Pular para conteúdo

Capítulo 5 – Ensinamento sobre o sofrimento da existência cíclica#

Poderia ser imaginado:

— Qual o problema de haver essa impermanência e morte? Não vou renascer de novo? Renascendo, terei de novo os confortos e bens de divindades e humanos. Como isso não seria bom?

Isso é apego ao prazer mundano. Como antídoto para isso, a meditação nas falhas da existência cíclica será explicada. Seu resumo é:

Sofrimento da existência condicionada,
sofrimento da mudança e
sofrimento do sofrimento.
As falhas do samsara se resumem nesses três pontos.

Esses três sofrimentos podem ser ilustrados com analogias: o sofrimento da existência condicionada é como arroz cru, o sofrimento da mudança é como comer arroz misturado com veneno, e o sofrimento do sofrimento são como as dores de estômago que se somam ao arroz ruim.

Alternativamente, os três sofrimentos podem ser explicados conforme sua essência: o sofrimento da existência condicionada é sentido como algo neutro; o sofrimento da mudança, como algo prazeroso; e o sofrimento do sofrimento, como dor.

Os três sofrimentos ainda podem ser apresentados conforme suas características, que são as seguintes.

1. Sofrimento da existência condicionada#

No sofrimento da existência condicionada, sofremos meramente por possuir estes agregados (de corpo e mente) que são a causa substancial do samsara. Então pessoas ordinárias não sentem o sofrimento da existência condicionada, assim como alguém sofrendo de uma doença grave não sente incômodos menores no ouvido ou outras partes do corpo, por exemplo.

“Aqueles que adentraram a corrente” e outros eminentes shravakas realizados enxergam esse sofrimento da existência condicionada, assim como no exemplo em que alguém que está se curando de uma doença grave sente incômodos menores no ouvido ou outras partes do corpo.

Um outro exemplo: um mero fio de cabelo na palma da mão não causa nenhum desconforto ou sofrimento, mas se esse mesmo fio entrasse no olho, haveria desconforto e sofrimento. Desse mesmo modo, pessoas ordinárias possuem o sofrimento da existência condicionada mas não o sentem como sofrimento. Já seres realizados percebem isso como sendo grande desconforto. Sobre isso, o Tesouro do Abidharma afirma:

Há um fio de cabelo na palma da mão.
Caso ele caia no olho, haverá desconforto e sofrimento.
Seres imaturos, como a palma da mão,
não reconhecem o sofrimento condicionado.
Seres realizados, como os olhos,
enxergam o sofrimento condicionado.

2. Sofrimento da mudança#

Todos os possíveis prazeres da existência cíclica no final mudam, virando sofrimento. Isso é chamado de sofrimento da mudança. Nesse sentido, o Sutra Lótus Branco da Compaixão ensina:

Ter domínio sobre os reinos divinos é uma causa de sofrimento. Domínio sobre os reinos humanos também é uma causa de sofrimento.

Mesmo que alguém seja uma majestade entre humanos, obtendo o poder da monarquia universal, no final, isso se transforma em sofrimento, como afirma Carta a Um Amigo:

Mesmo que se torne de fato uma majestade universal,
com o passar das eras, novamente se tornará um escravo.

Além do mais, mesmo que alguém obtenha a forma e as riquezas de Indra, líder entre deuses, no final, ela decai com a transferência da morte, assim como é dito (em Carta a Um Amigo):

Mesmo que se torne o próprio Indra_1_, digno de oferendas,
pelo poder do karma, caíra de volta na terra.

Além disso, mesmo que alguém obtenha o estado de seres como Brahma, rei dos deuses, livre de desejos mundanos, repousando em êxtase meditativo, no final ela decai, como é dito (nesse texto):

Mesmo tendo obtido o êxtase de Brahma,
livre de apegos, ainda irá se tornar lenha
para as chamas do inferno Tormento Incessante,
passando por tortura ininterrupta.

3. Sofrimento do sofrimento#

Esta categoria se refere ao intenso sofrimento manifesto que se soma ao sofrimento genérico de possuirmos os agregados que são a causa substancial do samsara. Sobre isso, há dois tipos de sofrimento a serem compreendidos: nos destinos inferiores e nos superiores.

