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Capítulo 7 – Ensinamento sobre amor e compaixão#

Agora será apresentado o cultivo de amor e compaixão, que é o antídoto para o “apego ao prazer da paz individual”. Esse termo se refere ao desejo de obter apenas para si a transcendência do sofrimento (nirvana). Devido à ausência de afeição intensa por seres sencientes, aí não há atividade pelo bem alheio. Esses são caminhos inferiores. Sobre isso, é dito:

“Em nome do meu bem, devo abandonar
as diversas ações pelo bem alheio.”
Quando notar que a preocupação consigo
cresceu assim, isso significa que
o interesse em si se tornou supremo.

Quando amor e compaixão nascem no contínuo mental1 devido à preocupação com os seres, a ideia de liberação exclusivamente individual se torna inadmissível. Por isso, é preciso cultivar amor e compaixão. Atcharya Manjushrikirti disse:

A pessoa que pratica o Mahayana não deve se separar do amor e compaixão nem por um instante.

Também afirmou:

O bem alheio é assegurado pelo amor e compaixão,
e não pela raiva.

Amor#

O resumo do primeiro aspecto, o amor, é:

Categorias, objeto, forma, maneiras de cultivar,
sinal de proficiência e qualidades.
Estes seis pontos sumarizam o amor imensurável.

1. Categorias#

O amor se divide em três categorias: amor que foca em seres sencientes, que foca na natureza dos fenômenos e amor sem ponto referencial. Sobre isso, o eminente Sutra d__e Akshayamati menciona:

O amor que foca nos seres é o de bodisatvas que estão iniciando no cultivo da mente do despertar. O amor que foca na natureza dos fenômenos é o de bodisatvas já engajados na ação bodisatva. O amor sem ponto referencial é o de bodisatvas que realizaram a compreensão de que fenômenos são não nascidos.

2. Objeto#

Neste ponto, explicando o primeiro tipo de amor2, seu foco são todos seres sencientes.

3. Forma#

A forma desse amor é uma mente que aspira que seres encontrem felicidade.

4. Maneiras de cultivar amor#

Já que a raiz do amor depende da gratidão, considere a bondade dos seres. Sobre isso, nesta vida, o ser mais bondoso é a mãe de cada pessoa.

— Como é a bondade de uma mãe?

Ela é bondosa de quatro maneiras: deu nascimento ao nosso corpo, suportou dificuldades por nós, nos manteve com vida e ensinou o que é o mundo. Sobre isso, o Sutra da Perfeição da Sabedoria em Oito Mil Versos afirma:

Por que é assim? Nossa mãe
nos deu nascimento,
suportou dificuldades,
sustentou nossa vida e
nos ensinou tudo sobre o mundo.

Bondade de dar nascimento ao nosso corpo#

Este corpo não era logo de início completo em suas dimensões, com a carne bem desenvolvida e aparência saudável. Dentro da barriga de nossa mãe, ele foi se desenvolvendo gradualmente a partir de algo oval e alongado, sendo nutrido pelos elementos vitais e essências do próprio sangue e carne dela, crescendo a partir da essência dos alimentos ingeridos, vindo a existir devido a todo tipo de constrangimento, doença e desconforto que ela suportou.

Depois, após o nascimento, ela nutriu este corpo, desde o estágio de um pequenino bebê até o surgimento de uma pessoa com força própria.

Bondade de suportar dificuldades#

Nós não chegamos aqui já cobertos e decorados com roupas, portando dinheiro e provisões. Chegamos sem nada além de uma boca e estômago, totalmente destituídas, sem nenhum bem, neste lugar onde não temos nenhuma pessoa amiga ou conhecida. Mas sua mãe lhe deu alimento para que não passasse fome, deu bebida para que não tivesse sede, vestiu-lhe com roupas para que não sentisse frio, deu-lhe bens para que não ficasse na miséria.

Além do mais, não é que ela lhe deu coisas que não precisava. Ela sacrificou a própria comida, bebida e vestimentas. Ela não ousou desfrutar dos confortos desta vida, nem ousou fazer oferendas desses bens para obter bem-estar em vidas futuras. Ela de fato cuidou de sua criança negligenciando seu próprio conforto nesta e nas próximas vidas.

