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Capítulo 8 – Ensinamento sobre refúgio e assumir seus preceitos#

Refúgio#

O segundo elemento (necessário para a boditchita) a ser explicado é o refúgio.

— Devo buscar o refúgio e proteção de divindades mundanas locais poderosas? Em deuses como Brahma, Vishnu ou Mahadeva? Em importantes divindades e “nagas” que habitam montanhas, rochedos, lagos e árvores?

Todas elas não têm o poder de proteger, não são fontes de refúgio. Uma escritura (Grande Sutra da Vitória Suprema) ensina:

Pessoas no mundo buscam refúgio em
divindades de montanhas, florestas,
locais de oferendas, bosques, rochedos e árvores,
mas esses refúgios não são verdadeiros.

— Devo então buscar refúgio em minha mãe, pai, parentes, amigos e pessoas afeiçoadas que se alegram em me ajudar?

Elas também não têm o poder de proteger. O Sutra da Exibição de Manjushri diz:

Seu pai e mãe não são sua proteção.
Parentes, amizades e conhecidas também não.
Essas pessoas vão onde os desejos as levam
e, assim, lhe abandonam.

— Por que elas todas não têm o poder de proteger?

Porque, para alguém dar proteção, ela mesma precisa ter se libertado do medo, não havendo nenhum sofrimento. Essas pessoas todas não estão livres do medo e sofrem.

Assim, com a exceção de budas, não há quem esteja definitivamente livre do sofrimento. Com a exceção do Dharma, não há outro caminho para realizar a budeidade. Com a exceção da Sangha, não há outra companhia para a prática do Dharma. Por isso, é preciso se refugiar nessa proteção tripla. Sobre isso, é dito (no Sutra da Exibição de Manjushri):

Hoje me abrigo na proteção do Buda,
do Dharma e da sublime assembleia da Sangha,
que dissipam o medo de seres aterrorizados,
oferecendo refúgio a migrantes desprotegidas.

Poderia ser imaginado:

— Mesmo que eles tenham o poder de proteger, se eu me abrigar nesse refúgio, a proteção está mesmo garantida?

Não alimente dúvidas como essa, o Sutra do Grande Nirvana afirma:

Ao se refugiar nas Três Joias,
o destemor é conquistado.

Sendo assim, a apresentação sobre o refúgio na proteção dessas três joias é resumida assim:

Categorias, fundação, fonte, duração, intenção,
cerimônia, funções, treinamento e benefícios.
Esses nove pontos sumarizam o refúgio.

1. Categorias#

Há duas categorias de refúgio: o refúgio comum e o especial.

2. Fundação#

Essas duas categorias se aplicam para as pessoas que têm a base para o refúgio. A pessoa que tem a base para o refúgio comum tem medo dos sofrimentos da existência cíclica e imagina as Três Joias como se fossem divindades. A pessoa que é a fundação para o refúgio especial possui a descendência Mahayana, em um corpo humano ou divino.

3. Fonte#

Também há duas fontes de refúgio.

Fonte de refúgio geral1#

A joia do Buda é o Bhagavan Buda, que possui perfeita renúncia, sabedoria primordial, natureza sublime e esplendor.

A joia do Dharma ainda se divide em dois aspectos: o Dharma dos ensinamentos, que são os 12 ramos dos discursos do Buda, e o Dharma da realização, que são as verdades do caminho e da cessação2.

A joia da Sangha também se divide em duas: a Sangha de pessoas comuns, formada por um grupo de quatro ou mais praticantes monásticos sem transgressão de votos; e a Sangha sublime, formada pelos quatro pares de pessoas sagradas3.

Fontes de refúgio especiais4#

As fontes de refúgio especiais são: aquelas que estão presentes diante de nós, fontes de realização direta e a natureza essencial.

Fontes presentes diante de nós – O Buda é representado por uma imagem do Tathagata; o Dharma, pelas escrituras Mahayana; a Sangha é a assembleia de bodisatvas.

Fontes de realização direta – O Buda é a corporificação dos três kayas5, o Dharma é a paz e nirvana do Dharma sagrado, a San­gha são bodisatvas com a realização dos grandes bhumis.

F__onte de realização em termos da natureza essencial – É unicamente o Buda. Sobre isso, o Sublime Contínuo ensina:

Em termos absolutos, o refúgio
dos seres é somente o Buda.

— Mas como o Buda pode ser o refúgio definitivo?