Sofrimento nos destinos inferiores#

Nos destinos inferiores, os sofrimentos são três: o dos seres nos infernos, de fantasmas famintos e dos animais. Cada destino deve ser entendido conforme quatro pontos: suas subdivisões, locais, sofrimentos vivenciados e duração da vida.

Os infernos se subdividem em 18: oito infernos quentes, oito frios, infernos temporários e periféricos.

Infernos quentes#

Sobre os locais dos infernos quentes, eles estão abaixo deste continente cósmico de Djambu, já que muitos migram daqui para lá. No nível mais baixo, estão os seres do Inferno do Tormento Incessante. Acima deles, respectivamente, estão os infernos: Extremamente Quente, Quente, Prantos Intensos, Prantos, Esmagador, Linhas Negras e do Reviver. Sobre isso, o Tesouro do Abidharma menciona:

20 mil léguas abaixo daqui
fica o Inferno do Tormento Incessante.
Acima dele, há sete infernos.

Os sofrimentos ali vivenciados e os motivos em geral dos nomes serão explicados.

Inferno do Reviver – Seres ali se amarram, perfuram, cortam e matam uns aos outros. Um vento fresco sopra e todos revivem. Isso prossegue até o fim da permanência ali.

Inferno das Linhas Negras – Todos têm linhas negras desenhadas no corpo, para que serras em chamas cortem e machados em brasa retalhem. Como é dito (em Carta a u__m Amigo):

Alguns são cortados por serras,
outros por machados terrivelmente afiados.

Inferno Esmagador – Seres são reunidos entre montanhas e esmagados, ou então são colocados entre chapas de metal e prensados. No primeiro tipo, duas montanhas com formato de cabeça de carneiro se juntam e esmagam os seres. Depois, as montanhas se separam, um vento fresco sopra e restaura os corpos como eram, para serem esmagados de novo continuamente. Sobre isso, Carta a Um Amigo menciona:

Dois carneiros chifrudos aterrorizantes
destroem e reduzem a pó todos os corpos reunidos.

Algumas são esmagadas entre chapas de ferro, o sangue escorrendo como quatro rios. Sobre isso, é ensinado (no mesmo texto):

Alguns são esmagados como gergelim,
outros são reduzidos a pó como farinha fina.

Inferno dos Prantos – Ali, seres sencientes choram aos gritos ao serem queimados.

Inferno dos Prantos Intensos – Ali, os gritos são ainda mais estridentes.

Inferno Quente – Há o tormento causado por coisas em chamas. As vísceras são queimadas pelo metal derretido derramado na boca, e lanças cheias de espinhos perfuram do ânus até o topo da cabeça.

Inferno Extremamente Quente – A tortura é ainda mais intensa. Sem pele, seres são queimados por coisas como metal derretido — o fogo saindo pelos orifícios do corpo. Além disso, tridentes perfuram o ânus e a sola dos pés, as pontas saindo pelo topo da cabeça e ombros. Sobre isso, é dito (Carta a Um Amigo):

Assim, outros são forçados a beber
o caldo em brasa de metal derretido.
Alguns são empalados por lanças
flamejantes cheias de espinhos.

Inferno do Tormento Incessante – Os seres ali ficam em galpões de ferro em brasa de 20 mil léguas, onde imensas quantidades de metal derretido — ferro e bronze — caem das quatro direções e chamas insuportáveis mantém a fervura. Sobre isso, é dito (no mesmo texto):

Algumas são mergulhadas de cabeça em caldeirões
de ferro, onde cozinham como sopa de arroz.

Como não há pausa para a tortura, isso é chamado de “tormento incessante”.

Duração dos infernos quentes

— Quanto dura a vida nessas condições?

É dito (no Tesouro do Abidharma):

No Inferno do Reviver, um dia dura
a vida de uma divindade do reino do desejo
(depois, aumentando sequencialmente).
Assim, suas vidas se baseiam nos deuses do desejo.

A duração da vida no reino divino dos Quatro Grandes Reis equivale a um dia dos seres no Inferno do Reviver. Trinta desses dias é um mês, e 12 meses somam um ano. A vida nesse inferno dura 500 anos. Isso equivale a 1,62 trilhões de anos humanos.

