Pular para conteúdo

5. Atividade da vigilância em guarda#

> Proteger a mente para implementar o treinamento
>> Breve exposição

1. Desejando proteger o treinamento,
foque intensamente e guarde a mente.
Se esta mente não for protegida,
o treinamento ficará sem guarda.

>> Explicação detalhada >>> Todo dano vem da mente

2. O elefante da mente, totalmente à deriva,
leva ao Inferno do Tormento Incessante.
Um dano assim não poderia ser causado aqui
nem por um elefante destreinado e louco.

3. Ao domar completamente o elefante
da mente com a corda da atenção*,
todos os medos desaparecem,
todas as virtudes caem na palma da mão.

* Nota do tradutor (NT): A palavra tibetana (dran pa) que está sendo traduzida como “atenção” também significa lembrança. Neste contexto, trata-se de manter na mente aquilo que não deve ser esquecido.

4. Tigres, leões, elefantes,
ursos, cobras e todos inimigos.
Os carrascos dos seres no inferno,
influências malignas e rakshas*.

* Raksha: um tipo de ogro canibal.

5. Amarrando apenas esta mente,
todos eles são amarrados.
Domando apenas esta mente,
todas elas são domadas.

6. Por isso, o Proclamador da Verdade
ensinou: “todos os medos e
sofrimentos imensuráveis
surgem da mente.”

7. Quem especificamente construiu
as armas contra os seres no inferno?
Quem criou o chão de ferro em brasa?
De onde surgem essas chamas?

8. Isso tudo surge da mente que
cultiva desvirtudes, disse o Muni.
Então nos três reinos não há
outra coisa a temer além da mente.

>>> Toda virtude vem da mente

9. Caso a Perfeição da Generosidade
fosse sobre remover a pobreza dos seres,
já que ainda há seres miseráveis, como
os Protetores do passado a praticaram?

10. A intenção de doar todas as posses,
junto com o mérito, para todos os seres,
é a Perfeição da Generosidade, disse o Buda.
Portanto, isso se refere à própria mente.

11. Onde colocar os peixes e outros animais,
para que não sejam mortos? É ensinado
que a Perfeição da Disciplina é a realização
da mente que abandona a desvirtude.*

* A Perfeição da Disciplina não se refere a impedir fisicamente a desvirtude de matar, por exemplo, já que não há como impedir definitivamente que seres sejam mortos.

12. É impossível acabar com os seres perversos,
infinitos como o espaço. Mas eliminar
apenas esta mente raivosa é como
destruir todos os inimigos.

13. Para cobrir este solo com peles,
onde haveria tanto couro?
Mas revestir apenas meus pés
é como cobrir todo o chão.

14. Desse mesmo modo, não posso
repelir as coisas externas, mas
ao transformar minha mente,
que outra coisa há para mudar?

15. Gerar uma intenção clara tem resultados certos,
como os reinos de Brahma, entre outros.
Já ações débeis de corpo e fala
não têm tal resultado.

16. Todas as recitações e austeridades
praticadas por muito tempo
são inúteis, se feitas com
a mente distraída, disse o Buda.

17. Caso alguém deseje alcançar bem-estar e eliminar
o sofrimento, mas desconheça este segredo da mente,
o princípio supremo do Dharma, ela apenas
continuará vagando inutilmente.

>>> A necessidade de vigiar a mente

18. Portanto eu vou manter e proteger
da melhor forma esta mente. Sem a
disciplina espiritual da guarda mental,
para que tantas disciplinas?

19. Assim como alguém em uma multidão
descontrolada se concentra e protege com cuidado
seu ferimento, em meio a pessoas negativas,
devo proteger esta chaga que é minha mente.

20. Se somos cuidadosos ao temer a dor
de um pequeno machucado, obviamente
protegerei o ferimento da mente, temendo
ser esmagado pelas montanhas do inferno.

21. Mantendo esse tipo de conduta,
mesmo em meio a pessoas negativas
ou tentadoras não há problema:
a firmeza em manter os votos não degenera.

22. Posso perder minhas posses,
honra, corpo, meio de vida e até
as outras virtudes, no entanto,
jamais deixarei a mente degenerar.

> Usar atenção e vigilância para proteger a mente
>> Breve explicação

23. Junto minhas mãos em prece
para todas que aspiram a proteger a mente:
apliquem todo esforço na guarda
da atenção e vigilância introspectiva!

