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Parte 1 – A causa#

Agora cada parte será explicada detalhadamente. A primeira é:

A causa é a natureza buda.


Capítulo 1 – Causa (natureza buda)#

Sobre isso (“a causa é a natureza buda”), devemos nos libertar da natureza enganadora da existência cíclica e, assim, realizar a budeidade insuperável. Mas poderia ser considerado:

— Para seres inferiores como nós, mesmo que nos esforcemos, como teríamos a capacidade de obter isso?

Através da dedicação e a consequente realização, como a iluminação poderia não ser realizada? Pessoas como nós e todos seres sencientes possuímos a causa da budeidade, porque possuímos a essência tathagata (natureza buda).

Sobre isso, o Sutra Rei do Samadhi1 ensina:

A natureza buda permeia completamente todos os seres.

A versão curta do Sutra do Grande Nirvana afirma:

Todos os seres sencientes possuem a essência tathagata.

E o Sutra do Grande Nirvana em si diz:

Por exemplo, assim como o leite permeia a manteiga, a natureza buda permeia todos seres sencientes.

O Ornamento dos Sutras Mahayana menciona:

Porque a natureza da realidade é a mesma para todos, é pura e isso é o verdadeiro Tathagata (Buda). Todos seres têm essa essência.

— Mas qual é o motivo de seres possuírem a essência buda?

Isso acontece porque o dharmakaya-vacuidade permeia seres sencientes, não há diferenças na natureza da realidade e todos os seres possuem essa descendência.

Então, seres sencientes possuem a natureza buda devido a esses três motivos. Sobre isso, o Sublime Contínuo ensina:

Porque o corpo iluminado perfeito permeia a tudo, porque a natureza da realidade é indiferenciável,
e porque os seres possuem essa descendência. Então,
todos os seres vivos sempre têm a essência buda.

O dharmakaya-vacuidade permeia os seres sencientes – O Buda é o dharmakaya, e o dharmakaya é vacuidade. Como a vacuidade permeia todos os seres, eles então possuem a natureza buda.

Não há diferenciações na natureza da realidade – Na natureza da budeidade e dos seres sencientes, não há diferenças como bom ou ruim, grande ou pequeno, alto e baixo. Então, os seres possuem a natureza buda.

Todos os seres possuem essa descendência Entre seres sencientes, há cinco tipos de descendência iluminada. Quais são? O resumo é:

Descendência interrompida, indefinida, shravakas, pratyekabudas e descendência mahayana.
Essas cinco abrangem a descendência iluminada.

1. Descendência interrompida#

Sobre as pessoas com descendência interrompida, não há senso de vergonha ou constrangimento (em relação à desvirtude), compaixão e outras qualidades, totalizando seis características. Sobre isso, o grande mestre espiritual Asanga ensinou (em Níveis Shravaka):

Ao ver as falhas da existência cíclica, não há o menor desgosto. Ao escutar sobre as qualidades da budeidade, não há a mínima fé. Não há senso de vergonha, constrangimento ou compaixão. Sobre o excesso de desvirtudes, não há o menor arrependimento. Em conjunto, essas seis ausências anulam a herança da budeidade.

O Ornamento dos Sutras Mahayana também afirma:

Algumas pessoas cometem violações de fato, algumas destroem tudo que é positivo, algumas não possuem a virtude em acordo com a liberação. Tendo qualidades insuficientes, estão separadas da causa da iluminação.

Apesar de ser dito que as pessoas com essas características têm a descendência buda interrompida, isso não significa que elas jamais chegarão à budeidade, mas sim que terão que vagar por um tempo muito maior na existência cíclica. Mas, com esforço, elas também realizam a iluminação. Sobre isso, o Sutra Lótus Branco da Compaixão diz:

Ananda, se um ser senciente sem potencial para o nirvana, visualizar o Buda e lançar uma mera flor no espaço, então ela possui o resultado para o nirvana. Eu proclamo que ela está repleta de nirvana e vai realizá-lo completamente.

2. Descendência indefinida#

As pessoas de descendência indefinida dependem de circunstâncias. Alguém pode ter fé na tradição Shravaka2 caso conte com um professor espiritual dessa descendência, tenha a companhia de shravakas ou leia seus sutras. Então, ao se converter para essa tradição, ela efetivamente se torna uma shravaka. Da mesma maneira, alguém que encontre condições relacionadas às tradições Pratyekabuda ou Mahayana se torna uma praticante pratyekabuda ou mahayana.

