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Introdução do tradutor#

por Emersom Karma Kontchog

Esta é uma tradução a partir do tibetano do texto Engajamento na Ação Bodisatva, do mestre budista indiano Shantideva (séc. 8). Esse texto em verso é um dos mais importantes do budismo, já que descreve de modo muito inspirador os principais pontos sobre a “mente do despertar”, que é o elemento central do budismo tibetano. Essa mente, também chamada de “boditchita”, se desdobra no cultivo da compaixão e na sabedoria sobre a natureza da realidade.

Como disse o Dalai Lama:

— Se eu tenho algum entendimento sobre compaixão e a prática do caminho bodisatva, é inteiramente com base nesse texto que possuo isso.

Além de ser o grande clássico da compaixão budista, o texto também é conhecido pelo capítulo 9, uma das apresentações mais representativas da visão sobre a vacuidade, ou Madhyamaka. Grandes mestres como o próprio Dalai Lama enfatizam que pessoas interessadas em filosofia, mesmo não sendo budistas, podem se beneficiar desse modo de investigar o que é a realidade.

Relevância#

Como se trata de uma escritura com mais de mil anos de idade, muitas das passagens podem soar distantes para pessoas menos familiarizadas, já que o texto era dirigido a praticantes monásticos e renunciantes, que abandonaram as tarefas cotidianas para se dedicarem exclusivamente ao caminho da iluminação.

No entanto, o cerne da mensagem permanece válido e relevante mesmo para praticantes leigos dos dias de hoje:

  • desencanto e desilusão com o ciclo de sofrimento são cruciais;

  • amor e compaixão devem ser estendidos a todos os seres imparcialmente, sendo o coração da prática;

  • é preciso cultivar a sabedoria que distingue a ilusão da realidade.

Esses são os três temas que permeiam o texto, cujos capítulos estão divididos conforme a clássica aspiração da boditchita, de uma única estrofe:

Possa a mente do despertar sublime
nascer onde não tiver nascido ainda (cap. 1 a 3),
não degenerar onde tiver surgido (4 a 6)
e se multiplicar sempre e sempre mais (7 a 9).

O texto também pode ser dividido conforme as Seis Perfeições: generosidade (capítulos 2 e 10, entre outros), disciplina (4 e 5), paciência (6), diligência (7), concentração (8) e sabedoria (9).

Shantideva#

O mestre budista Shantideva viveu na Índia no século 8. Vinha de família nobre, mas abdicou das riquezas para viver e meditar como um monge renunciante. Sua fama é inseparável do texto Engajamento na Ação Bodisatva, que ele ensinou na universidade budista de Nalanda, surpreendendo a todas, que desconheciam sua elevada realização espiritual e profundo nível de instrução.

Depois disso, realizou diversos feitos, comparáveis ao do próprio Buda, e passou a ser considerado um mahasiddha, praticante cuja iluminação espiritual possibilita atividades milagrosas.

Estrutura#

Na tradição tibetana, o estudo de textos clássicos budistas é feito seguindo um comentário que divide a obra original em seções. Isso traz mais contexto e significado à escritura, facilitando a compreensão e a retenção na memória.

Por isso, incluí nesta tradução os tópicos do comentário de Khenpo Kunzang Palden (བྱང་ཆུབ་སེམས་དཔའི་སྤྱོད་པ་ལ་འཇུག་པའི་ཚིག་འགྲེལ་འཇམ་དབྱངས་བླ་མའི་ཞལ་ལུང་བདུད་རྩིའི་་ཐིག་པ་), que foi traduzido em inglês como The Nectar of Manjushri Speech.

No capítulo 9, de estrutura mais complexa, há também algumas divisões extras, do comentário de Pawo Tsukla Trenwa (བྱང་ཆུབ་སེམས་དཔའི་སྤྱོད་པ་ལ་འཇུག་པའི་རྣམ་པར་བཤད་པ་ཐེག་ཆེན་ཆོས་ཀྱི་རྒྱ་མཚོ་ཟབ་རྒྱས་མཐའ་ཡས་པའི་སྙིང་པོ་), cujo capítulo 9 encontra-se traduzido em inglês no livro The Center of The Sunlit Sky.