Além disso, obter o necessário não foi algo fácil e confortável. Para lhe sustentar, precisou realizar diversas negatividades e se desgastar em angústias. Engajando-se em desvirtude, fez coisas como pescar, matar animais e diversas outras ações negativas para lhe nutrir.

Sofrendo, fez coisas como trabalhar em feiras ou lavouras, vestindo o gelo do solo como calçado, as constelações de estrelas como gorro3, as panturrilhas como o cavalo, com fiapos de pano sendo o chicote, dando a carne das pernas para os cães e o rosto para o escrutínio público. Trabalhando assim, sustentou sua criança.

Além do mais, ela teve mais afeição por você do que por pessoas queridas como seu pai, mãe ou guru, mesmo não sabendo nada sobre você ou o que viria a se tornar. Olhando com amor, aquecendo-lhe com suave ternura, fez-lhe cócegas com a ponta dos dedos, lhe dirigiu palavras doces como “gugu, dadá, alegria da mamãe...”.

Bondade de nos manter com vida#

Nós não chegamos aqui já com comida apropriada como agora, já sabendo como reagir adequadamente às dificuldades que surgem. Quando éramos como um verme flácido impotente onde não surge uma única ideia, nossa mãe não nos descartou, mas nos serviu, pegou no colo, nos protegeu do fogo, da água e de quedas.

Removeu ameaças danosas ao requisitar rituais: ao temer por nossa vida ou saúde, recorreu a coisas como divinações, astrologia, rituais de resgate, recitações e todo tipo de cerimônias do Dharma. Com a mente aflita, ela deu vitalidade à sua criança.

Bondade de ensinar sobre o mundo#

Nós não chegamos aqui já como esta pessoa que conhece várias coisas, perceptiva e perspicaz. Não sabíamos fazer nada além de chorar ao ver algum parente ou de sacudir braços e pernas. Nossa mãe nos ensinou a comer quando não sabíamos, a nos vestir, a andar, a falar — dizendo coisas como “ma, ma-mãe, pa, pa-pai...”. Ela nos ensinou diversas habilidades manuais, corrigindo desequilíbrios e disparidades


Além do mais, ela não foi sua mãe apenas nesta ocasião. Vagando pela existência cíclica sem início, ela foi sua mãe incontáveis vezes. Sobre isso, o Sutra do Ciclo Sem Início afirma:

Se para cada pedaço de pedra, terra, planta ou mata deste mundo alguém separasse uma semente de junípero e outra pessoa contasse, a contagem terminaria em algum momento. Mas seria impossível contar quantas vezes cada ser senciente foi minha mãe.

Car__ta a um Amigo também diz:

Se todas minhas mães fossem representadas por
pílulas de terra do tamanho de sementes de junípero,
não iria haver terra suficiente.

Desse modo, cada vez que ela foi sua mãe, ela teve essa bondade descrita. Portanto, já que a bondade de sua mãe não teve limites, cultive do fundo do coração, de todas as maneiras possíveis, com sinceridade, uma mente amorosa e benéfica que aspira pelo benefício dela.

Mas, além disso, há mais: todos os seres sencientes já foram sua mãe, e nessas ocasiões tiveram exatamente a bondade que foi descrita.

— Mas a extensão dos seres sencientes é de que tamanho?

Seres sencientes preenchem onde quer que cheguem os limites do espaço. Sobre isso, o Sutra da Prece de Aspiração pela Atividade Sublime menciona:

Onde quer que cheguem os limites do espaço,
esse é o limite da existência dos seres.

Então cultive o máximo possível uma mente sincera que aspira pelo benefício e felicidade de seres sencientes por todo o espaço. Quando ela nasce, esse é o “amor verdadeiro”. O Ornamento dos Sutras Mahayana diz:

Bodisatvas tratam todos seres
como se fossem sua única criança,
com um amor vasto surgindo de suas profundezas,
que sempre aspira pelo benefício.

Quando, pela força do amor, os olhos se enchem de lágrimas e os pelos do corpo se arrepiam, esse é o “amor imenso”. Quando esse amor nasce de forma igualitária para todos seres sencientes, esse é o “amor imensurável”.

5. Sinal de proficiência#

Quando não há mais pensamentos que desejam o próprio bem-estar, havendo exclusivamente a aspiração pela felicidade de seres sencientes, isso é a proficiência no amor.

