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Parte 5 – Resultado#

O resultado é o corpo da iluminação perfeita.

Sobre isso, após percorrer completamente esses níveis e caminhos, há a iluminação manifesta e completa na forma dos três corpos puros1. A escritura Tocha para o Caminho da Iluminação também menciona:

A iluminação da budeidade não está (mais) distante.

Capítulo 20 – Ensinamento sobre#

o resultado: budeidade perfeita

Sobre a budeidade, o resumo é:

Natureza, significado da palavra, aspectos,
princípios, enumeração, características e particularidades. Os três corpos
da budeidade perfeita se resumem em sete pontos.

1. Natureza da budeidade#

No primeiro ponto, a natureza da budeidade pura e perfeita é a purificação plena com sabedoria primordial plena2.

Purificação plena#

Os obscurecimentos aflitivos e os cognitivos vão sendo removidos durante os níveis e caminhos, e são eliminados sem exceção após o samadhi como um vajra. Já obscurecimentos à absorção meditativa e outros também são exauridos, pois são ramificações dos dois obscurecimentos anteriores. Quando esses dois são eliminados, todos os obscurecimentos também são.

Sabedoria primordial plena#

Em relação à sabedoria primordial plena, há diferentes opiniões. Alguns dizem que budas também possuem conceitos, ao mesmo tempo que têm sabedoria primordial. Alguns dizem que budas não possuem conceitos, mas têm a sabedoria primordial que conhece tudo claramente. Alguns dizem que a sabedoria primordial tem sua continuidade interrompida. Alguns dizem que budas nunca experimentaram uma sabedoria primordial.

Sobre isso, as escrituras tanto dos sutras quanto dos tantras mencionam sim a sabedoria primordial de budas; por exemplo, o eminente Sumário da Perfeição da Sabedoria afirma:

Assim, caso deseje contato com a sublime sabedoria primordial de budas, tenha confiança nessa Mãe dos Vitoriosos.

A escritura Perfeição da Sabedoria em Cem Mil Versos também menciona:

Quem realizou a pura budeidade perfeita descobriu a imaculada sabedoria primordial sobre todos os fenômenos.

E o capítulo 21 do mesmo texto ensina:

Há a sabedoria primordial do Buda insuperável. Há o giro da roda do Dharma. Há a atividade de amadurecer plenamente seres sencientes.

Em outras escrituras, também há muitas menções à sabedoria primordial. Entre os comentários (shastras), o Ornamento dos Sutras Mahayana diz:

Assim como, ao surgir um raio de luz do sol, também surgem todos os raios do sol, do mesmo modo é a sabedoria primordial do Buda. É assim que ela deve ser entendida.

E também:

A sabedoria primordial do espelho é inabalável;
as (outras) três sabedorias primordiais
se baseiam inteiramente nela:
a da igualdade, da distinção e da atividade.

Outros comentários também explicam a sabedoria primordial. Com base nessas escrituras, algumas pessoas dizem que budas possuem sabedoria primordial.

Para explicar o modo como isso ocorre, há basicamente dois tipos: a sabedoria primordial da natureza de tudo3 e a sabedoria primordial da multiplicidade.

Sabedoria da natureza de tudo#

A sabedoria primordial do reconhecimento da natureza de tudo é a lucidez da natureza absoluta. Como já mencionado, ao finalizar o samadhi como um vajra, a partir da familiarização completa com a realidade assim como ela é, todo envolvimento conceitual é pacificado, já que os objetos fabricados são desenraizados sem exceção.

Com isso, o dharmadhatu não fabricado e a sabedoria primordial livre de elaborações passam a ter um único sabor, sem divisões, como água derramada na água, ou manteiga, na manteiga. Ao não ver absolutamente nenhuma forma (inerentemente existente) — como na afirmação “enxergar o espaço” —, a grandiosa sabedoria livre de (fixação nas) aparências se torna a base de todas as qualidades preciosas. Nesse sentido, é dito (em Carta das Gotas de Néctar, de Ngok Loden Sherab):

Assim como colocar água em água,
ou manteiga, na manteiga,
a própria esfera da experiência4
se funde completamente
com a sabedoria primordial, sem divisões.
Isso é chamado de dharmakaya,
a natureza de todas as formas de budas.

Também é dito (no Sumário da Perfeição da Sabedoria):

Seres realmente falam que “veem o espaço”.
Examine como é ver o espaço.
O Tathagata ensinou a ver os fenômenos desse modo.
Não há como expressar essa visão com outra analogia.