Os tópicos que antecedem os versos informam em que contexto as instruções estão sendo dadas e muitas vezes realmente reorientam a leitura. Por exemplo, as estrofes 5 a 16 do capítulo 8 parecem criticar “pessoas imaturas”. No entanto, levando em conta que o tópico é “Abrir mão do apego aos seres”, percebemos que o objetivo não é criticar outras pessoas, mas sim, nos libertar do apego a elas.

A quantidade de sinais “>” antes de cada tópico indica o nível de sua subdivisão. Por exemplo, um tópico marcado com “>>>” indica que ele é a terceira subdivisão do tópico raiz.

Para verificar a estrutura de tópicos de todo o texto, consulte o “Apêndice 1: Seções e tópicos”.

Comentários#

Khenpo Kunzang Palden (1862~1943), que escreveu o comentário em que a maioria dos tópicos e notas deste livro se baseia, era aluno de um lendário mestre tibetano: Patrul Rinpotche. Apesar de ser um detentor da linhagem Nyingma, Lama Patrul atuava de forma não sectária, sendo considerado um exímio professor por todas as tradições tibetanas. Segundo o Khenpo, seu comentário é uma transcrição dos ensinamentos de seu mestre.

Patrul Rinpotche foi um dos grandes responsáveis pela revitalização do estudo de Engajamento na Ação Bodisatva no século 19, e sua linhagem é considerada eminente por diversos mestres — entre eles, o Dalai Lama, que detém essa transmissão.

Já Pawo Tsukla Trenwa (1504~1566) foi um importante detentor da linhagem Karma Kagyu. No “Capítulo 9 – Perfeição da Sabedoria”, muitas das notas que aparecem após os versos são baseadas em seu comentário, que acrescenta uma dimensão Mahamudra — especialidade da linhagem Kagyu — à contemplação da vacuidade. Elas estão marcadas com a sigla PTT (caso contrário, são notas baseadas no comentário de Khenpo Kunzang).

Madhyamaka#

O capítulo 9 trata especificamente da sabedoria que reconhece a vacuidade de todos os fenômenos — essa é a visão Madhyamaka. Essa palavra em sânscrito poderia ser traduzida como “proponente do centro”. Ao contrário do que se costuma imaginar, esse centro não se refere a algo no meio de dois extremos — um “caminho do meio” — mas sim, trata-se mais de uma inefável essência, núcleo ou natureza da realidade.

O método Madhyamaka basicamente consiste em um diálogo — que, na prática, fazemos conosco mesmos — culminando na realização do caráter ilusório de todas as coisas. Essa compreensão e sua consequente realização meditativa são essenciais para a neutralização de aflições como raiva e apego, estando na base também da realização da natureza buda inerente a todos os seres e fenômenos.

A argumentação filosófica envolvida costuma ser desafiadora devido à complexidade da terminologia e da lógica dos argumentos, por vezes exótica. No entanto, seu objetivo é muito prático e benéfico: aprendemos como identificar enganos enraizados em nossa mente e como abrir mão disso, para que a realidade de fato seja reconhecida.

A familiaridade com a filosofia Madhyamaka também auxilia muito algumas práticas do budismo Vajrayana, como a meditação em deidades ou o reconhecimento da natureza da mente. Este é um dos motivos principais porque tal estudo integra o currículo de todos os colégios budistas tibetanos.

Para não colocar um obstáculo à leitura no início, esta introdução é mais genérica e breve. No posfácio, há um texto mais detalhado, há um texto mais detalhado que esclarece diversos pontos menos óbvios do texto. Caso tenha menos familiaridade com o budismo e seu contexto cultural, sugiro essa leitura antes do texto principal.

Esta tradução e compilação foi realizada entre março e outubro de 2021. Os originais tibetanos usados foram o texto (petcha) publicado pela Sherig Parkang (Índia, 2002) e as versões digitais do site Studying Buddhism e do monastério Karma Lekshe Ling.

Que em todo lugar possam sempre aumentar
a compaixão e ajuda mútua entre todos os seres!

Dedicado a Yoko Satomi,
cuja bondade e carinho
possibilitaram que eu também
tentasse fazer algo de bom.

São Paulo, outubro de 2021.