Desse mesmo modo, a duração da vida no Reino dos 33 Deuses equivale a um dia dos seres no Inferno das Linhas Negras. Como eles vivem por mil de seus anos, isso equivale a 12,99 trilhões de anos humanos.

A duração da vida entre os deuses livres da agressividade equivale a um dia dos seres do Inferno Esmagador, que vivem dois mil dos seus próprios anos. Isso equivale a 100,68 trilhões de anos humanos.

Os deuses do reino de Tushita correspondem aos seres no Inferno dos Prantos, que vivem quatro mil dos seus próprios anos. Isso equivale a mais de 800,5 trilhões de anos humanos.

Os deuses que se deleitam em emanações correspondem aos seres do Inferno dos Prantos Intensos, que vivem oito mil dos seus próprios anos. Isso equivale a mais de 6,6 quatrilhões de anos humanos.

Os deuses que controlam emanações alheias correspondem aos seres do Inferno Quente, que vivem 16 mil dos seus próprios anos. Isso equivale a mais de 50 quatrilhões de anos humanos.

Os seres do Inferno Extremamente Quente vivem metade de uma era cósmica comum, e os do Tormento Incessante vivem por uma era cósmica intermediária. Sobre isso, é mencionado (no Tesouro do Abidharma):

No Inferno Extremamente Quente, metade de uma era;
no Tormento Incessante, uma era intermediária.

Infernos periféricos#

Nas quatro direções em torno desses oito infernos, estão os infernos periféricos. Entre eles, no primeiro, há brasas brilhando que chegam até o joelho. Quando seres caminham buscando um lugar para escapar, ao colocarem o pé no chão, a pele, carne e sangue de suas pernas são completamente destruídas. Ao levantarem o pé, a condição anterior é restaurada. Esse é o primeiro inferno adicional.

No próximo, em um pântano imundo com cadáveres podres, há vermes de corpos brancos e cabeças pretas, com mandíbulas afiadas, que penetram nos seres até o ossos. Esse é o segundo inferno adicional.

No próximo, há um grande caminho coberto de lâminas, e uma floresta de folhas de facas, com cães negros, árvores infernais de ferro e corvos com bico de metal que despedaçam os seres. Esse é o terceiro inferno adicional.

No próximo, no rio infernal de Vaitarani, fervendo de água misturada com cinzas, os seres cozinham e são impedidos de sair por guardas portando armas. Esse é o quarto inferno adicional. Sobre isso, é dito (no Tesouro do Abidharma):

Há mais 16 infernos, além dos oito.
Em suas quatro direções, estão:
Brasas Brilhando, Pântano de Cadáveres Podres,
Caminho de Lâminas e similares, além do Rio.

— Esse séquito de guardas — os carrascos com aparência humana, corvos com bico de metal e tudo mais — são seres sencientes ou não?

A escola Vaibhashika afirma que sim, são seres sencientes. A escola Sautrantika afirma que não. Na escola Yogatchara e na tradição de Marpa e Milarepa, é dito que eles são aparências da própria mente, devido às negatividades que seres cometem. Em acordo com isso, Engajamento na Ação Bodisatva afirma:

Quem especificamente construiu
as armas contra os seres no inferno?
Quem criou o chão de ferro em brasa?
De onde surgem essas chamas?
Isso tudo surge da mente que
cultiva desvirtudes, disse o Muni.

Infernos frios#

Os nomes dos oito infernos frios são: Bolhas, Bolhas Estourando, Bater de Dentes, Som de Gemidos, Som de Lamentação, Chaga Exposta Como uma Upala, Chaga Exposta Como um Lótus e Chaga Exposta Como um Grande Lótus. Sobre isso, é dito (no Tesouro do Abidharma):

Há outros oito: o Inferno das Bolhas e tudo mais.

— Onde eles ficam?

Eles estão localizados abaixo deste próprio continente cósmico de Djambu, logo depois dos grandes infernos.

— Que tipo de sofrimento é experimentado?

Eles serão explicados de acordo com seus nomes. Nos dois primeiros, devido ao tormento do frio insuportável, surgem no corpo feridas como bolhas e elas explodem — os nomes vêm dessas transformações no corpo.