>> Explicação detalhada
>>> As desvantagens da falta de vigilância introspectiva

24. Assim como pessoas perturbadas pela doença
não têm força para nenhuma ação,
a mente afligida pela ignorância não tem
poder para realizar nada de bom.

25. Alguém sem vigilância introspectiva,
mesmo que ouça, reflita e estude,
é como água em um vaso furado:
o Dharma não é relembrado.

26. Muitos que receberam ensinamentos,
que têm fé e dedicada diligência,
prejudicados pela falta de vigilância,
serão maculados por violações.

27. O ladrão que é a ausência de vigilância
vem atrás da atenção deficiente.
Apesar de toda a acumulação de mérito,
ele a rouba e terminamos nos reinos inferiores.

28. Esta gangue criminosa das aflições
vive em busca da chance para destruir.
Tendo oportunidade, rouba a virtude e acaba
com a energia para os reinos superiores.

>>> Como praticar a atenção

29. Então jamais tire a atenção
da porta de entrada da mente.
Se acontecer, relembre os tormentos
dos reinos inferiores para trazê-la de volta.

30. A atenção surge bem facilmente
na companhia do mestre, com as instruções
do abade e pelo medo*, para as
afortunadas que cultivam respeito.

* O medo saudável de coisas prejudiciais — como ações negativas — que surge após a contemplação dos ensinamentos sobre causa e efeito.

31. “Estou sempre diante da
presença de todos os budas
e bodisatvas, que possuem visão
completamente desobstruída.”

32. Pensar dessa maneira traz
constrangimento, respeito e temor.*
Para tal pessoa, a lembrança
do Buda surge de novo e de novo.

* Constrangimento em relação às desvirtudes cometidas, respeito em relação aos ensinamentos e temor sobre as consequências de ações negativas.

33. Quando a atenção se posiciona na porta
de entrada da mente para protegê-la,
a vigilância também virá; ou retornará
caso tenha se dispersado.

> Treino da mente com atenção e vigilância >> A disciplina de evitar atos negativos >>> Purificar ações de corpo, fala e mente

34. Em cada ocasião, antes de tudo,
se notar que há negatividade em minha mente,
devo ter a capacidade de permanecer
inerte como um pedaço de madeira.

35. Jamais manterei um olhar perdido
em distrações sem sentido.
Com a mente determinada,
sempre manterei os olhos baixos.*

* Essa é uma conduta monástica externa, que tem o significado interno de não buscarmos objetivos em desacordo com o Dharma.

36. Mas para descansar a visão,
de vez em quando observarei em volta,
e se houver uma pessoa à vista,
olhando-a direi “bom dia.”

37. No entanto, para averiguar caminhos perigosos,
olharei as quatro direções frequentemente.
Ao descansar, virarei o corpo antes
de olhar para trás.*

* Isso se refere à disciplina monástica de manter a postura mesmo quando cansado ou agitado.

38. Examinando à frente e atrás,
se devo prosseguir ou voltar,
desse modo em todas as ocasiões,
vou me portar de acordo com as necessidades.*

* Agir com vigilância de acordo com o que for mais benéfico para mim
e os outros.

39. “Devo manter o corpo assim.”
Iniciarei atividades dessa maneira e,
de vez em quando, examinarei:
“Como estou mantendo o corpo?”*

* Tanto em meditação quanto no pós-meditação, é importante manter a vigilância sobre o que fazer com o corpo, já que há relação com a mente.

40. Com todo esforço, devo examinar
se o insano elefante que é a mente
está bem amarrado ao pilar central da
contemplação do Dharma, sem deixá-lo escapar.

41. Aqueles que se esforçam o quanto
podem em samadhi, não se perdendo
um instante sequer, examinem
assim: “Onde está minha mente?”

42. Se não puder, por estar em meio a perigos
ou celebração, faça o que for mais conveniente.
O Buda permitiu relaxar a disciplina assim
quando grandes oferendas são distribuídas.*

* O Sutra Akshayamati diz que, nessas ocasiões, aspectos menores da disciplina podem ser relaxados, se for mantido um senso de atenção.

43. Quando começar a executar algo planejado,
não se concentre em outras coisas.
Através do foco no objetivo,
isso é o que agora será realizado.

44. Dessa maneira tudo é bem feito; do contrário,
nem uma coisa nem outra é concluída.
Assim, a aflição secundária que é a ausência
de vigilância introspectiva não prolifera.