Sabedoria da multiplicidade#

A sabedoria primordial do conhecimento sobre a multiplicidade é a onisciência sobre todas as convenções da realidade relativa. Com base no domínio do samadhi como um vajra, todas as sementes de obscurecimentos são destruídas e surge vasta sabedoria. Através desse poder, há a visão e conhecimento condensados de todos os aspectos da esfera da experiência nos três tempos, da mesma forma como podemos ver uma groselha indiana fresca na palma da mão.

Uma escritura (Tesouro do Abidharma) explica o conhecimento da realidade relativa de budas assim:

Todos os aspectos das causas particulares
das cores de um pavão não estão
na esfera de experiência de alguém sem onisciência.
Já o Onisciente tem esse poder de conhecimento.

O Sublime Contínuo também afirma:

Aquele que Conhece o Mundo,
através de grande compaixão,
tendo enxergado tudo no mundo...

Sobre essa mente e visão, isso não é similar à fixação nas coisas como sendo reais. Há lucidez e visão sobre isso ser como uma ilusão mágica, assim como ensina o Sutra que Reúne Perfeitamente as Qualidades:

Por exemplo, um ilusionista está
livre da ilusão que cria.
Portanto, devido a esse conhecimento especial,
não se apega às ilusões mágicas.
Do mesmo modo, quem tem maestria
na iluminação perfeita reconhece os três reinos
como uma ilusão mágica.

O Sutra do Encontro da Criança com o Pai também afirma:

Já que um ilusionista sabe que suas criações
são ilusões, ele não se engana sobre elas.
Aos oniscientes, vocês que enxergam todos os seres
dessa maneira, presto reverência e louvores!

Há também quem diga que budas com iluminação perfeita possuem lucidez sobre a realidade absoluta — a sabedoria da natureza de tudo — mas não possuem conhecimento sobre a realidade relativa — a sabedoria da multiplicidade.

Nesse argumento, não é que há algo para conhecer mas seu conhecimento não existe. O ponto é que, não havendo (em absoluto) nada relativo para ser conhecido, uma sabedoria que conhece isso também não existe.

Além do mais, o relativo é algo que aparece para seres sem maturidade — devido à ignorância de suas aflições — e para os três tipos de seres eminentes que ainda possuem ignorância, mas sem aflições. A analogia para isso é como o aparecimento de fios de cabelo ou distorções visuais para quem sofre de distúrbios oculares.

Budas eliminam a ignorância, ao final do samadhi como uma vajra, e têm a visão da realidade como ela é, de modo que nenhum fenômeno (inerentemente existente) é visto. Assim, budas não possuem essa confusão da realidade relativa. A analogia para isso é alguém curado de uma doença ocular, para quem fios de cabelo ou distorções visuais não aparecem.

Por isso, (nesse argumento,) essas aparências relativas são consequências da ignorância, sendo estabelecidas somente em relação ao contexto mundano. Para budas, elas não existem; então uma sabedoria que as conhece também não existe. (Por isso, há o argumento:)

— Caso budas tivessem a mente conceitual que contém essas aparências, objetos surgiriam em confusão e, assim, budas teriam confusão. Isso contradiz as escrituras5 que afirmam que Grandes Sábios repousam constantemente em equilíbrio meditativo, entre outras menções.

Sobre isso, quem defende o argumento anterior (de que budas também possuem a sabedoria da multiplicidade) responde:

— A mera pós-meditação e tudo mais (de budas) não se transformam em distração. Não há contradição com as escrituras que dizem que o equilíbrio meditativo é constante.

E acrescenta:

— Afirmar que o mero surgimento de objetos ilusórios implica delusão também não procede. Budas reconhecem como sendo ilusão o aparecimento de todos os objetos ilusórios alheios e as mentes que se fixam neles, sem exceção. Ao mesmo tempo, eles extinguem isso no final, usando-a (essa ilusão) como a própria base para os renascimentos superiores, purificação e liberação de seres. Então onde está a delusão (de budas)? É por isso que é ensinado: “Ao reconhecer perfeitamente meras ilusões, a própria ausência de delusão é mantida de modo inequívoco.”

Há também quem diz:

— Não há prejuízo em definir objetos relativos como válidos, pelos quais não há fixação como sendo verdadeiros. Já que não há prejuízo, mesmo que budas os vejam como objetos, não há confusão.