3. Descendência Shravaka#

As pessoas de descendência shravaka temem a existência cíclica, têm confiança no nirvana e compaixão menor, assim como afirma uma escritura:

Ao ver o sofrimento do samsara,
têm medo. Têm fé intensa no nirvana.
Não se deleitam intensamente
com o benefício de seres.
As pessoas com essas três características
têm a descendência shravaka.

4. Descendência Pratyekabuda#

As pessoas de descendência pratyekabuda (“buda solitário”) têm as três características acima e também muito orgulho, mantêm segredo sobre seu mestre e preferem ficar sozinhas em locais isolados. Uma escritura menciona:

Pessoas que sentem desgosto pela existência e se animam com o nirvana, têm pouca compaixão, muito orgulho, escondem seu mestre e gostam de permanecer sozinhas. A pessoa instruída deve reconhecer aí a descendência Pratyekabuda.

Esses dois tipos — descendências shravaka e pratyekabuda — engajam-se nos respectivos caminhos e obtêm seus resultados, no entanto isso não é o nirvana de fato.

— Então o que é essa condição?

Baseadas em sua realização que ainda contém padrões habituais de ignorância, suas ações prévias não contaminadas (com as causas do renascimento) fazem com que permaneçam absortas em um corpo mental. No entanto, nesse estado, como há um samadhi não contaminado, essas pessoas permanecem com a percepção de que isso é o nirvana.

— Se isso não é o nirvana de fato, o Bhagavan não deveria ter ensinado esses dois caminhos.

Não há erro. Imagine, por exemplo, mercadores que partiram para os grandes mares do mundo em busca de pedras preciosas. Parando no meio da jornada, em meio à desolada vastidão, eles pensam: “Não encontraremos joias.”

Então, o capitão — por meio de atividades miraculosas — emana uma grande cidade para aqueles que consideram retornar, onde podem descansar.

Desse mesmo modo, para seres de pouca coragem, que se amedrontam ao ouvir sobre a sabedoria primordial do Buda e — ao pensarem “realizar a budeidade é muito difícil, não tenho essa capacidade” — não adentram o caminho ou desistem no meio, para eles, foi ensinado esses dois caminhos, para que possam recuperar forças na realização shravaka ou pratyekabuda. O Lótus Branco do Dharma Sagrado afirma:

Assim, todos esses shravakas têm a percepção
de que realizaram o nirvana.
Mas o Vitorioso diz a eles:
“Não é o nirvana, mas um descanso.”

Sabendo que a realização shravaka e pratyekabuda é um descanso para os seres, o Tathagata então os estimula a realizarem a budeidade.

— Então como é esse estímulo?

Ele é feito com o corpo, fala e mente iluminadas. Com a mente, raios de luz são emanados. Assim que tocam os corpos de shravakas e pratyekabudas, os despertam desse samadhi não contaminado (com as causas do renascimento). Então, revelando uma manifestação de seu corpo, o Buda fala:

Monges, aquilo que vocês têm a fazer não foi concluído. Esses atos não bastam e esse nirvana não é o nirvana. Monges, aproximem-se do Tathagata, escutem e compreendam.

Sobre isso, o Lótus Branco do Dharma Sagrado também diz, em versos:

Monges, hoje eu digo para vocês:
apenas com isso, não haverá nirvana.
Para realizarem a sabedoria primordial onisciente,
deem nascimento a uma sublime e vasta onda
de esforço e regozijo; assim,
realizarão a sabedoria primordial onisciente.

Ao serem estimulados dessa maneira, eles dão nascimento à grande mente do despertar e realizam a budeidade após se engajarem na conduta bodisatva por incontáveis eras. Isso também é ensinado no eminente Sutra da Jornada a Lanka. Do mesmo modo, o Lótus Branco do Dharma Sagrado diz:

Aqueles shravakas que não passaram ao nirvana,
ao se engajarem por inteiro na conduta bodisatva,
todos eles se tornarão budas.

5. Descendência Mahayana#

— Como é a descendência mahayana?

Seu resumo é:

Divisões, características, sinônimos,
razões de sua excelência sobre as outras,
formas e sinais. Estes cinco pontos
sumarizam a descendência mahayana.

1. Divisões#

Sobre suas divisões, há duas: a descendência que existe naturalmente e a descendência que é apropriadamente realizada.

2. Características#

Analisando cada uma das divisões, na descendência que existe naturalmente, desde um tempo sem início, há potencial para gerar as qualidades da budeidade devido à natureza da realidade.

Na descendência que é apropriadamente realizada, o potencial para gerar as qualidades da budeidade vem de um cultivo prévio de raízes de virtude.