Nos próximos três infernos, devido ao tormento do frio insuportável, seres emitem os sons descritos nos nomes (bater de dentes, gemidos e lamentação).

Nos últimos três, os nomes também vêm de transformações no corpo:

  • A pele se torna azul e se abre em chagas com cinco ou seis pétalas, como uma flor de upala.

  • A partir do azul, se torna vermelha e abre mais, em dez pétalas, como um lótus.

  • A pele fica intensamente vermelha, abrindo ainda mais, em cem pétalas, como um grande lótus.

Duração dos infernos frios

— Qual é a duração da vida desses seres?

Para exemplificar isso, o Bhagavan pronunciou (no Sutra da Duração da Vida):

Monges, há esse exemplo: imaginem um depósito de sementes de gergelim aqui em Magadha, com capacidade para duas toneladas, completamente lotado. Então, alguém tira uma semente a cada cem anos. Monges, eu não posso dizer que esse processo — em que não sobra nada nesse depósito no final — dure mais que a vida dos seres sencientes no Inferno das Bolhas. Monges, o Inferno das Bolhas Estourando dura 20 vezes mais que o das Bolhas.

E assim, progressivamente, até o final:

… Monges, o Inferno da Chaga Exposta Como um Grande Lótus dura 20 vezes mais que o da Chaga Exposta Como um Lótus.

Resumindo o significado disso, atcharya Vasubandhu ensinou (no Tesouro do Abidharma):

Retirar uma semente de gergelim a cada 100 anos
de um armazém, até que ele seja esvaziado.
Essa é a duração da vida no Inferno das Bolhas.
Nos outros, a vida é multiplicada por 20.

Assim, o Inferno das Bolhas dura um armazém de gergelim cheio; o das Bolhas Estourando, 20 vezes isso; o do Bater de Dentes, 400 vezes; Som de Gemidos, 8 mil vezes; Som de Lamentação, 160 mil vezes; Chaga Exposta Como uma Upala, 3,2 milhões de vezes; Chaga Exposta Como um Lótus, 64 milhões de vezes; e o Inferno da Chaga Exposta Como um Grande Lótus dura 1,28 bilhão de vezes esse depósito de sementes.

Infernos temporários#

Os seres de cada inferno temporário podem ser muitos indivíduos, dois ou apenas um. Já que essa condição é criada pelo karma individual, há muitos tipos e não há local fixo, que pode ser em um rio, montanha, área desolada ou outros lugares, como sob a terra ou algum povoado humano, conforme testemunhou o realizado Maudgalyayana. Pode ser também em locais ermos, conforme visto pelo venerável Sangharakshita. O tempo de vida é indeterminado.

Isso conclui a explicação sobre o sofrimento de seres nos infernos.

Fantasmas famintos#

Há dois tipos: o de Yama, rei dos fantasmas famintos, e o dos fantasmas famintos dispersos.

— Onde eles habitam?

Yama, o rei dos fantasmas famintos, encontra-se a 500 yojanas (6,7 mil km) abaixo deste continente de Djambu. Os fantasmas dispersos não têm local fixo, habitando em lugares como áreas desoladas.

Os fantasmas famintos dispersos se dividem em três: aqueles com impedimentos externos para comer e beber, com impedimentos internos e aqueles cuja comida ou bebida são os impedimentos.

— Que sofrimento eles experimentam?

Alguns fantasmas possuem poderes mágicos e desfrutam de riqueza como as divindades. Os que possuem impedimentos externos para comer e beber percebem comida e bebida como pus e sangue, e não têm como se nutrir, pois percebem outros seres os impedindo. Fantasmas com impedimentos internos não sofrem obstrução alheia, mas eles mesmos não conseguem comer ou beber, assim como é dito (em Carta a um Amigo):

Alguns têm a boca estreita como o furo de uma agulha
e o estômago, amplo como uma montanha.
Atormentados pela fome, não conseguem encontrar
o menor alimento nem entre a sujeira do lixo.

