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7. Apresentação da diligência#

> Breve explicação sobre a necessidade da diligência

1. Então com paciência seja diligente,
a iluminação reside em tal esforço.
Assim como sem vento não há balanço,
sem diligência não surge mérito.

> Explicação detalhada >> Identificação da diligência

2. Diligência é o entusiasmo na virtude.
Seu oposto será explicado:
é a preguiça — ansiar pelo negativo,
o ócio e a autodepreciação.*

* Esses são os três tipos de preguiça.

>> Remoção das condições adversas à diligência
>>> Identificação da preguiça e suas causas

3. A preguiça surge intensa a partir do gosto
pelo conforto do ócio, do apego
ao ato de dormir e de não haver
desgosto com o sofrimento no samsara.

>>> Como se livrar dos três tipos de preguiça
>>>> Cultivo do antídoto para a preguiça que anseia pelo ócio

4. Perseguida pelas caçadoras, as aflições,
e capturada pela armadilha do nascimento,
adentrei as mandíbulas do Senhor da Morte.
Por que ainda não reconheço isso?

5. Você não vê que um a um
seus pares vão sendo mortos?
Ainda assim, você apenas dorme,
como o búfalo junto ao açougueiro.

6. Enquanto todos os caminhos
são bloqueados e o Senhor da Morte
lhe vigia, como você pode ficar
se deleitando com comida e sono?

7. Já que morrerá em breve, até lá realize
as acumulações. Quando chegar o momento,
já não será mais a hora de praticar descartando
a preguiça. Então, o que você fará?

8. “Isso ainda não fiz. Isso comecei a fazer.
Aquilo está na metade...” Mas de repente,
chega o Senhor da Morte, e você pensará:
“Ah não, acabou para mim!”

9. Enquanto seus parentes perdem a esperança,
com olhos vermelhos inchados em seus rostos
escorrendo lágrimas de intensa angústia,
você verá os enviados do Senhor da Morte.

10. Atormentado pela lembrança de suas maldades,
escutando já os ruídos do inferno,
aterrorizado, sujará a si mesmo.
Nesse momento de demência, o que fará?

11. Assim como sente um peixe que se contorce
na areia, esta vida já é repleta de horrores.
O que então dizer dos tormentos infernais
insuportáveis advindos de suas maldades?

12. Sua pele é delicada e sensível ao toque
da água quente. Tendo cometido
os atos dos infernos mais escaldantes,
como permanecer em tranquilidade?

13. Você deseja o resultado, sem o esforço.
Hipersensíveis e impacientes sofrem muito.
Abraçadas pela morte, agonizam como deuses.
Que tristeza, esses tormentos lhe destruirão!

14. Usando a embarcação do corpo humano,
liberte-se do grande rio de sofrimento.
Depois, um barco assim será difícil de obter.
Não há tempo para adormecer em confusão.

>>>> Cultivo do antídoto para a preguiça que é uma inclinação
para a negatividade

15. Rejeitando a causa de deleite infinito,
a sublime glória do Dharma,
como você se alegra ao se distrair
e excitar-se com o que causa sofrimento?

16. Sem se desencorajar, devote-se com esforço
e autocontrole com todas suas forças.
Pratique a igualdade entre eu e outro.
Pratique a troca entre eu e outro.*

* Essas práticas são descritas no capítulo 8.

>>>> Cultivo do antídoto para a preguiça que é a autodepreciação

17. “Como eu poderia me iluminar?”
Não se deprecie assim.
Proclamando a verdade,
o Tathagata proferiu o seguinte:

18. Até moscas, mosquitos, abelhas,
vermes e quaisquer outros,
ao gerarem a força da diligência,
realizarão a sublime e rara budeidade.*

* Isso está no Sutra Solicitado por Subahu, referindo-se à natureza buda que todos os seres possuem e que começa a despertar quando há o encontro com budas e bodisatvas.

19. Alguém como eu, nascida na linhagem humana,
que reconheço o que beneficia e o que prejudica,
se eu não rejeitar a conduta bodisatva,
como não realizaria a budeidade?

20. “Mas eu sinto medo de ter que doar
braços e pernas”, pensando assim,
não diferencio o leve do grave,
e a ignorância me reduz ao pavor.

21. Por incontáveis milhões de eras,
terei meu corpo mutilado,
perfurado, queimado e retalhado,
sem com isso realizar a iluminação.

22. Já o sofrimento para eu realizar
a budeidade é limitado, similar
à dor de uma incisão necessária para
curar o mal de uma hemorragia interna.

23. Todos os médicos curam doenças com
o desconforto de algum tratamento.
Então, para acabar com os inúmeros sofrimentos,
é preciso suportar um pequeno desconforto.

24. Mas o Médico Sublime não aplica
tratamentos comuns como esse.
Com um método extremamente gentil,
ele cura incontáveis males graves.

25. O Guia no início recomenda
doarmos coisas simples como legumes.
Ao nos acostumarmos com isso, eventualmente
poderemos oferecer a própria carne.

