumularmos, será o tanto de causas, sementes e condições para experienciarmos o sofrimento nos seis reinos que estaremos criando. É a isso que o nome e o significado de “oceano de sofrimento do samsara” correspondem.

Portanto, se pensarmos bem a respeito disso, a partir deste momento, nos tornaremos nosso próprio professor. As crianças pequenas precisam de um professor, adultos que são mentalmente imaturos também precisam de um professor. Porém, uma vez que nos tornamos capazes de pensar por nós mesmos e nosso corpo atinge a maturidade total, nós devemos ser nossos próprios professores. Não devemos nos engajar em ações, pensamentos, atividades e falas que são prejudiciais para nós mesmos. Da mesma forma, quando nos colocamos no lugar dos outros, também não devemos nos envolver em atividades, pensamentos e discursos que são prejudiciais a outros. Temos que estar atentos a estas coisas.

Para resumir, o Buddha disse o seguinte sobre todos os seus seguidores, ele falou principalmente sobre os monásticos, mas é relevante para todos:

"Quanto à Sangha do Bhagavan,
Eles estão engajados no bem.
Eles estão engajados na visão profunda.
Eles estão engajados na verdade.
Eles são dignos de palmas unidas.
Eles são dignos de prostração.
Eles são um campo glorioso de mérito.
Eles são completamente aptos a receber todas as oferendas.
Eles são um objeto de generosidade.
Eles são sempre um grande objeto de generosidade".

Estas palavras do Buddha estão claramente escritas, nós as recitamos. Portanto, tenha isso em mente também. De uma forma ou de outra, todos nós pertencemos à Sangha, se somos um monge, uma monja, um ngagpa, no geral, não há seguidores leigos do Dharma, homens ou mulheres, que não tenham ao menos recebido refúgio e bodhitchitta. Quantos empoderamentos você já recebeu? Dentro de cada empoderamento há refúgio, bodhitchitta, e todos os outros votos - o que não faz com que você seja parte da honrada Sangha - mas como vocês são seguidores do Buddha, vocês têm que praticar de acordo. Portanto, todos vocês, por favor, tenham isso em mente.

Nesta ocasião do Losar, eu gostaria de lembrar que os ensinamentos do Buddha Shakyamuni precisam permanecer até a iluminação do Buddha Maitreya, eles precisam permanecer por muitos milhares de anos. Agora, apenas 2.600 anos se passaram desde o surgimento dos ensinamentos do Buddha Shakyamuni, portanto, eles devem permanecer por muitos milhares de anos a mais. Se os ensinamentos genuínos permanecem ou não está nas mãos de todos nós, atuais seguidores do Buddha, portanto, devemos ter cuidado e não fazer nada de negativo que impediria isso.

Gostaria de lembrá-los disso nesta ocasião, como uma oferenda de Losar para você e como uma oferenda às Três Jóias e Três Raízes, que todos os detentores dos ensinamentos do Buddha tenham vida longa. Em particular, existem detentores dos ensinamentos Shravakayana, detentores dos ensinamentos Mahayana, e detentores dos ensinamentos Vajrayana - Eu oro para que todos eles tenham vida longa e para que suas atividades florescem. Dentre esses, dentro do Vajrayana existem Oito Linhagens de Prática e Dez Pilares de Linhagens Acadêmicas - Eu oro para que os professores de todas essas linhagens vivam por um oceano de éons; Em termos práticos, eu oro para que eles vivam muito tempo.

Eu oro para que o Soberano de Todos os Ensinamentos, o esplêndido Tchenrezig, tenha vida longa. Como é dito nos ensinamentos do Buddha, tanto nos sutras como nos tantras - por exemplo, em uma prece em particular, "Seus mil braços são os mil reis tchakravartins. Seus mil olhos são os mil buddhas dos éons afortunados. Você mostra os meios apropriados para domar cada ser. Eu me prostro ao venerável Tchenrezig".

Igualmente, Nyingma, Kadam ou Gelug, Lamdre ou Sakya, Marpa Kagyu, Shangpa Kagyu, Zhije ou Chöyul, Jordrug ou Kalachakra, também conhecido como Jonangpa, e Orgyen Nyendrub - que os professores de todas essas linhagens vivam tanto tempo quanto o sol, a lua e as estrelas.

Há também a antiga religião que estava presente no Tibete, a Terra das Montanhas de Neve, antes do florescimento do Buddhadharma, que foi preservada e ainda está lá hoje. Sua presença contínua se deve à bondade do Guru Rinpoche, que após a conclusão da construção do Monastério Samye passou a determinar, em Benkhar Thang, quais religiões são benéficas para os seres sencientes. Ele garantiu que todos os caminhos corretos continuariam e seus ensinamentos floresceriam. Devido a isso, os ensinamentos da antiga religião Bön ainda hoje estão presentes. Eu oro para que esses ensinamentos também floresçam - uma vez que beneficiam os seres sencientes, que eles continuem a florescer e a se propagar. Para resumir o significado de tudo o que eu disse, Agora vou recitar alguns versos de oração, e gostaria de pedir-lhes que também orassem desta maneira:

Possam todos os seres sencientes terem felicidade.
Possam os reinos inferiores ficarem para sempre desertos.
Que eu possa satisfazer as aspirações de todos
Os bodhisattvas que permanecem nos bhumis.
Possa a preciosa bodhitchitta
que ainda não nasceu, surgir e se desenvolver.
Possa aquela que nasceu, não declinar,
mas aumentar mais e mais.
Possa haver alegria e bondade dia e noite,
E alegria e bondade ao meio-dia!
Possa tanto o dia quanto a noite serem excelentes,
E que as Três Jóias concedam auspiciosidade!
Que haja auspiciosidade, alegria e bondade!
Quando eu estiver feliz, que o meu mérito flua para os outros,
E que as bênçãos preencham o céu.
Quando eu estiver infeliz, que as tristezas de todos os seres sejam minhas,
E que o oceano de sofrimento seque.