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Capítulo 4 – Ensinamento sobre a impermanência de fenômenos compostos#

A primeira dessas instruções será apresentada: a meditação na impermanência, que é o antídoto para o apego às experiências desta vida. Em geral, todos os fenômenos compostos são impermanentes. O Buda disse:

Monges, todos os fenômenos compostos são impermanentes.

— Como eles são impermanentes?

O que foi acumulado se esgota no final. O que foi construído cai aos pedaços no final. Quem se reúne se separa no final. Quem vive morre no final. Nesse sentido, a Coletânea de Provérbios ensina:

O fim de toda acumulação é a dispersão,
o fim da construção é a desintegração,
o fim do encontro é a separação,
o fim da vida é a morte.

— Então, como meditar nisso?

O resumo é:

Categorias, métodos de meditação
e benefícios da meditação.
Esses três pontos sumarizam
a meditação na impermanência.

1. Categorias#

Há duas categorias: a impermanência do mundo externo e a impermanência de seres sencientes que o habitam. A primeira (mundo externo) ainda se subdivide em duas impermanências: grosseira e sutil. A segunda categoria (seres sencientes) também se divide em duas: a impermanência de outros seres e a impermanência de si.

2. Métodos#

Os métodos para meditar nisso seguem a mesma divisão.

Mundo externo: impermanência grosseira#

Desde a mandala de vento na base (do mundo) até os reinos das quatro absorções meditativas (dhyana) no topo, não há nada imutável, nada que tenha uma natureza permanente, com solidez. Às vezes, o fogo destrói tudo abaixo do reino da primeira absorção meditativa. Às vezes, a água destrói tudo abaixo da segunda absorção meditativa. Às vezes, o vento destrói tudo abaixo da terceira absorção meditativa.

Quando isso ocorre, na hora da destruição pelo fogo, não sobram nem cinzas — do mesmo modo quando óleo é queimado. Na hora da destruição pela água, não sobram nem sedimentos — da maneira como sal se dissolve na água. Na hora da destruição pelo vento, não sobra nenhum resquício — da maneira como o vento carrega poeira. Sobre isso, o Tesouro do Abidharma ensina:

Sete destruições pelo fogo,
cada uma seguida por uma de água.
Havendo então sete por fogo e sete por água,
com destruição pelo vento no final.

O estado da quarta absorção meditativa não é destruído por fogo, água ou vento. Os seres dali estão sujeitos à transferência da morte, perecendo naturalmente. Sobre isso, é dito (no Tesouro do Abidharma):

Os palácios celestiais feitos daquilo que é impermanente
surgem e cessam junto com seus seres.

A eventual destruição deste mundo também é descrita no Sutra Solicitado Pelo Leigo Viradatta:

Após o período de uma era, este mundo
que tem a natureza do espaço se transforma em espaço.
Até as montanhas são destruídas,
queimando por completo.

Mundo externo: impermanência sutil#

A impermanência sutil se refere às transformações das quatro estações, à impermanência do nascer e recolher do sol e da lua, e à impermanência de cada instante.

Sobre a primeira (transformações das quatro estações), a chegada do mês da primavera transforma o ambiente. A terra fica macia, com cor avermelhada. As plantas e a vegetação florescem. Mas esse é um período de transformação, impermanente.

Devido à influência da chegada da estação do verão, a terra fica úmida e as cores, verdes. A vivacidade das plantas e vegetação chega ao auge. Esse também é um período de transformação, impermanente.

Devido à influência da chegada da estação do outono, o solo endurece, as cores se tornam douradas. Plantas e vegetação dão frutos. Esse também é um período de transformação, impermanente.

Devido à influência da chegada da estação do inverno, o solo congela, as cores embranquecem. As plantas e vegetação secam e reduzem. Esse também é um período de transformação, impermanente.

Sobre a impermanência do nascer e recolher do sol e da lua, pela influência do nascimento do dia, o mundo se torna iluminado e claro. Já pelo poder do cair da noite, tudo é coberto pela escuridão. Esses também são sinais da impermanência.

Sobre a impermanência de cada instante, o mundo externo do instante anterior não permanece até o instante seguinte. Parece que permanece. No entanto, surge uma outra coisa, parecida — como, por exemplo, no fluxo de água de uma cachoeira.

Impermanência dos seres#

A impermanência dos seres sencientes se divide em duas: outros seres e nós mesmos. Em relação à primeira, todos os seres dos três mundos são impermanentes. O Sutra da Vasta Exibição afirma:

Os três mundos são impermanentes como nuvens
de outono.