Então a posição anterior é que budas possuem a sabedoria primordial do pós-meditação, chamada de (lucidez sobre a) “multiplicidade”, assim como é mencionado (em Carta das Gotas de Néctar):

Primeiramente, há a sabedoria primordial
da natureza de tudo: sem delusão,
com equilíbrio meditativo
e sem envolvimento conceitual.
Depois, há a sabedoria primordial da multiplicidade: com aparências ilusórias, pós-meditação
e engajamento mental.

A outra posição é que budas não possuem a sabedoria primordial do pós-meditação, assim como diz o Sutra da Realização de Entradas Sem Fim:

Tendo realizado a manifesta budeidade perfeita, tathagatas não percebem nem têm em suas mentes nenhum fenômeno. Por que isso? Porque não há de fato nenhum objeto a ser percebido.

Outra escritura (Louvor ao Extraordinário e Eminente) também afirma:

Não budistas dizem que
há um local para ir após a liberação.
Já para você (Buda), ao alcançar a paz,
não há nada palpável, como uma vela que se apaga.

Isto conclui a explicação sobre essas diferentes opiniões.

Um gueshe6 afirma o seguinte: o buda perfeito e completo é o dharmakaya. O que é chamado de dharmakaya é a exaustão de todos os erros, tendo uma natureza que é simplesmente o oposto dos erros. Ao mesmo tempo, isso é mera convenção verbal. Em absoluto, o dharmakaya é não nascido e livre de fabricações. O Ornamento dos Sutras Mahayana afirma que “essa abordagem é acolhedora”.

A visão de Jetsun Milarepa é a seguinte:

O que é chamado de sabedoria primordial é esta própria lucidez, intocada por fabricações, além de “existe ou não existe”, “é eterno ou não é nada”, além de palavras ou do intelecto. O que quer que seja dito sobre isso, não há contradição. Então a sabedoria primordial também é desse modo. Se uma pessoa que deseja se tornar instruída perguntasse para o próprio Buda, não acho que ele teria uma única posição. O dharmakaya está além do intelecto, é não nascido e livre de fabricações. Não pergunte para mim. Observe a mente; a liberação é simplesmente a própria extinção do erro.

Então buda é o dharmakaya. O dharmakaya é não nascido, livre de fabricações; assim, não há posse de sabedoria.

— Mas isso contraria o que é dito nos sutras sobre duas sabedorias primordiais.

Não há contradição. Assim como surge a consciência visual com o aparecimento da cor azul, e depois é dito “vejo azul”, (primeiramente,) a sabedoria primordial que é o dharmadhatu é considerada como sendo a sabedoria da natureza de tudo; (depois,) a sabedoria da multiplicidade é definida como o aspecto relativo, posicionada em relação à percepção de seres que precisam de treinamento. Por isso, a perfeição dessas sabedorias é a essência ou natureza de budas. O Sublime Contínuo diz:

A budeidade em si é indivisível,
mas é entendida em dois aspectos,
assim como o sol e o espaço, em relação à pureza:ela se caracteriza por eliminação e sabedoria primordial.

O Ornamento dos Sutras Mahayana também afirma:

As pessoas que passaram por intensa e vasta purificação de todas as maneiras, derrotando e prevalecendo sobre as sementes dos obscurecimentos aflitivos e cognitivos que abrigaram continuamente por muito tempo, alcançando a posse das mais sublimes qualidades,
são de fato budas.

2. Significado da palavra#

— O que significa “buda”?

O despertar da ignorância que é como o sono, junto com o florescimento da mente em relação às duas esferas de experiência7, é chamado de “buda”. Nesse sentido, é dito (70 Estrofes Sobre o Refúgio nas Três Joias):

Já que despertou do sono da ignorância
e ampliou a mente, é Buda.

Nessa passagem, “despertou do sono da ignorância” significa completar perfeitamente o aspecto de eliminação (de obscurecimentos), como mencionado antes; “ampliou a mente” é sobre a perfeição de fato da sabedoria primordial, que também já foi explicada.

3. Aspectos da budeidade#

A budeidade pode ser dividida em três aspectos ou “corpos”: dharmakaya, sambhogakaya e nirmanakaya. Sobre isso, o Sutra da Sagrada Luz Dourada afirma:

Quaisquer tathagatas possuem três corpos:
dharmakaya, sambhogakaya e nirmanakaya.

— Mas algumas escrituras falam em dois corpos. Também há menções a quatro ou cinco corpos.