6. Qualidades do amor#

As qualidades do cultivo do amor são ilimitadas. O Sutra d__e Tchandraprabha ensina:

Todo tipo de oferendas imensuráveis dispostas
em um quatrilhão de terras puras oferecidas
para um ser sublime não se compara com
a quantidade de mérito de uma mente amorosa.

Mesmo o mérito de cultivar amor por um instante também é ilimitado. Sobre isso, a Guirlanda Preciosa diz:

Mesmo doar 300 pratos de comida
três vezes por dia não se compara
com a quantidade de mérito
de um único instante de amor.

Até que a budeidade seja realizada, o amor nos beneficia de oito maneiras. A Guirlanda Preciosa enumera:

Teremos a afeição de seres divinos e humanos,
eles vão nos proteger, teremos felicidade,
muito conforto, não seremos feridas por armas,
nem venenos, objetivos serão alcançados sem esforço,
e renasceremos nos reinos de Brahma.
Enquanto a liberação não for realizada,
esses oito benefícios do amor são obtidos.

Além disso, o cultivo de amor é excelente para termos proteção, assim como aconteceu com o brâmane Mahādatta4. E também é excelente para a proteção alheia, como demonstrou o Rei Bāla Maitreya5. Ao adquirir proficiência no amor, então não haverá dificuldades para o cultivo da compaixão.

Compaixão#

O sumário sobre a compaixão é:

Categorias, objeto, forma, maneiras de cultivar,
sinal de proficiência e qualidades.
Estes seis pontos resumem a compaixão imensurável.

1. Categorias#

A compaixão se divide em três categorias: compaixão que foca em seres sencientes, baseada na natureza dos fenômenos e compaixão (que surge da meditação) não referencial.

No primeiro tipo, ao ver sofrimentos como o de seres nos destinos inferiores, surge compaixão.

No segundo tipo (baseada na natureza dos fenômenos), após se familiarizar com as Quatro Nobres Verdades, reconhecer o princípio kármico de ação e resultado, tendo revertido a fixação nas coisas como sendo permanentes e sólidas, então surge a compaixão diante de seres que se fixam nos fenômenos como sendo permanentes e sólidos, que não reconhecem o princípio de ação e resultado. Pensamos: “Estão tão confusos!”

No terceiro tipo (não referencial), ao repousar em equilíbrio meditativo e realizar a vacuidade de todos os fenômenos, surge uma compaixão especial por seres que acreditam na solidez das coisas, assim como é dito:

Quando bodisatvas repousam em equilíbrio
e chegam à realização pela força da meditação,
nasce uma compaixão especial por seres possuídos
pelo demônio da fixação na solidez das coisas.

Entre esses três, o contexto aqui é a meditação no primeiro tipo de compaixão (por seres sencientes).

2. Objeto#

O objeto dessa compaixão são todos seres sencientes.

3. Forma#

Essa compaixão se expressa na forma de uma mente que aspira pela libertação (de todos os seres) do sofrimento e de suas causas.

4. Maneiras de cultivar compaixão#

O método de cultivar compaixão são meditações baseadas em nossa mãe. Por exemplo, caso minha mãe estivesse aqui sendo cortada e retalhada por outra pessoa, queimada e cozida, ou então passando tanto frio que bolhas estivessem estourando e abrindo na pele, se ela estivesse passando por isso, haveria compaixão intensa.

Nessa mesma situação, se houvesse a certeza de que seres nascidos nos infernos são minhas mães, passando por intensos sofrimentos como esses, como não ter compaixão? Então cultive a compaixão que aspira pela liberação do sofrimento e de suas causas para esses seres.

Além disso, caso minha mãe estivesse aqui sendo ameaçada por fome e sede, afligida por doenças, aterrorizada, angustiada e impotente, eu teria imensa compaixão. Nessa mesma situação, se houvesse a certeza de que esses seres nascidos como fantasmas famintos são minhas mães, passando por tormentos como esses, como não ter compaixão? Então cultive a compaixão que aspira pela libertação de sofrimentos como esses.

Além do mais, caso minha mãe estivesse aqui enfraquecida de velhice, sendo ainda assim impotentemente escravizada por outra pessoa, sendo espancada, assassinada, retalhada e tudo mais, teríamos compaixão. Nessa mesma situação, se houvesse a certeza de que seres nascidos como animais são minhas mães, sendo atormentados por tais sofrimentos, como não ter compaixão? Então cultive a compaixão que aspira pela libertação de sofrimentos como esses.