Sobre nossa própria impermanência, ela se refere ao fato de que eu mesmo não tenho o poder de permanecer e precisarei partir. Essa contemplação se divide em duas: a investigação da própria continuidade e a de outros seres.

Investigação da própria continuidade#

No primeiro tipo de contemplação, nos familiarizamos meditando sobre a morte, sobre as características da morte, sobre o esgotamento da vida e sobre a separação.

Meditar sobre a morte é contemplar: “Eu não vou permanecer muito tempo neste mundo; no futuro, partirei.”

Meditar sobre as características da morte é contemplar: “Minha força vital se esgotará, a respiração se interromperá, este corpo assumirá a forma de um cadáver, esta mente deverá partir para outro lugar.”

Meditar sobre o esgotamento da vida é contemplar: “Do ano passado até agora, um ano se passou: minha vida encurtou tanto assim. Do mês passado até agora, um mês se passou: minha vida encurtou tanto assim. De ontem para hoje, um dia se passou: minha vida encurtou tanto assim. De um momento atrás até agora, um momento se passou: minha vida encurtou tanto assim.”

Engajamento na Ação Bodisatva também ensina:

Esta vida — de dia ou de noite —
não espera, sendo consumida constantemente,
sem nenhum prolongamento.
Como alguém como eu evitaria a morte?

Meditar sobre a separação é contemplar: “Aquilo que tenho hoje — parentes, amizades, bens, posses, meu corpo e tudo isso que valorizo tanto — não estará sempre comigo; em breve, me separarei disso.”

Engajamento na Ação Bodisatva também afirma:

Ignorei que temos que
abandonar tudo ao morrer…


Alternativamente, há a meditação que se desdobra em nove pontos sobre a morte, em que contemplamos: certamente vou morrer, é incerto quando vou morrer, e morrerei sem levar nada (cada tópico se subdivide em três).

“Certamente vou morrer”

Há três motivos para a certeza da morte: nunca houve ninguém que não morreu, o corpo é composto, e a vida se exaure a cada momento. Portanto, com certeza morrerei.

Sobre n__unca ter h__avido uma pessoa que não morreu, atcharya Ashvagosha disse (em Remoção do Sofrimento):

Se ver ou ouvir falar sobre alguém
sobre esta terra ou nos reinos elevados
que, tendo nascido, não morre, duvide.

Então, mesmo rishis que possuem clarividência e habilidades milagrosas incontáveis não encontram um lugar onde possam escapar ou se libertar da morte: todos morrerão. Então, sobre pessoas como nós, não é preciso nem falar. Sobre isso, é dito (no mesmo texto):

Mesmos grandes rishis
com as cinco clarividências,
que viajam longe pelo céu,
não podem ir para um lugar
onde desfrutem de imortalidade.

Além disso, mesmo eminentes pratyekabudas e os grandes arhats entre shravakas abandonam o corpo no final — quem dirá pessoas como nós. Sobre isso, é dito na Coletânea de Provérbios:

Se todos pratyekabudas
e shravakas alunos dos budas
deixam o corpo para trás,
não é preciso mencionar seres ordinários.

Além do mais, se mesmo as emanações de budas com iluminação completa — ornamentados com as marcas e sinais, tendo a natureza como um vajra (indestrutível) — deixaram seus corpos para trás, não é preciso falar de pessoas como nós. Sobre isso, Ashvagosha disse (Remoção do Sofrimento):

Se todos os tipos de corpos-vajra de budas
ornamentados com as marcas e sinais
são impermanentes, não é preciso falar
sobre os de seres vivos como nós,
que não têm essência, como a bananeira.

Sobre a certeza da morte devido ao fato de que o corpo é composto, tudo que é composto é impermanente e está sujeito a perecer. A Coletânea de Provérbios menciona:

Que tristeza! Todas as coisas compostas
são impermanentes, sujeitas
ao nascimento e desintegração.

Por isso, como este corpo não é algo não composto — pelo contrário — então é impermanente e certamente vai morrer.

Sobre a certeza da morte devido ao fato de que a vida se exaure a cada momento, cada instante aproxima a vida da morte. Isso não é algo óbvio, mas há esses exemplos que ilustram como a vida passa rapidamente: uma flecha atirada por um forte arqueiro, água fluindo em uma montanha inclinada e um prisioneiro sendo levado para o local da execução.