26. Quando compreendermos que
o nosso corpo não é diferente de
ervas ou vegetais, que dificuldade
há em doar a carne?

27. Não há dor em abandonar a desvirtude,
não há irritação em ser sábio,
pois danos ao corpo e à mente surgem
de desvirtudes e de ideias enganadas.

28. Já que devido ao mérito há conforto físico
e a sabedoria traz tranquilidade mental,
por que bodisatvas com compaixão lamentariam
permanecer no samsara para o bem alheio?

29. Já que, aqui, a força da mente do despertar
extingue negatividades prévias e reúne
um oceano de mérito, é ensinado que
esse caminho supera o dos shravakas.

30. Assim, montando no cavalo da boditchita,
que dissipa toda fadiga, rumando
de um deleite para outro, qual pessoa
com discernimento se sentiria desencorajada?

31. Para realizar o bem dos seres sencientes, há os
reforços da aspiração, firmeza, alegria e abandono.
A aspiração surge do temor ao sofrimento
e da contemplação de suas qualidades.

>> Implementar as condições favoráveis para a diligência /
>>> Explicação breve

32. Assim, abandone o que não se alinha com o
Dharma. Pela força da dedicação e maestria na
aspiração, firmeza, alegria e abandono,
esforce-se para multiplicar a diligência.

>>> Explicação detalhada >>>> Invocar o antídoto dos quatro reforços
>>>>> Reforço da aspiração

33. Vou eliminar as incontáveis negatividades
minhas e dos outros seres, mesmo
que cada uma delas leve um oceano
de eras para se extinguir.

34. Já que não vejo nem uma pequena
redução em minhas falhas, estando relegado
a um sofrimento imensurável,
como meu coração não explode?

35. Vou realizar as diversas qualidades
para mim e os outros seres,
mesmo que cada uma delas
leve um oceano de eras para cultivar.

36. Já que não produzi o cultivo
de nem uma fração dessas qualidades,
é impressionante como tornei inútil
este nascimento que obtive.

37. Eu não fiz oferendas ao Bhagavan,
não ofereci o deleite de grandes celebrações,
não realizei atividades pelos ensinamentos
e não atendi os desejos de pessoas miseráveis.

38. Não ofereci segurança aos temerosos,
não dei conforto aos angustiados.
Tudo que fiz foi criar sofrimento
e dor no útero de minha mãe.

39. Estas adversidades surgiram devido
ao desinteresse no Dharma antes e
também agora. Então, quem jogaria
fora a aspiração pelo Dharma?

40. O Sábio declarou que a raiz de toda
virtude é a aspiração. E a raiz dela
sempre é contemplar as consequências
do amadurecimento do karma.

41. Sofrimentos, irritações, vários
tipos de perigos e separação
daquilo que queremos
surgem de ações negativas.

42. Ao realizar a virtude planejada,
onde quer que se vá, através
desse mérito, haverá sempre
o fruto de presentes e oferendas.

43. Ao cometer maldades, apesar de
o conforto ser desejado, onde quer
que se vá, através dessa negatividade,
a lâmina do sofrimento lhe aniquilará.

44. Devido à virtude, você se encontrará no centro
de um amplo lótus refrescante, de excelente perfume,
ganhando esplendor ao ser nutrida pela melodia
da fala do Vitorioso quando, devido à luz do Sábio,
o lótus floresce e você surge com um corpo sublime
para, diante dos budas, se tornar uma herdeira dos Tathagatas.

45. Devido à desvirtude intensa, os enviados do Senhor da Morte lhe torturarão arrancando toda sua pele, e derramarão
em seu corpo o cobre derretido em chamas escaldantes,
espadas e lanças em brasa vão penetrar sua carne,
causando centenas de perfurações, seu corpo caído
no solo de ferro em brasa.

46. Portanto, aspire pela virtude e cultive
de fato devoção. Engajando-se
na prática como Vajradhvaja*,
familiarize-se com a confiança.

* Vajradhvaja é um bodisatva que corporifica a diligência que jamais recua ou se abate, conforme descrito no sexto capítulo do Sutra Ornamento de Flores.

>>>>> Reforço da firmeza >>>>>> Explicação geral

47. Primeiro, examine suas
condições para iniciar algo ou não.
Não iniciar de fato pode ser melhor,
mas após começar não volte atrás,

48. pois devido a esse hábito, em outras vidas,
negatividade e sofrimento aumentam.*
Ou então, o fruto da prática
amadurece fraco, não se realizando.

* Isso porque voltar atrás após iniciar uma ação para beneficiar os seres equivale a quebrar um compromisso, que resulta em negatividade.

49. Devo ter confiança em relação a três coisas:
minhas ações, aflições e habilidade.
“Eu sozinho farei isso”, isso
é a confiança sobre a ação.

>>>>>> Explicação de pontos específicos
>>>>>>> Autoconfiança na ação

50. Pessoas mundanas, impotentes devido às aflições,
não conseguem realizar o próprio bem,
não têm capacidade como eu.
Então, eu mesmo farei isso.

51. Como posso ficar sentado enquanto
outros realizam atividades inferiores?*
Se faço isso por causa do orgulho,
não ter orgulho é o melhor.