Além disso, se minha mãe estivesse diante de um abismo com dezenas de milhares de quilômetros de profundidade, sem saber do perigo, não havendo ninguém para avisar: “Você está indo na direção de um abismo!” Se ela se aproximasse desse precipício gigante, cuja queda envolve muito tormento e de onde não podemos subir de volta, surgiria compaixão intensa.

Divindades, humanos e semideuses estão na mesma situação, diante do grande abismo dos destinos inferiores, ignorantes sobre o cuidado de abandonar ações negativas e desvirtudes. Não tendo o apoio de um professor espiritual, vivenciam os tormentos dos três destinos inferiores, dos quais é muito difícil se libertarem. Como não ter compaixão? Então cultive a compaixão que aspira pela libertação de sofrimentos como esses.

5. Sinal de proficiência#

Quando surge uma compaixão genuína, que não é mero pensamento ou palavra aspirando pela liberação do sofrimento dos seres, rompendo as correntes da fixação em cuidar apenas de si, isso é a proficiência na compaixão.

6. Qualidades#

O cultivo da compaixão possui qualidades imensuráveis. A Descrição da Realização de Avalokiteshvara afirma:

Se houvesse apenas um ensinamento, como se todos os ensinamentos do Buda estivessem na palma da mão, qual seria ele? É a grande6 compaixão.

O Sutra que Reúne Perfeitamente as Qualidades diz ainda:

Ó Bhagavan, é assim: onde quer que esteja a roda preciosa de um rei tchakravartin7, ali estará todas suas tropas. Ó Bhagavan, é assim: onde quer que esteja a grande compaixão de bodisatvas, ali estará todas as qualidades do Buda.

O Sutra dos Segredos do Tathagata diz ainda:

Ó Senhor dos Segredos (Vajrapani), a sabedoria primordial da onisciência tem como raiz a compaixão.


Desse modo, quando — através do amor — há a aspiração para que seres sencientes obtenham conforto e — através da compaixão — que eles se libertem do sofrimento, não havendo alegria com a obtenção de paz e felicidade apenas para si, mas sim deleite com a perspectiva da realização da budeidade para o benefício de seres, então isso é o antídoto para o apego ao prazer da paz individual.

Sendo assim, quando amor e compaixão surgem em nosso contínuo mental, e nos concentramos mais no benefício alheio do que no bem para si, acontece como foi dito (por Atisha, em Tocha Para o Caminho da Iluminação):

Compreendendo o sofrimento no próprio
contínuo mental, e aspirando perfeitamente pela
extinção completa de todos sofrimentos alheios:
assim é a pessoa de capacidade superior.

Um exemplo do cultivo dessa capacidade superior mencionada é o brâmane Mahadatta8.

Este foi o “Capítulo 7 – Ensinamento sobre amor e compaixão”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 A expressão “contínuo mental” (tib.: rgyud) é usada nas escrituras como um sinônimo para “mente individual”. Ela transmite a ideia de que nossa identidade é apenas um fluxo de pensamentos e experiências, sem existência inerente.

2 Os outros dois tipos serão explicados adiante, na seção sobre as Seis Perfeições.

3 “O gelo como calçado e as estrelas, como gorro” é uma expressão tibetana que significa “trabalhar de dia e de noite”.

4 Conforme o Sutra do Sábio e o Tolo, o príncipe Mahādatta foi uma das encarnações anteriores do Buda Shakyamuni. Movido por amor, atuou para ajudar a aliviar a pobreza intensa em sua terra, sendo protegido em diversas situações perigosas.

5 Segundo o mesmo sutra, esse rei também foi uma encarnação anterior do Buda, que tinha um amor tão intenso pelos seres ao ponto de doar sua própria carne e sangue para efetivamente protegê-los.

6 Quando a palavra “grande” é usada em escrituras, ela carrega o sentido de algo insuperável, supremo. “Grande compaixão” aqui se refere à compaixão transcendente de bodisatvas.

7 “Tchakravartin” é a figura mitológica de um rei universal, conforme a cosmologia mitológica indiana que o budismo herdou.

8 Ver nota na seção “Compaixão | 1. Categorias” deste capítulo.