No primeiro exemplo, de uma flecha atirada por um forte arqueiro, do mesmo modo como ela não espera um instante em nenhum ponto do espaço, seguindo direto para o local apontado, a vida também não aguarda nenhum momento, dirigindo-se rapidamente para a morte. Sobre isso, é dito (no Sutra do Dharani de Ratnaketu):

Por exemplo, uma flecha disparada
por alguém habilidoso,
assim que a corda é solta, não permanece,
mas vai rapidamente para o alvo.
A vida das pessoas também é assim.

No segundo exemplo, da água fluindo em uma montanha inclinada, ela segue sem parar um único instante. A vida humana também não tem como pausar, de modo bastante óbvio. Sobre isso, o Sutra do Dharani de Ratnaketu ensina:

Amigos e amigas, esta vida passa rápido,
como água correndo em uma montanha inclinada.
Pessoas imaturas, não reconhecendo isso,
de modo inábil, viciosamente se intoxicam em confortos.

A Coletânea de Provérbios também afirma:

É como a corrente de um grande rio,
que segue sem voltar para trás.

No terceiro exemplo, de um prisioneiro sendo levado para o local da execução, cada passo caminhado torna a morte mais próxima. Nossa vida também é assim. Sobre isso, o eminente Sutra da Árvore menciona:

É como um preso levado para o local da execução,
em que cada passo caminhado o aproxima da morte.

A Coletânea de Provérbios também diz:

Por exemplo, para pessoas condenadas à morte,
qualquer passo as aproxima da execução.
Desse mesmo modo é a força vital das pessoas.

“É incerto quando vou morrer”

Há três razões para a incerteza sobre a hora da morte: a duração da vida é incerta, o corpo não tem uma essência e há muitas condições que provocam a morte.

Sobre o fato de que a duração da vida é incerta, para outros tipos de seres em outros continentes cósmicos, a duração da vida é fixa. Já para nós, no continente cósmico de Djambudvipa1, a duração da vida não é fixa. O Tesouro do Abidharma afirma:

Aqui é incerto. No final dos tempos, a duração da vida
será de 10 anos, sendo que era ilimitada no início.

Além disso, o modo como isso é incerto é descrito na Coletânea de Provérbios:

Algumas pessoas morrem no útero,
enquanto outras, ao nascer.
Outras morrem quando já engatinham
e outras, quando já podem correr.
Algumas morrem velhas; outras, jovens.
Já outras se vão na flor da idade.
Eventualmente todas passarão.

Sobre o fato de que o corpo não tem uma essência, este corpo não tem nenhuma essência sólida diferente das 36 substâncias impuras (que o compõe), assim como diz Engajamento na Ação Bodisatva:

Primeiro, mentalmente,
retire a camada de pele e,
com a lâmina da sabedoria,
separe a carne da estrutura óssea.

Tendo separado também
os ossos, olhando até o tutano,
examine você mesma:
“Qual é a essência disso?”

Sobre o fato de que há muitas condições que provocam a morte, não há nada que não possa se tornar a causa da morte para mim ou outras. Carta a um Amigo afirma:

Há tantas fontes de danos para esta vida,
mais transitória do que uma bolha na água.
Conseguimos inspirar de volta após expirar!
Podemos acordar do sono! Que extraordinário!

“Morrerei sem levar nada”

Também há três motivos para o fato de que morremos sem levar nada: bens e posses não nos acompanham, parentes e amizades não nos acompanham e nosso corpo não nos acompanha.

Sobre o fato de que bens e posses não nos acompanham, é como afirma Engajamento na Ação Bodisatva:

Mesmo adquirindo muitas coisas
e desfrutando delas por bastante tempo,
partiremos sem nada, de mãos vazias,
como após um assalto de ladrões.

Além de bens e posses serem coisas assim vazias, elas prejudicam esta vida e as próximas. Prejudicam esta vida porque, por causa delas, surge o sofrimento de brigas, da apreensão sobre roubos e da servidão. Nas próximas vidas, as ações ligadas a isso amadurecem como a queda nos destinos inferiores.

Sobre o fato de que parentes e ami__zades não nos acompanham, é como diz a Coletânea de Provérbios:

Na morte, nossas crianças não serão um refúgio,
assim como nosso pai, mãe,
parentes ou amizades queridas.
Para você, não haverá refúgio.

Além de parentes e amizades serem assim improdutivas na hora da morte, (apegos a) elas prejudicam tanto esta vida quanto as futuras. Prejudicam esta vida pois a preocupação se vão morrer ou decair causa muita angústia. Nas próximas vidas, o karma de ações ligadas a isso amadurece como a queda nos destinos inferiores.

Sobre o fato de que nosso corpo não nos acompanha, tanto suas qualidades quanto sua substância não nos acompanha.