* Há dois significados aqui. O primeiro é: “Como eu poderia ser conivente quando os outros se engajam em atividades negativas? É melhor praticar o Dharma.” O segundo: “Como posso ficar ocioso enquanto os outros trabalham duro? É melhor ajudar (desde que não sejam atividades negativas).”

>>>>>>> Autoconfiança em relação à habilidade

52. Ao encontrar uma cobra morta,
até um corvo age como um garuda.
Quando estou enfraquecido,
até uma queda menor irá prejudicar.

53. Pode haver libertação da miséria para
pessoas desencorajadas que desistiram?
Mas aquelas que geraram confiança e esforço,
mesmo os poderosos têm dificuldade em derrotar.

54. Portanto, com firmeza mental vou eliminar
as transgressões. Caso elas me derrotem,
minha aspiração de triunfar
sobre os três reinos será uma piada.

55. Vou vencer todas as fraquezas,
nenhuma me derrotará.
Eu, herdeira do Leão, o Vitorioso,
manterei essa confiança.

56. Os seres arruinados pelo orgulho estão aflitos,
não têm confiança, estão nas garras
do inimigo, o orgulho. Quem tem confiança
não é controlado pelo inimigo.

57. Encher-se de orgulho aflitivo. Isso te levará
aos reinos inferiores, arruinando o banquete
que é a vida humana; ou será um escravo que se alimenta
das sobras dos outros, ignorante, horrendo e fraco.

58. Será humilhado por todos. Se tal sofredor
inflado de orgulho fosse considerado
como alguém que têm confiança,
quem estaria abaixo dele?

59. A pessoa que têm confiança por ter vencido o inimigo,
o orgulho, possui o verdadeiro orgulho, o heroísmo da vitória genuína. Quem realmente corta a propagação do inimigo,
o orgulho, realiza conforme desejado o fruto
da vitória para os seres.

>>>>>>> Autoconfiança em relação às aflições

60. Ao permanecer dentro do círculo das aflições,
estabeleça perseverança de muitas formas.
Como um leão em meio a lobos,
não deixe o grupo de aflições atacar.

61. Assim como, mesmo sob grande risco,
as pessoas protegem os olhos,
não caia sob o poder das aflições,
mesmo no caso de grande desespero.

62. Antes morrer queimada ou ter a cabeça
cortada do que me curvar ao inimigo,
as aflições. Assim, em qualquer situação,
não terei outra atitude além da mais apropriada.

>>>>> Reforço da alegria

63. Como no anseio pelo fruto
prazeroso de brincar, vou ansiar
por essas atividades, regozijando
sem jamais me satisfazer.

64. Apesar de agirmos desejando o bem-estar,
é incerto se ele virá ou não. Como poderia
haver felicidade se não realizamos
as ações das quais ela surge?

65. Se jamais nos sentimos saciados em nossos desejos,
que são como mel na lâmina de uma faca,
como poderíamos achar que basta de mérito,
que amadurece como bem-estar e paz?

66. Para completar então sua tarefa,
mergulhe na ação bodisatva,
como um elefante atormentado pelo
sol do meio dia mergulha ao encontrar um lago.

>>>>> Reforço do abandono

67. Se suas forças diminuírem ou terminarem,
deixe a tarefa para depois. Já quando
concluí-la perfeitamente, abandone-a,
aspirando já pelas próximas ações.

>>>> Cultivo de dois poderes >>>>> O poder da prática dedicada

68. Assim como guerreiros veteranos
encaram a espada no campo de batalha,
evitarei a lâmina das aflições,
golpeando essas inimigas certeiramente.

69. Caso deixe sua espada cair em batalha,
temeroso, recupere-a rapidamente.
Do mesmo modo, se perder a arma da atenção,
temendo o inferno, prontamente reative a presença.

70. Assim como, pelo sangue, um veneno
se espalha por todo o corpo, quando
encontra a chance, uma transgressão
se dissemina por toda a mente.

71. Pessoas com a disciplina bodisatva se concentram
com o mesmo cuidado de alguém carregando
um pote cheio de óleo, ameaçada de morte
com a lâmina no pescoço, caso haja um respingo.

72. Então, com a mesma rapidez que saltaríamos
caso uma cobra aparecesse em nosso colo,
quando a sonolência e a ociosidade surgirem,
imediatamente as rechace.

73. Para cada transgressão,
reflita por um bom tempo:
“Como fui me rebaixar assim?
No futuro, isso não pode mais acontecer.”

74. “Como circunstâncias assim poderiam
se tornar o próprio cultivo da atenção?”
Considerando as causas para isso, vou aspirar
por encontrar mestres e praticar apropriadamente.

>>>>> O poder de comandar corpo, fala e mente

75. Antes de cada tarefa, tendo o poder para lidar
com qualquer coisa, fazendo todo o possível
para lembrar meticulosamente desses conselhos,
erguerei-me sem nenhum pesar.

76. Assim como a árvore de algodão
está à mercê da direção do vento,
sob o poder do entusiasmo,
estas práticas serão realizadas.

Este foi o “Capítulo 7 –Apresentação da diligência”, do texto Engajamento na Ação Bodisatva.