>>> Protegendo os preceitos contra degeneração

45. Caso se engaje em várias
conversas sem sentido e intenso
entretenimento fascinante,
abandone o apego a essas coisas.*

* Para ajudar e beneficiar outros seres, pode ser necessário participar desse tipo de atividade. Isso deve ser feito através da compaixão pelas outras pessoas, e não por apego.

NT: apesar destas instruções serem dirigidas a renunciantes, os princípios básicos se aplicam para qualquer praticante.

46. Caso esteja — sem nenhum propósito — cavando no solo,
arrancando plantas, desenhando na terra ou outras
atividades do tipo, ao lembrar-se do treinamento dado
pelo Sugata, com medo, abandone isso imediatamente.*

* O treinamento para renunciantes inclui não prejudicar plantas e seres menores, e também não ocupar as mãos simplesmente por não ter o que fazer, além de outras atitudes que levam as pessoas a perderem a fé na Sangha.

47. Quando desejar se mover ou
quando quiser conversar,
primeiro examine a própria mente,
então, com firmeza, aja corretamente.*

* Nos próximos versos, são listadas as 27 atitudes enganadas, cuja ausência evita as quebras dos votos pratimoksha, mahayana e vajrayana.

48. Quando minha mente ansiar
pela (1) luxúria ou (2) violência,
não aja, não fale. Permaneça
inerte como um pedaço de madeira.

49. Caso haja em minha mente (3) excitação inquieta
ou (4) zombaria, (5) orgulho ou (6) arrogância,
caso pense em (7) expor falhas alheias,
(8) irritar os outros* ou (9) trapacear,

* Aqui “irritar os outros” se refere a reviver desavenças já pacificadas, ou não se satisfazer com oferendas de comida, sempre desejando mais.

50. quando se encontrar ativamente
(10) elogiando a si, (11) criticando outros,
(12) insultando ou (13) disputando, permaneça
inerte como um pedaço de madeira.

51. Quando desejar se empenhar para obter (14) ganhos,
(15) honraria, (16) fama ou (17) diversos empregados,
querendo ser (18) servido por eles, permaneça
inerte como um pedaço de madeira.

52. Quando desejar (19) abandonar o bem alheio e
(20) empenhar-se só no próprio benefício,
quando sentir a (21) ânsia de ficar falando,
permaneça inerte como um pedaço de madeira.

53. Quando surgir em minha mente (22) impaciência,
(23) preguiça, (24) desânimo, (25) insolência,
(26) tagarelice ou (27) parcialidade sectária,
permaneça inerte como um pedaço de madeira.

54. Investigando assim completamente
suas aflições e esforços sem sentido,
as pessoas corajosas se mantém
firmes com os antídotos.

55. Serei (1)* intensamente resoluto, com
(2) fé completa, (3) firme, (4) respeitoso
e cortês**, (5) arrependido e temeroso***,
(6) calmo e dedicado a alegrar os outros.

* Aqui começam a ser listados os nove fatores que produzem virtude.
** Em relação ao Dharma e seus detentores.
*** Arrependido em relação a negatividades anteriores e temeroso sobre a possibilidade de repeti-las diante do professor, budas e bodisatvas.

56. (7) Não me deixarei abater pelas
exigências de pessoas imaturas em conflito,
serei amorosa, notando que suas
atitudes surgem devido às aflições.

57. Sendo irrepreensível sobre
o que faço para mim e os outros,
(8) manterei sempre a visão do não eu,
como se eu fosse uma emanação mágica.

58. “Após tanto tempo, obtive esta liberdade
excelente”, (9) pensando assim de novo e de novo,
completamente inabalável, como
o Monte Meru, vou manter a mente.

>> Disciplina de acumular virtude >>> Porque é necessário abandonar
o apego ao corpo, que causa a negligência do treinamento

59. Ó mente, se você não se incomodará
com os abutres que, desejando a carne,
em bando limparão seu cadáver por completo,
por que prezá-lo assim agora?

60. Por que você protege e se agarra
ao corpo como sendo seu, ó mente?
Se você e ele são duas coisas separadas,
o que ele faz por você?

61. Por que você não se fixa, por exemplo,
em uma forma pura de madeira, ó mente confusa?
Por que é melhor proteger esta máquina
podre, um conjunto de imundícies?