Aqueles cuja comida ou bebida são os próprios impedimentos se subdividem em dois: “guirlandas de chamas” e comedores de sujeira. No primeiro tipo, assim que ingerem algo, são incendiados. O segundo tipo se alimenta de excremento, bebe urina e corta a própria carne para comer. Tais cenas foram vistas pelo monge Kotikarna, ao viajar por terras desoladas.

— Quanto dura a vida de fantasmas famintos?

Um mês para os humanos é um dia para os fantasmas. Multiplicando meses e anos assim, eles vivem 500 de seus próprios anos. Sobre isso é dito (no Tesouro do Abidharma):

Fantasmas famintos vivem 500 anos,
em que um mês é um dia.

Animais#

Animais se dividem em quatro tipos: com muitas pernas, quatro, duas ou sem pernas.

— Onde eles ficam?

Suas áreas são as águas, planícies e florestas. Entre elas, a principal morada é o grande oceano.

— Que sofrimento eles vivenciam?

Eles sofrem por serem escravizados, executados e por devorarem uns aos outros.

Sobre os animais escravizados, é dito (em Carta a um Amigo):

Indefesos, são explorados
com espancamentos, correntes e ganchos.

Sobre os que são executados, como os animais selvagens, é mencionado (nesse texto):

Alguns morrem em nome de
pérolas, lã, ossos, sangue, carne e pele.

Sobre os que se devoram, a maioria vive no mar, assim como é dito (nesse texto):

Comem o que quer que apareça à frente.

— Animais vivem quanto tempo?

Isso não é fixo para todos. Alguns com maior longevidade chegam a viver por uma era cósmica intermediária. Sobre isso, é ensinado (no Tesouro do Abidharma):

Entre os animais, a vida mais longa dura uma era.

Isso conclui a explicação sobre o sofrimento dos destinos inferiores.

Sofrimento nos destinos superiores#

Nos reinos superiores, os sofrimentos são três: o sofrimento de humanos, de semideuses e divindades.

Sofrimento humano#

Entre humanos, há oito sofrimentos, assim como descreve o Sutra da Descida de Nanda ao Útero:

Desse modo, nascer é sofrimento, envelhecer é sofrimento, adoecer é sofrimento. Morrer também é sofrimento, separar-se de quem gostamos também, encontrar quem não gostamos também é sofrimento, assim como não obter o que desejamos e buscamos, e a dificuldade de proteger o que temos.

Sofrimento do nascimento

Entre esses sofrimentos, o nascimento é a raiz de todos os outros. Apesar de serem ensinados quatro tipos de nascimento, a maioria nasce de um útero. Nesse caso, desde o estado intermediário2 da existência até a entrada em um útero, há os sofrimentos a seguir.

Todos os seres no estado intermediário possuem habilidades sobrenaturais. Eles podem se mover pelo céu e enxergar adiante suas futuras condições de nascimento, como na visão de divindades. Assim, devido ao poder do karma, quatro alucinações podem surgir, descritas metaforicamente como: uma grande ventania soprando, uma chuva intensa, um escurecimento do céu e sons amedrontadores de diversas pessoas falando sem parar. Então, conforme o karma positivo ou negativo, surgem dez tipos de falsas percepções:

  • “Eu estou entrando em um palácio divino.”

  • “Estou subindo pelos andares de uma casa.”

  • “Estou subindo em um trono.”

  • “Estou entrando em uma cabana de palha.”

  • “Estou entrando em uma cabana de folhas.”

  • “Estou entrando em uma mata.”

  • “Estou entrando em uma floresta.”

  • “Estou entrando em um buraco na parede.”

  • “Estou entrando em um monte de palha.”

Pensando nisso e vendo de longe os futuros pai e mãe em união sexual, vai-se nessa direção. Quem acumulou muito mérito e obterá elevada condição de nascimento enxerga coisas como um palácio celestial ou uma casa de vários andares, e se apressa nessa direção.

Quem acumulou mérito mediano e obterá uma condição mediana de nascimento enxerga coisas como uma cabana de palha e vai nessa direção.

Quem não acumulou mérito e obterá uma condição inferior de nascimento enxerga coisas como um buraco na parede e se apressa nessa direção.