Eles são apresentados assim, mas todos estão incluídos nesses três corpos. Por exemplo, o Ornamento dos Sutras Mahayana menciona:

Deve ser entendido que os três corpos
abrangem as formas de budas

4. Princípios#

Sobre a apresentação dos princípios dos três corpos, o dharmakaya é a verdadeira budeidade, assim como ensina a escritura Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Versos:

Não veja o Tathagata como sendo o corpo com forma.
Tathagata é o dharmakaya.

O Sutra Rei do Samadhi também afirma:

Não veja o Soberano Entre as Pessoas Vitoriosas
como sendo o corpo com forma.

O surgimento dos dois corpos com forma deve ser entendido com base na reunião de três fatores:

  • as bençãos do dharmakaya;

  • a experiência subjetiva de pessoas em treinamento;

  • aspirações anteriores que influenciam a manifestação do corpo iluminado.

Caso esses corpos fossem resultados apenas das bençãos do dharmadhatu, a consequência lógica seria a liberação sem esforço de todos seres, já que o dharmadhatu permeia a tudo. Ou então, a consequência seria todos seres sencientes encontrarem budas face a face. Como isso não acontece, corpos iluminados não surgem com base apenas nas bençãos do dharmadhatu.

A consequência lógica de corpos iluminados surgirem unicamente da experiência subjetiva de pessoas em treinamento é a seguinte. Perceber uma aparência que não existe é um engano8. Se fosse possível realizar a budeidade com base em um engano, já que seres sencientes estão envolvidos nesse engano desde um tempo sem início, todos já teriam realizado a budeidade apenas fazendo isso. Como isso não acontece, corpos iluminados não surgem apenas da experiência subjetiva de pessoas em treinamento.

No caso de esses corpos surgirem unicamente de aspirações, um buda perfeito e completo realizou ou não o poder sobre aspirações? Se não realizou, então não chegou à onisciência9. Se realizou, a consequência lógica é que, através de suas aspirações, todos seres já teriam liberação sem esforço — já que budas fazem aspirações para o benefício imparcial de todos os seres. Como não é assim, corpos iluminados não surgem com base apenas em aspirações prévias.

Por isso, os dois corpos iluminados com forma surgem a partir da reunião desses três fatores.

5. Enumeração dos corpos da budeidade#

Há a enumeração de três corpos porque isso é necessário, já que o dharmakaya é o benefício para si, e os dois corpos com forma são para o benefício alheio.

— Como o dharmakaya realiza esse benefício para si?

Ao realizar o dharmakaya, isso é a base para todas as qualidades dos poderes, destemores e tudo mais, que são reunidas como se estivessem sendo convocadas.

Além do mais, isso não se restringe à realização completa do dharmakaya. Se houver aspiração pelo dharmakaya, realização mínima, parcial ou quase completa, haverá qualidades correspondentes: em um nível mínimo, elevado, em profusão ou em número ilimitado, respectivamente.

As qualidades da aspiração pelo dharmakaya são todos os samadhis, clarividências e poderes excelentes, até a realização mundana suprema10.

As qualidades da realização mínima são todos os aspectos de eliminação, clarividência, poderes milagrosos e tudo mais, que eminentes shravakas e arhats possuem.

As qualidades da realização parcial do dharmakaya são todos os samadhis, aspectos de eliminação, clarividência e tudo mais, de eminentes pratyekabudas e arhats.

As qualidades da realização quase completa são todos os samadhis, aspectos de eliminação, clarividência etc, de bodisatvas que residem nos bhumis.

Já o benefício alheio é definido como sendo os dois corpos iluminados com forma. O sambhogakaya aparece na percepção de pessoas puras em treinamento11. O nirmanakaya aparece na percepção de pessoas impuras em treinamento.

Desse modo, há certamente três aspectos na manifestação da budeidade.

6. Características de cada um#

Dharmakaya#

Aquilo que é chamado de dharmakaya é a realização do significado da vacuidade, o dharmadhatu; por isso, é a extinção de todos os enganos, a mera neutralização da visão que dá existência às aparências que surgem no contexto da confusão. No entanto, dharmakaya é apenas uma convenção verbal. Porque, na realidade absoluta, não há de fato nenhum dharmakaya, características do dharmakaya ou alguma base real para essas características. Isso em si foi ensinado pelo guru Milarepa.

Já na explicação conceitual de suas características, o dharmakaya possui oito: uniformidade, profundidade, permanência, singularidade, verdade, pureza, clara lucidez e conexão com o sambhogakaya.