62. Primeiro, mentalmente,
retire a camada de pele e,
com a lâmina da sabedoria,
separe a carne da estrutura óssea.

63. Tendo separado também
os ossos, olhando até o tutano,
examine você mesmo:
“Qual é a essência disso?”

64. Se mesmo após procurar assim,
você não vê uma essência,
por que ainda protege
este corpo com tanto apego?

65. A sujeira do corpo não serve como comida,
o sangue não serve como bebida,
as entranhas não prestam para chupar —
o que este corpo faz por você?

66. Seria lógico guardá-lo como
comida para raposas e abutres.
Este corpo e os de todos humanos
servem apenas para serem usados.

67. Mesmo que o proteja assim,
quando o implacável Senhor da Morte
o tomar para dá-lo aos cachorros e aves,
o que você poderá fazer?

68. Se não dá roupas e outras coisas
para servos que não vão trabalhar, por que
você se desgasta com este corpo, que mesmo
recebendo comida, vai para outra direção?

69. Como ele está sendo pago,
agora coloque-o para te ajudar.
Mas se não lhe trazer nenhum
benefício, pare de dar tudo a ele.

70. Considere o corpo como um barco,
um mero suporte para ir e vir.
Faça dele algo para realizar o benefício
dos seres conforme desejado.

>>> Ter habilidade com o próprio comportamento

71. Assim, com domínio de si,
sempre mantenha-se sorridente,
livre-se da cara feia ou sombria,
seja um amigo genuíno dos seres.

72. Não empurre móveis e outras coisas
de modo descuidado e barulhento.
Não abra portas violentamente.
Sempre deleite-se em quietude.*

* Em um ambiente com outras pessoas contemplativas, é preciso cuidado para não perturbá-las. “Quietude” se refere tanto ao aspecto externo de manter-se o mais invisível possível, quanto à humildade.

73. Garças, gatos e ladrões
movem-se furtivos em silêncio
para conseguir o que de fato desejam.
Pessoas sábias sempre agem assim.*

* Quietude aqui se refere também ao cuidado e à vigilância introspectiva.

74. Com respeito e humildade, aceite
os conselhos não solicitados de pessoas
experientes em relembrar os outros.
Seja sempre como um aluno de todos.

75. Para todos que bem falam, diga:
“Foi um pronunciamento de virtude!”
Ao ver um ato meritório, elogie
e regozije nessa excelência.

76. Comentarei qualidades alheias sem alarde.
Quando outros falarem, confirmarei.
Se mencionarem qualidades minhas,
considerarei seu bom discernimento.*

* Para evitar bajular os outros, serei discreto. No entanto, se outros comentarem qualidades alheias, em vez de negá-las, concordarei. Já quando falarem bem de mim, refletirei sobre essa qualidade deles.

77. Tudo que iniciamos é para nossa felicidade,
mas ela é rara mesmo com dinheiro.
Então vou desfrutar do prazer que é
se regozijar com as qualidades alheias.

78. Assim, no presente, não sofrerei perdas,
e, no futuro, haverá grande felicidade.
A maldade traz tristeza e angústia,
e, no futuro, imenso sofrimento.

79. Ao falar, seja honesto e
coerente, claro e agradável,
abandonando apego e raiva,
com gentileza e moderação.

80. Ao ver seres sencientes, considere:
“É exatamente com base neles
que realizarei a própria budeidade.”
Olhe com amor e sinceridade.

81. Há muita virtude em estar (1) animado constantemente, com (2) grande dedicação, (3) inspirado pelos antídotos,
e em (4) atos direcionados aos [a] objetos com qualidades,
[b] com benefícios e [c] de sofrimento.*

* O mérito de uma ação é muito maior se houver quatro aspectos: em relação ao tempo, a (1) atitude é constante; a motivação é informada por uma (2) resolução firme; ela age como um (3) antídoto para negatividades; e (4) se direciona para os [a] objetos com qualidades (Três Joias), [b] com benefícios (nossos pais) ou [c] de sofrimento (doentes, peregrinos etc).

82. Cumprirei minhas tarefas
sempre com habilidade e confiança.
Não dependerei de ninguém
mais para realizá-las.

83. As Seis Perfeições são cada uma
superior à outra. Não abandone uma
elevada em nome da anterior. Considere
que o bem dos seres é o mais importante.*

* A hierarquia das seis perfeições é sequencial. Por exemplo, a disciplina gera mais mérito que a generosidade. No entanto, em ocasiões excepcionais, a mais importante é aquela que mais beneficiará os seres.