Chegando ali, no caso de um renascimento masculino, haverá atração pela mãe e aversão ao pai. No caso de um nascimento feminino, haverá atração pelo pai e aversão à mãe. Através desse apego e aversão, a consciência no estado intermediário se funde com as substâncias seminais impuras da mãe e pai.

Daí em diante, o período no útero é de 38 semanas, conforme ensinado (no Sutra da Descida ao Útero). Também é dito que algumas permanecem ali oito, nove ou dez meses; e outros podem ficar por tempo indeterminado, chegando até a 60 anos.

Na primeira semana no útero materno, devido à união da consciência com as faculdades do corpo, há sofrimento insuportável, bem similar a ser cozida ou assada em um caldeirão fervendo. Essa fase (do embrião) é chamada de “oval”, cuja textura é como mingau de arroz ou iogurte.

Depois, na segunda semana no útero, o prana_3_ chamado “contato total” surge e, em contato com o útero, torna aparente os quatro elementos. Essa fase é chamada de “alongada”, cuja textura é como iogurte grosso ou manteiga endurecida.

Então, na terceira semana no útero materno, o prana chamado “formador” surge e, em contato com o útero, torna bem óbvia a manifestação dos quatro elementos. Essa fase é chamada de “protuberante”, tendo a forma de uma colher ou formiga.

Conforme o mesmo padrão, na sétima semana no útero materno, o prana chamado “redemoinho” surge e, em contato com o útero, faz surgir os dois braços e pernas. Nesse período, há um sofrimento como se alguém forte puxasse os membros, enquanto outra pessoa amassa o corpo com um rolo.

Da mesma maneira, na 11ª semana no útero materno, o prana chamado “manifestador de orifícios” aparece e, em contato com o útero, faz surgir os nove orifícios. Nesse período, há um sofrimento como o de uma ferida nova sendo cutucada com o dedo.

Além disso, se a mãe come irregularmente, ingerindo alimentos gelados, há um sofrimento como o de ser jogado nu na água fria. Da mesma maneira, se forem ingeridos alimentos muito quentes ou azedos, há sofrimentos correspondentes.

Quando a mãe come demais, há um tormento como o de ficar espremida entre rochas. Quando come muito pouco, há uma agonia como a de ser atirado em suspensão no espaço. Se a mãe se move com vigor, pula ou escorrega, há um sofrimento como o de rolar montanha abaixo. Quando há muito intercurso sexual, há um desconforto como o de ser golpeado por espinhos.

Na 37ª semana, o bebê tem consciência de estar no útero, que é percebido como sujo, fétido, escuro, como uma prisão. Intensamente abatido, surgirá a ideia de sair dali.

Na 38ª semana no útero materno, o prana chamado “coletar flores” surge e, permanecendo no útero, altera-o, preparando o bebê para a abertura do nascimento. Nesse momento, há um sofrimento como o de ser colocado em uma máquina de ferro.

Assim, enquanto durar esse período, o bebê é cozido e mexido no útero como em uma panela quente ou fervendo, é tocado e agitado pelos 28 diversos tipos de prana, é nutrido e se desenvolve a partir das essências maternas como o sangue, desde a fase oval até o corpo já estar completo com todas as partes. Sobre isso, o Sutra da Descida de Nanda a__o Útero afirma:

No início, na fase oval, surge uma bolha encorpada.
A bolha se torna alongada e, depois, ganha firmeza.
Então, adquire forma, com o surgimento da cabeça
e dos quatro membros. Ossos se condensam e o corpo
se completa. Isso tudo surge de causas kármicas.

Depois, o prana chamado “voltado para baixo” surge e vira o bebê de cabeça para baixo, que começa a sair de braços estendidos. Nesse momento, há um sofrimento como o de ser puxado por um túnel estreito de metal. Alguns acabam morrendo ainda no útero. Outros morrem junto com a mãe.

Além disso, após o nascimento, ao repousar em alguma superfície, há um tormento como ser deixado em um buraco com espinhos. Ao ser enxugada, há uma agonia como a de ter a pele descarnada e ser esfregada em um canto da parede.