Essas duas características definem aquilo que permite a iluminação.

3. Sinônimos#

Os sinônimos para essa descendência são: herança (ou família), semente, elemento constituinte e natureza.

4. Razões de sua excelência#

As descendências shravaka e pratyekabuda são inferiores porque basta purificar os obscurecimentos aflitivos para realizá-las. A descendência mahayana é sublime pois os dois tipos de obscurecimentos são purificados para sua realização. Por isso, essa descendência tem uma eminente excelência em relação a todas as outras, sendo insuperável.

5. Formas e sinais#

Sobre as formas dessa descendência, há a forma ativada e a não ativada. É ensinado que a forma ativada “frutificou corretamente” e os sinais são visíveis. Já sobre a forma não ativada, é ensinado que ela “não frutificou corretamente” e os sinais são invisíveis.

Sendo assim, quais condições ativam a descendência? A ausência de condições antagônicas e o aproveitamento de condições propícias despertam a descendência; sem isso, ela não é ativada.

Há quatro condições antagônicas:

  • nascer em uma situação sem liberdades;

  • falta de cuidado (em relação à iluminação)3;

  • envolvimento com perversidades;

  • e a mácula de obscurecimentos.

Há duas condições favoráveis:

  • a condição externa é o professor do Dharma sagrado;

  • a interna é o engajamento mental apropriado, que aspira por virtudes e tudo mais.

Os sinais são aqueles que caracterizam a descendência bodisatva. O Sutra dos Dez Dharmas afirma:

Pela fumaça, sabe-se que há fogo.
Pela presença de gansos, sabe-se que há água.
Pelos sinais da descendência de bodisatvas com sabedoria, a reconhecemos.

— Então como são esses sinais?

Sem precisar de antídotos, suas ações de corpo e fala são naturalmente gentis. Há muito pouca falsidade em suas mentes e elas são amorosas e puras com seres sencientes. Sobre isso, o Sutra dos Dez Dharmas diz:

Sem grosseria ou ofensa,
tendo abandonado a desonestidade e trapaça,
puramente sinceras com todos os seres;
assim são as pessoas bodisatvas.

Além disso, antes de realizarem qualquer atividade, dão nascimento à compaixão por seres sencientes. Aspirando genuinamente ao Dharma Mahayana, com a paciência que não se afeta com dificuldades, se engajam perfeitamente nas virtudes fundamentais constituídas pelas Seis Perfeições. Sobre isso, o Ornamento dos Sutras Mahayana menciona:

Compaixão antes da atividade,
aspiração e paciência,
e engajamento perfeito na virtude;
estes devem ser reconhecidos
como os sinais da descendência.


Sendo assim, entre os cinco tipos, a descendência mahayana é a causa que está mais próxima da budeidade. Como as descendências shravaka e pratyekabuda também levam à iluminação no final, elas são causas mais distantes. Com a descendência indefinida, algumas pessoas têm uma causa próxima; outras, uma distante. Já a descendência interrompida é apenas considerada mais remota — não é que a iluminação jamais será realizada, mas sim que ela está extremamente distante.

Então, devido ao fato de seres possuírem um desses tipos de descendência, eles possuem a natureza buda. Sobre isso, três pontos ilustram como todos os seres sencientes possuem a essência buda.

— Quais são esses exemplos?

São as maneiras em que há prata no minério de prata, há óleo na semente de gergelim e há manteiga no leite4. Ou seja, é possível produzir prata com minério de prata, óleo de gergelim com as sementes, e produz-se manteiga com leite. Desse mesmo modo, a budeidade que há nos seres pode ser realizada.

Este foi o “Capítulo 1 – Causa”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 Também conhecido como Sutra de Tchandraprabha, essa escritura tem uma importância especial na linhagem Dagpo Kagyu pois Gampopa era considerado uma reencarnação do bodisatva Tchandraprabha.

2 “Shravaka” (ou “pratyekabuda”) se referem a tradições que provavelmente se perderam no tempo há muitos séculos, sem relação com escolas budistas atuais. De um ponto de vista prático, aquilo que é classificado como uma “motivação inferior” está dentro de cada pessoa, sendo este o ponto crucial.

3 O original menciona “falta de hábitos positivos”, mas S.S. Karmapa Orgyen Trinle Dordje afirma que esse é um erro tipográfico. Ele está corrigido na edição Palpung do original.

4 Isso ilustra também quão longe está a budeidade: prata é difícil de extrair (descendência interrompida), óleo de gergelim representa uma dificuldade média (shravakas e pratyekabudas) e manteiga é fácil de obter (Mahayana).