(O Sublime Contínuo diz:)

Porque ele possui o corpo do Dharma (dharmakaya)
e também é a Sangha: a Sangha absoluta.

Já que budas estão além do surgimento e cessação, completamente purificados, livres do desejo e possuem o dharmakaya, eles são um refúgio sagrado. E já que chegaram à realização final da pureza do dharmakaya, que é o objetivo da Sangha dos três veículos, budas são um refúgio sagrado.

— Então o Dharma e a Sangha não são refúgios definitivos?

O Sublime Contínuo afirma:

Os dois aspectos do Dharma e da nobre Sangha
não são refúgios sublimes duradouros.

— Como eles podem não ser fontes de refúgio definitivas?

Entre os dois aspectos do Dharma, o Dharma dos ensinamentos é uma coleção de nomes e letras; por isso, do mesmo modo como a canoa é deixada de lado ao fim da travessia, esse dharma não é um refúgio definitivo.

Já o Dharma da realização tem dois aspectos:

  • A realização da verdade do caminho é algo composto; portanto, é impermanente. Assim, por ser um fenômeno com que não podemos contar, não é um refúgio.

  • Sobre a realização da verdade da cessação, a tradição Shravaka afirma que isso é como uma lamparina que apaga, ou o fim de um contínuo. Como isso é uma não existência, não é um refúgio definitivo.

Em relação à Sangha, ela mesmo se abriga no refúgio do Buda, temendo o samsara. Já que possui medo, ela não é um refúgio definitivo. Sobre isso, o Sublime Contínuo menciona:

Os dois aspectos do Dharma e da Sangha eminente
não são refúgios definitivos porque
(o ensinamento) será deixado de lado,
(com a verdade do caminho) não poderemos contar,
(a verdade da cessação) é uma não existência
e (a Sangha) possui medo.

Sendo assim, atcharya Asanga disse:

O refúgio inesgotável, permanente, imutável e sagrado é apenas um. Trata-se do Tathagata, vitorioso sobre o inimigo, o Buda completamente iluminado.

— Mas isso contraria o que foi dito antes sobre haver três refúgios.

Isso surgiu como um método para guiar as pessoas a serem treinadas. O Sutra da Grande Liberação afirma:

Em essência, há um refúgio,
mas, como método, há três.

— Como o método dos três refúgios é apresentado?

O Sublime Contínuo ensina:

Os três refúgios são apresentados assim:
em relação ao professor, ensinamento e alunos,
há três veículos, três atividades e diversas aspirações.

Eles são apresentados em termos de três qualidades, três veículos, três atividades e três aspirações.

Sobre as qualidades do professor, pessoas no caminho bodisatva e as que aspiram por ações que consideram o Buda supremo dizem: “Eu me abrigo no refúgio do Buda, o ser sagrado entre humanos, como sendo a proteção.”

Sobre as qualidades do ensinamento, pessoas no caminho pratyekabuda e as que aspiram por ações que consideram o Dharma supremo dizem: “Eu me abrigo no refúgio do Dharma, os ensinamentos sagrados livres de desejo e apego, como sendo a proteção.”

Sobre as qualidades de alunas e alunos (a Sangha), pessoas no caminho shravaka e as que aspiram por ações que consideram a Sangha suprema dizem: “Eu me abrigo no refúgio da Sangha, a mais sublime assembleia, como sendo a proteção.”

Essa apresentação dos três refúgios, baseada em três aspectos e seis tipos de pessoas, foi proclamada pelo Bhagavan apenas como uma realidade relativa, para introduzir gradualmente seres nos caminhos.

4. Duração do refúgio#

Há dois tipos de duração do abrigo no refúgio: a duração comum é se refugiar deste momento até o fim da vida, a duração especial (Mahayana) é se refugiar deste momento até que a essência da iluminação seja realizada.

5. Intenção#

Também há dois tipos de intenção (para se abrigar no refúgio das Três Joias). A intenção comum é considerar insuportável o sofrimento apenas para si. A intenção especial (Mahayana) é considerar insuportável o sofrimento alheio.

6. Cerimônia#

Também há dois tipos de cerimônia de refúgio.