Durante esse período, a intensidade do mal-estar, constrição, escuridão e sujeira é desse modo. Se dissermos para alguém: “Se você entrar hoje num buraco imundo que será tampado e ficar ali por três dias, dou-lhe três medidas de ouro”, mesmo entre pessoas muito gananciosas, ninguém vai conseguir. Mas o sofrimento do útero é pior que esse. Sobre isso, é ensinado em Carta a um Amigo:

Um estado completo e ininterrupto de mau cheiro
e sujeira insuportáveis, de densa escuridão,
cujo aperto intenso comprime todo o corpo.
Estar dentro de um útero é como um inferno,
obrigando uma experiência de sofrimento enorme.

Ao ganhar confiança nisso, contemple: “Quem conseguiria permanecer no útero nem que só mais uma vez?”

Sofrimento do envelhecimento

Os sofrimentos de envelhecer também são inúmeros, mas se resumem em dez. Há alterações totais no corpo, cabelos, pele, coloração, habilidade, carisma, fortuna, saúde, mente e há o fim da vida quando o tempo se esgota.

Alteração total do corpo – O corpo que era reto, firme e sólido se transforma, ficando corcunda, curvado e dependente de uma bengala.

Alteração total dos cabelos – O cabelo que era de um preto brilhante como a pedra “bunwa” muda, embranquecendo, caindo e tudo mais.

Alteração total da pele – A pele que era suave e macia — como tecidos finos de Varanasi ou seda chinesa — muda, ficando grossa, incômoda e enrugada, uma massa de pregas como uma pulseira surrada.

Alteração total da coloração – A coloração que era radiante como um lótus recém-desabrochado muda, tornando-se azulada ou cinzenta, como uma flor velha.

Alteração total da habilidade – A força e entusiasmo anteriores mudam: a perda da força do corpo impossibilita qualquer ação desafiadora, a degeneração da força mental cria desânimo diante de qualquer tarefa. O esgotamento vital das faculdades faz com que os objetos dos sentidos não sejam percebidos claramente, ou sejam confundidos com outros.

Alteração total do carisma – O modo como outras pessoas lhe elogiavam e serviam muda: mesmo pessoas que têm menos vão lhe desprezar. Sem motivo, a intenção das pessoas fica hostil. Crianças lhe destratam abertamente, e você se torna uma vergonha para os netos.

Alteração total na fortuna – O modo como você desfrutava de bens, comida e bebida degenera. O corpo não se sente aquecido, a boca não aprecia os sabores. Há uma ânsia particular por coisas que não estão disponíveis, sendo muito raro alguém que encontre ou ofereça isso.

Alteração total da saúde – Quem envelhece, nesse processo que é a maior doença, será atormentada por diversas moléstias, já que isso atrai todas as outras doenças.

Alteração total da mente – Logo após tudo que dizemos ou fazemos, isso é esquecido; nos tornamos incoerentes e confusos.

Fim da vida quando o tempo se esgota – A respiração encurta e vira um chiado. Todos os elementos compostos do corpo se degeneram, indicando a proximidade da morte.

Sobre isso, o Sutra da Vasta Exibição afirma:

Ao envelhecer, um corpo agradável
se torna desagradável.
Ao envelhecer, o carisma é roubado,
habilidades deterioram.
Ao envelhecer, o conforto é tomado,
surge mais sofrimento.
Ao envelhecer, vem a morte,
a vitalidade é usurpada.

Sofrimento da doença

Os sofrimentos da doença também são inúmeros, mas se resumem em sete. Há os sofrimentos de ser afligida por uma doença grave, passar por tratamentos desconfortáveis, depender de remédios agressivos, parar de comer ou beber o que gostamos, precisar agradar o médico, gastar boa parte das posses, achar que morreremos. Sobre isso, o Sutra da Vasta Exibição menciona:

Pessoas afligidas e abatidas pelo tormento
de inúmeras doenças, acabam como
fantasmas famintos humanos.