Uniformidade – É uniforme pois não há diferença no dharmakaya de todos budas.

Profundidade – É profundo pois é difícil de realizar, já que está livre de todas fabricações mentais.

Permanência – É permanente pois, sendo não composto, está livre de começo, meio, fim, surgimento e cessação.

Singularidade – É singular pois há a inseparabilidade de não haver diferença entre dharmadhatu e sabedoria primordial.

Verdade – É verdadeiro pois transcende os extremos do exagero ou subestimação, não contendo enganos.

Pureza – É puro pois está livre dos três obscurecimentos12.

Clara lucidez – É clara lucidez pois não há conceitos. Sendo perfeitamente não conceitual, o centro é essa própria não conceitualidade, a realidade assim como ela é.

Conexão com o sambhogakaya – O dharmakaya é a base para o sambhogakaya, que é a corporificação de suas vastas qualidades.

Sobre isso, o Sublime Contínuo menciona:

Sem início, meio e fim; indivisível;
livre de dois e de três; imaculado e
não conceitual. Ao realizar essa natureza
do dharmadhatu, a pessoa iogue
em equilíbrio meditativo vê isso.

O Ornamento dos Sutras Mahayana também afirma:

O corpo natural (dharmakaya) é uniforme e sutil,
conectado com o sambhogakaya...

Sambhogakaya#

O sambhogakaya também é caracterizado por oito fatores: séquito, local, corpo, sinais, dharma, atividade, realização espontânea, ausência de identidade.

Séquito – O círculo que acompanha (budas samboghakaya) é formado inteiramente por bodisatvas nos dez bhumis.

Local – O campo sambhogakaya é a terra pura perfeita.

Corpo – O corpo iluminado sambhogakaya é o glorioso Vairo-tchana e os outros budas.

Sinais – Os sinais desse corpo iluminado são as 32 marcas excelentes e os 80 sinais secundários.

Dharma – O ensinamento sambhogakaya perfeito é exclusivamente Mahayana.

Atividade – A atuação é profetizar a iluminação de bodisatvas e tudo mais.

Realização espontânea – Todas essas atividades surgem espontaneamente, sem esforço, assim como a majestosa joia (que realiza desejos).

Ausência de identidade – Apesar da profusão de corpos iluminados aparentes, não há uma profusão de identidades. Isso é como as cores refletidas por um cristal.

Sobre isso, o Ornamento dos Sutras Mahayana afirma:

O sambhogakaya se distingue pelo séquito completo onde quer que esteja, terras puras, sinais, corpo iluminado, a plena riqueza do Dharma e atividade.

O Ornamento da Realização também diz:

Já que corporifica as 32 marcas e 80 sinais,
com a riqueza do Mahayana, isso é considerado
o sambhogakaya do Sábio.

Nirmanakaya#

O nirmanakaya também é caracterizado por oito fatores: base, causa, local, tempo, constituição, atividades para introduzir, para amadurecer e para libertar.

Base – A base (do nirmanakaya) é o dharmakaya, ao mesmo tempo em que não há nenhum movimento (nesse surgimento).

Causa – A grande compaixão que aspira pelo bem de todos seres sencientes é a causa.

Local – Sua localização são terras puras perfeitas e também terras completamente impuras.

Tempo – Sua duração é ininterrupta, perdurando enquanto houver mundos.

Constituição – Três tipos de emanações são manifestadas. Emanações com habilidades assumem a forma de pessoas com maestria sem igual em diversas artes e ofícios, como tocar flauta. Emanações nascidas assumem diversas manifestações consideradas inferiores, como a de um coelho. Emanações sublimes demonstram desde a partida de Tushita, passando pela entrada no útero, até a chegada na grande pacificação. Sobre isso, o Ornamento dos Sutras Mahayana diz:

Constantemente se manifestando como artistas, criaturas nascidas, a grande iluminação e nirvana.
Este corpo de emanação (nirmanakaya) do Buda
é um grandioso método de liberação.

O Sublime Contínuo também ensina:

Através de uma profusão de emanações,
surgem nascimentos de fato. A descida de Tushita,
a entrada no útero, o nascimento, a habilidade
nas artes, o deleite com consortes, a renúncia,
o engajamento em austeridades, a chegada
no assento da iluminação, a destruição dos demônios,
a perfeição, o giro da roda do Dharma e a passagem
ao nirvana. Enquanto houver mundos, esses 12 atos
são encenados nas terras completamente impuras.