>> Disciplina de beneficiar outros seres
>>> Dedicar-se à atividade pelo bem alheio

84. Compreendendo isso, mantenha-se
sempre dedicada ao bem alheio.
Em sua clarividência, o Compassivo
permite até as coisas proibidas.*

* O Buda permite que grandes bodisatvas pratiquem sete das dez desvirtudes (as exceções são as desvirtudes da mente), se isso for de grande benefício para os seres. Bodisatvas iniciantes ou shravakas não têm essa permissão.

>>> Atrair seres para o Dharma com doações materiais e ensinamentos

85. Compartilhe com seres de reinos
inferiores, vulneráveis e ascetas.
Coma com moderação.
Doe tudo, menos as três vestes.*

* Ao praticar em locais isolados, compartilhe aquilo que obter com três tipos de seres: animais e espíritos famintos; necessitados; e praticantes de austeridades. Além disso, a primeira porção de alimento é oferecida às Três Joias. Com exceção das três vestes monásticas, que simbolizam a conduta de renúncia, tudo pode ser oferecido.

86. O corpo que pratica o Dharma não deve
ser prejudicado para fins menores.
Assim as aspirações dos seres sencientes
serão realizadas rapidamente.*

* Bodisatvas iniciantes não devem sacrificar a saúde do corpo em nome de alguma atividade altruísta, pois a própria prática do Dharma depende do corpo. Ao praticar e dedicar o mérito, o bem alheio está assegurado.

87. Não ofereça este corpo com
uma intenção impura de compaixão.
Doe-o se isso for uma causa para um
imenso benefício no presente e futuro.*

* Até a realização do primeiro nível bodisatva, quando a vacuidade é realizada de modo direto e irreversível, doar o corpo não é uma opção.

88. Não ensine o Dharma para pessoas
desrespeitosas, que cobrem a cabeça sem estar
feridas, carregam para-sóis, cajados ou armas,
ou que usam o manto sobre a cabeça.*

* Tais atitudes durante ensinamentos eram consideradas insultos. Se isso fosse aceito, o Dharma poderia ter seu valor diminuído aos olhos do público.

89. Não ensine o vasto e profundo aos que praticam
um caminho menor, e a mulheres desacompanhadas.
Sempre aborde com o mesmo respeito
os dharmas Mahayana e Shravakayana.*

* A visão da vacuidade e os bhumis e caminhos Mahayana não devem ser expostos a shravakas (não é preciso perturbá-los com visões diferentes). Conforme seus votos, um monge não deve instruir uma mulher desacompanhada por um homem. Os caminhos Mahayana e Shravakayana não devem ser tratados como melhor ou pior, e vice-versa. O Buda diz no Sarvadharma-vaidalyasamgraha-sutra: “Ó Manjushri, se algumas pessoas considerarem certos ensinamentos do Tathagata bons e outros, ruins, eles estão rejeitando os ensinamentos sagrados.”

90. Não apresente o Dharma Shravaka
para os recipientes de ensinamentos vastos.
Não negligencie a conduta. Não cause
confusão com sutras e mantras.*

* Pessoas com conexão Mahayana não devem ser direcionadas para o Shravakayana, e vice-versa. Uma conduta que preza o princípio de causa e consequência deve ser sempre observada. Ao ensinar, não interprete literalmente as escrituras que dizem que a realização é alcançada apenas com a leitura de certos sutras e dharanis — aprenda a distinguir entre ensinamentos provisórios e definitivos, guiando alunos conforme a
capacidade de cada.

>>> Proteger os outros contra a perda da fé

91. Ao limpar os dentes ou cuspir,
faça de modo oculto. É condenável
urinar e tudo mais em águas
ou terrenos de uso comum.

92. Não coma enchendo a boca,
de modo ruidoso ou de boca aberta.
Não sente com as pernas esticadas.
Não esfregue os braços ao mesmo tempo.

93. Não permaneça só com alguém do sexo oposto
que não seja parente em viagens, quartos e residências.*
Observe e pergunte sobre tudo o que provoca
a perda da fé entre pessoas leigas. Então, abandone isso.

* Conduta monástica.

94. Não sinalize apontando o dedo.*
Respeitosamente, use a mão
direita inteira para
indicar um caminho.

* Gesto considerado rude.

95. Não mova os braços com gestos amplos.
Sinalize com pequenos movimentos
e sons, como um estalar de dedos.
Senão, isso se torna um desequilíbrio.