Sofrimento da morte

Os sofrimentos da morte também são incontáveis. O Sutra das Instruções Para o Rei ensina:

Grande rei, assim, sob a lança do Senhor da Morte, você não terá orgulho. Não haverá abrigo, proteção e tropas de reforço. Atormentado pela doença, com a boca seca, o rosto se transforma, braços e pernas sacodem. Não há força para agir. O corpo se sujará de saliva, muco, urina e vômito, soltando um arfar chiado. Médicos lhe abandonam. Você se deita pela última vez, desvanecendo na corrente do sofrimento cíclico, aterrorizando-se com os enviados do Senhor da Morte. O movimento da respiração cessa. Narinas e boca se escancaram. Este mundo é abandonado. Você ruma para o próximo, saindo para a grande partida, entrando na imensa escuridão, despencando no enorme abismo, sendo levado pelo vasto oceano. Os ventos kármicos lhe controlam, empurrando para lugares sem descanso. Não haverá chance para, antes, distribuir suas posses. “Mãe! Pai! Filho!”, ao lamentar assim, grande rei, não haverá nenhum outro refúgio, proteção ou tropa de reforço além do Dharma.

Sofrimento da separação de quem gostamos

Durante a tristeza da morte de pessoas próximas como pai, mãe, filhas e filhos, há sofrimento ilimitado na forma de desespero, angústia, lamentação, pranto intenso etc.

Sofrimento de encontrar quem não gostamos

Ao ser atormentada por inimigos hostis, há muito sofrimento como brigas, disputas e violência física.

Os últimos dois sofrimentos — de não obter o que desejamos e buscamos, e da dificuldade de proteger o que temos — são fáceis de entender.

Semideuses#

Além dos mesmos sofrimentos das divindades, semideuses ainda sofrem com arrogância, inveja, brigas e disputas. Sobre isso é dito (em Carta a um Amigo):

Semideuses automaticamente se enraivecem com o
esplendor das divindades, em intensa angústia mental.

Divindades#

Divindades do reino do desejo também sofrem: lutam com os semideuses, têm desejos insatisfeitos, perdem a bravura, são esquartejadas, desmembradas, assassinadas e rejeitadas. Agonizam com a transferência da morte e a queda em destinos inferiores, assim como é mencionado (Carta a um Amigo):

Filho dos deuses, com a morte aparecem cinco sinais:
as vestes começam a cheirar mal, guirlandas de flores murcham, axilas suam, o corpo começa a exalar odores, há desconforto no próprio assento.

Divindades dos reinos da forma e não forma não têm esses sofrimentos. No entanto, já que não têm poder sobre a transferência da morte e o local de nascimento, sofrem por assumir uma condição inferior.

Desse modo, condições como nascimentos prazerosos e reinos elevados, após a exaustão desse karma, terminam na queda em destinos inferiores.


Então esta condição cíclica de existência tem uma natureza de sofrimento, assim como uma casa em chamas. O Sutra da Descida de Nanda ao Útero diz:

Que tristeza! Esta existência cíclica oceânica queima. Queima intensa, extrema, completa e inigualavelmente. Não há nem mesmo um punhado de seres sencientes que não sejam cozidos. “Mas o que são essas chamas ardendo violentamente?” São as chamas do desejo, ódio e ignorância. São as chamas do nascimento, envelhecimento e morte, as chamas dos prantos de agonia, aflição mental e pânico que, queimando continuamente, não deixam ninguém escapar.

Ao reconhecer assim as falhas do samsara, a mente dá as costas para os prazeres da existência cíclica. Sobre isso, o Sutra do Encontro da Criança Com o Pai ensina:

Enxergar os defeitos da existência cíclica
gera desgosto intenso.
Temendo a prisão dos três reinos,
abandone-a com atitude diligente.

Atcharya Nagarjuna também se expressou de modo similar (em Carta a um Amigo):

Já que o samsara é assim, compreenda
que não há bom nascimento como uma divindade, humano, ser no inferno, fantasma faminto ou animal.
O renascimento é um vetor de inúmeros malefícios.

Este foi o “Capítulo 5 – Ensinamento sobre o sofrimento da existência cíclica”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 Indra, ou Shakra, era um deus hindu bastante conhecido como um líder entre as divindades, na época da consolidação da tradição budista Mahayana na Índia. Depois, outras divindades hindu passaram a predominar.

2 O estado intermediário entre a morte e o próximo nascimento.

3 Em sânscrito, prana (tib.: rlung) significa vento ou sopro vital. É dessa maneira que são entendidas as energias do corpo e mente.