Suas qualidades não ajudam, pois mesmo alguém com bravura e força não reverte a morte, alguém rápido e atlético não consegue escapar correndo, alguém perspicaz e eloquente não se liberta com a lábia. Seria como tentar manter o sol escondido atrás de uma montanha; ninguém pode fazer isso.

A substância do próprio corpo também não ajuda, como menciona a Coletânea de Provérbios:

Com muita dificuldade, você manteve esse corpo
com comida e roupas, mas ele não vai ajudar.
Será comido por lobos, abutres, ou será
consumido pelo fogo, dissolvido na água
ou enterrado no solo.

Além de não levarmos este corpo na hora da morte, ele prejudica tanto esta vida quanto as futuras. Prejudica esta vida pois, para este corpo, são insuportáveis os efeitos da doença, calor, frio, fome e sede. Há o medo de ele ser perfurado, morto, amarrado ou descarnado. Assim há muito sofrimento e, em vidas futuras, o karma das ações em nome do corpo provocam a queda nos destinos inferiores.

Investigação da continuidade alheia#

O segundo tipo de contemplação é considerar para nós o que acontece com outros seres. Ao testemunharmos a morte de outra pessoa, ouvir sobre ou relembrá-la, nos familiarizamos com a possibilidade de isso acontecer conosco.

Sobre considerar para nós uma fatalidade que testemunhamos, pensamos: “Essa pessoa — amiga ou conhecida etc — tinha um corpo forte, aparência saudável, se sentia bem, não pensava sobre a morte. Mas em um dia como hoje, foi vítima de uma doença fatal. Perdeu tanta força que não conseguia nem sentar. Perdeu vitalidade, tornou-se pálida. Não havia como aliviar o sofrimento da doença, acabar com a dor. Remédios e tratamentos não adiantavam. Mesmo rituais e cerimônias de cura não ajudaram. Ela sabia que ia morrer, que não havia outra maneira. Cercada no final pelos parentes, comeu pela última vez, disse as últimas palavras.”

Ao pensar nisso, contemple: “Eu também tenho essa natureza, estou sujeita a isso, tudo indica que o mesmo acontecerá comigo e não transcendi essa realidade.”

Então, quando a respiração da pessoa cessa, a partir desse momento, já é considerado impróprio o corpo permanecer um único dia na casa que era sua. Depois de ser amarrado e coberto em uma maca, carregadores levam o peso para fora. Algumas pessoas agarram e abraçam o cadáver. Outras choram ou ficam como se estivessem mortas. Outras se desesperam e desmaiam. Alguém comenta: “Esse corpo é como terra ou pedras. Fazer o que vocês estão fazendo é inútil.”

Quando o corpo já estiver cruzando definitivamente o limiar, ao ver que ele não voltará mais a ser tudo o que era, contemple como antes: “Eu também tenho essa natureza...”

Então, esse corpo é levado para um campo de cadáveres para ali se decompor, sendo comido por animais como cães e lobos. Ao ver cenas como esqueletos abandonados, contemple como antes: “Eu também tenho essa natureza...”

Sobre considerar para nós o que ouvimos sobre a morte de outra pessoa, quando escutar que “fulano morreu” ou “há um cadáver naquele local”, contemple como antes: “Eu também tenho essa natureza...”

Sobre considerar para nós a morte de alguém que lembramos, pense sobre todas as pessoas conhecidas — idosas ou jovens — que morreram em sua região, cidade ou casa. Trazendo-as à mente e lembrando que você não permanecerá por muito tempo, contemple como antes: “Eu também tenho essa natureza...”

Sobre isso, um sutra ensina:

Amanhã ou a próxima vida.
Não havendo certeza sobre o que virá primeiro,
faz mais sentido não me desgastar
com ninharias de curto prazo,
e me dedicar àquilo que
trará benefício nas próximas vidas.

3. Benefícios de meditar na impermanência#

Através do reconhecimento de todos os fenômenos compostos como sendo impermanentes, o apego intenso às coisas desta vida é revertido. Além do mais, isso dá sustento à fé e reforça a diligência. Como há um distanciamento rápido do apego e da aversão, a meditação na impermanência se torna uma condição para a realização da igualdade dos fenômenos.

Este foi o “Capítulo 4 – Ensinamento sobre a impermanência dos fenômenos compostos”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 “Djambudvipa” (ou “Djambu”) é nome deste mundo, ou continente cósmico, segundo a cosmologia mitológica indiana que o budismo herdou. Em outros contextos, o termo é um sinônimo para a Índia.