96. Deite-se do mesmo modo que o Protetor, quando
passou ao nirvana, voltada para a direção que preferir.
Como prioridade, ao dormir, assegure vigilância
introspectiva* e a intenção de acordar prontamente.

* Introspecção sobre a lucidez da mente e a lembrança da morte e impermanência — além de não sabermos quando a morte virá, o sono em si é similar a uma “pequena morte”.

> Outros elementos de uma prática perfeita >> A prática ideal em si

97. As atividades dos bodisatvas são incontáveis,
conforme dizem os ensinamentos.
Entre elas, pratique as ligadas ao
treinamento da mente até sua maestria.*

* Bodisatvas iniciantes precisam se concentrar em práticas como as deste texto, até que suas mentes estejam purificadas.

98. Recite o Sutra das Três Seções três vezes
de dia e de noite. Com o suporte do
Vitorioso e da boditchita, as transgressões
restantes devem ser pacificadas.*

* Também conhecido como Sutra dos 35 Budas ou Confissão de Transgressões, essa liturgia tem como suporte 35 budas que fizeram votos para purificar as transgressões dos seres.

99. Em tudo o que executar para si e
os outros em qualquer ocasião,
esforce-se para treinar nos
preceitos ensinados para tal situação.*

* Uma das qualidades deste texto é justamente reunir os ensinamentos do Buda sobre quais atitudes adotar conforme a situação.

100. Para as herdeiras dos vitoriosos
não há nada que não deva ser aprendido.
Para quem tem tal habilidade,
não há nada que não gere mérito.*

* Não há nenhum ramo do conhecimento, mundano ou do Buda Dharma, que alguém que pratica a conduta bodisatva não possa aprender para poder beneficiar os seres. Para bodisatvas hábeis, mesmo desvirtudes aparentes geram mérito.

101. Engaje-se apenas em beneficiar
os seres de modo direto ou indireto.
Dedique tudo exclusivamente para
a iluminação dos seres sencientes.

102. Mesmo com a vida em risco,
jamais abandone o professor espiritual,
que é habilidoso nos princípios Mahayana,
e possui a sublime disciplina bodisatva.

103. Cultive a associação com um mestre assim como
descrito na História de Liberação de Shri Sambhava.
Aprenda essas e outras instruções do Buda
que podem ser lidas nos sutras.*

* Essa história está no capítulo Gandavyuha do Sutra Guirlanda de Flores (Avatamsaka), que conta por exemplo como o bodisatva Sudhana aprendeu com 110 professores. Uma instrução essencial diz: “Ó nobre filho, veja a si mesmo como um inválido; o mestre espiritual, como um médico; o ensinamento, como o remédio; e a prática dedicada, como a cura.”

104. Como os preceitos estão nos
sutras, eles devem ser lidos.
O Sutra de Akashagarbha
deve ser estudado primeiro.*

* O motivo é que este sutra descreve claramente os 18 votos bodisatva e o modo como suas transgressões podem ser purificadas.

105. Como a Compilação de Todos os Preceitos*
ensina amplamente a conduta
de todo momento, é indispensável
lê-la de novo e de novo.

* Esse texto (Shikshasamucchaya, do próprio Shantideva) descreve o caminho bodisatva mais detalhadamente, em prosa, com muitas citações de escrituras.

106. Além disso, ocasionalmente, leia a mais
resumida Compilação de Todos os Sutras.
Estude também com dedicação
os dois textos do nobre Nagarjuna.*

* Esse outro texto (Sutrasamucchaya), mais breve, também é de Shantideva. Os referidos textos de Nagarjuna têm exatamente os mesmos títulos das obras citadas neste verso e no anterior.

107. Tudo que não é proibido e é incentivado
nesses textos deve ser praticado. Para
proteger a mente de pessoas leigas*, considere
os preceitos e engaje-se perfeitamente.

* “Proteger a mente...” se refere a evitar que outras pessoas percam
a fé nos bodisatvas.

>> Sumário do capítulo

108. Em resumo, o que define
a vigilância em guarda é examinar
exclusivamente a condição do próprio
corpo e mente com frequência.

109. Vou me engajar nisso de fato com o corpo,
o que a mera recitação de versos realiza?
Somente a leitura de textos médicos
poderia beneficiar os doentes?

Este foi o “Capítulo 5 – Atividade da vigilância em guarda”, do texto Engajamento na Ação Bodisatva.