Atividade para introduzir – É a ação para gerar aspiração e introduzir seres ordinários no caminho dos três tipos de nirvana, conforme suas capacidades.

Atividade para amadurecer – É a ação para amadurecer pessoas que já adentraram o caminho.

Atividade para libertar – É a ação para libertar das amarras da existência condicionada as pessoas já completamente maduras em relação à virtude. Sobre isso, o Sublime Contínuo afirma:

Introduzir pessoas mundanas no caminho da pacificação, amadurecê-las por completo,
sendo o que dá forma às profecias (da iluminação)...

Essas são as oito características do nirmanakaya. O Ornamento da Realização ensina:

As atividades do corpo iluminado
que coexistem com a duração
da existência condicionada,
beneficiando seres de diversas maneiras,são o nirmanakaya ininterrupto do Sábio.

7. Particularidades dos corpos da budeidade#

Há três particularidades: uniformidade, permanência e manifestação.

Em relação à primeira, a particularidade da uniformidade, o dharmakaya de todos budas é o mesmo, sendo a base que não se diferencia do dharmadhatu. O sambhogakaya de todos budas é o mesmo, já que não há diferenças em sua sabedoria iluminada. O nirmanakaya de todos budas é o mesmo, já que compartilham da mesma atividade iluminada. Nesse sentido, o Ornamento dos Sutras Mahayana menciona:

Devido à base, sabedoria iluminada
e atividade, eles são os mesmos.

Sobre a particularidade da permanência, o dharmakaya é permanente por natureza, já que é a realidade absoluta, livre de surgimento e cessação. O sambhogakaya tem uma continuidade permanente porque oferece o desfrutar da riqueza do Dharma de modo ininterrupto. O nirmanakaya nem sempre aparece, mas é manifestado de novo e de novo. Apesar de cada expressão que atende necessidades não ser contínua, o surgimento é sempre apropriado e sem atraso. Então essa atuação é permanente. Sobre isso, o Ornamento dos Sutras Mahayana afirma:

Através da natureza, ininterrupção
e continuidade, eles são permanentes.

Sobre a particularidade da manifestação, o dharmakaya se manifesta (para seres) através da purificação dos obscurecimentos cognitivos que encobrem o dharmadhatu. O sambhogakaya se manifesta através da purificação dos obscurecimentos aflitivos. O nirmanakaya se manifesta através da purificação dos obscurecimentos kármicos.

Este foi o “Capítulo 20 – Ensinamento sobre o resultado: budeidade perfeita”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 “Três corpos puros” (sânsc.: trikaya; tib.: sku gsum) são as três manifestações da budeidade. Também são referidos como “três kayas”, “três corpos iluminados” ou “três corpos da budeidade”. Cada um deles será explicado adiante.

2 “Purificação” e “sabedoria” são dos dois aspectos na raiz da palavra budeidade, ou buda, em tibetano: sangs (purificação) + rgyas (florescimento).

3 A tradução literal desse termo (tib.: ji lta ba mkhyen pa’i ye shes) é “sabedoria primordial que conhece as coisas assim como elas são”. “Assim como elas são” se refere à sua natureza absoluta, inexprimível. Resumidamente, as duas sabedorias reconhecem tanto à natureza absoluta quanto às aparências relativas, respectivamente.

4 A tradução literal para “esfera da experiência” (tib.: shes bya) é “aquilo a ser conhecido”, referindo-se a todos os possíveis tipos de experiência.

5_ Nota do original tibetano:_ O Sutra da Vasta Exibição menciona: “Budas com iluminação completa e perfeita repousam o tempo todo em equilíbrio meditativo.”

6 Um lama instruído da tradição Kadampa que completou toda a formação de uma faculdade monástica era chamado de “gueshe”, sendo o equivalente a “khenpo”.

7 Fenômenos vistos como sendo materiais ou imateriais.

8 Nesse argumento, “perceber uma aparência que não existe” é a mesma coisa que “experiência subjetiva”, já que isso não é algo “objetivo” que outros seres percebem, ou seja, não é a realidade consensual.

9 Como mencionado antes, o poder sobre aspirações é uma das realizações da budeidade.

10 A última etapa do Caminho da Junção.

11 “Pessoas puras em treinamento” são bodisatvas do 1º bhumi em diante, que realizaram a “pureza” da vacuidade; as “impuras” estão abaixo do 1º bhumi.

12 Nota do original tibetano: obscurecimentos aflitivos, cognitivos e obscurecimentos ao equilíbrio meditativo.