Cerimônia comum#

Na cerimônia comum, primeiro o aluno suplica ao mestre espiritual (para se abrigar no refúgio). Então, como uma preliminar, o mestre faz oferendas às representações das Três Joias à sua frente, ou caso não as tenha, visualizando-as no espaço à frente, ele mentalmente as louva e faz oferendas. O aluno então recita o seguinte após o mestre:

“Todos budas e bodisatvas, por favor considerem-me. Mestre espiritual, por favor considere-me. Eu, que me chamo … , de agora em diante até que realize a essência da iluminação, abrigo-me no refúgio do Buda, sublime entre humanos; abrigo-me no refúgio do Dharma, sublime entre tudo que está livre de desejo e apego; abrigo-me no refúgio da Sangha, sublime entre as assembleias.”

Recite isso três vezes do fundo do coração.

Cerimônia especial#

A cerimônia especial de refúgio se divide em preparação, parte principal e conclusão.

Preparação

Na primeira etapa, é oferecida uma mandala com flores a um mestre espiritual apropriado, seguida do pedido. Então, se a pessoa a ser treinada tiver a descendência Mahayana e for um recipiente adequado, o professor aceita.

No primeiro dia, ele arranja representações das Três Joias e as oferendas, e explica sobre os benefícios de se abrigar no refúgio e as falhas de não fazer isso.

Parte principal

No segundo dia, será realizada a cerimônia em si. Primeiramente, com a percepção de que os objetos à frente realmente são as Três Joias, a pessoa faz prostrações e oferendas. Então, repete o seguinte após o mestre, três vezes:

“Todos budas e bodisatvas, por favor considerem-me. Mestre espiritual, por favor considere-me. Eu, que me chamo … , de agora em diante até realizar a essência da iluminação, abrigo-me no refúgio do Bhagavan Buda, sublime entre humanos. Abrigo-me no refúgio do Dharma, sublime entre tudo que está livre de apego e desejo, a paz do fim do sofrimento, nirvana. Abrigo-me na Sangha de bodisatvas irreversíveis, sublime entre as assembleias.”

Então, após convidar as fontes de refúgio que possuem realização direta, considerando como se estivessem realmente presentes, a pessoa se prostra e faz oferendas. Com o pensamento “neste momento, o que quer que eu faça vocês percebem”, o refúgio na proteção é repetido três vezes como antes.

Depois, sobre a fonte de refúgio que é a natureza essencial, a pessoa se prostra, faz oferendas e se refugia na proteção, dentro da pureza completa das três esferas6: já que todos os fenômenos são primordialmente sem identidade, não existindo como nenhuma entidade sólida, o Buda, Dharma e Sangha também devem ser vistos assim. Este é o refúgio inesgotável, permanente e imutável. Sobre isso, o Sutra Solicitado Pelo Rei Naga Anavatapta afirma:

“O que é ter se abrigado no refúgio com uma mente livre da fixação na materialidade?” Ao reconhecer a não existência de todos os fenômenos — não sendo formas, não tendo características, não tendo existência —, com a visão da completa pureza da budeidade, então isso é ter se abrigado na proteção do Buda. Ter a visão de que todos os fenômenos compartilham a natureza do dharmadhatu7 é ter se abrigado na proteção do Dharma. Ter a visão da não dualidade de fenômenos compostos e não compostos8 é ter se abrigado na proteção da Sangha.

Conclusão

No terceiro dia, há o ritual de conclusão, em que são feitas oferendas de agradecimento às Três Joias.

7. Funções#

Sobre as funções do refúgio, o Ornamento dos Sutras Mahayana ensina:

É o refúgio sublime pois protege contra
todos os danos, destinos inferiores,
inabilidades, a visão dos agregados transitórios9
e veículos inferiores.

Isso significa que o refúgio comum é uma proteção contra todas as violências, os três destinos inferiores, inabilidades (para evitar o sofrimento e obter conforto) e contra a visão dos agregados transitórios. O refúgio especial protege contra todos os caminhos inferiores10.

8. Treinamento#

Há nove treinamentos ligados ao refúgio: três treinamentos gerais, três específicos e três similares.

Os três treinamentos gerais são:

  • Esforçar-se o tempo todo para fazer oferendas às Três Joias — no mínimo, ofereça a primeira porção do alimento que comer.

  • Não abandonar as Três Joias mesmo com a vida em risco ou em nome de recompensas.

  • Relembrando as qualidades da Três Joias, repetidamente se abrigar nessa proteção.

Os três treinamentos específicos são:

  • Tendo se abrigado na proteção do Buda, não buscar refúgio em nenhuma outra deidade. O Sutra do Grande Nirvana diz: “Pessoas que se abrigaram nos budas, sublimes buscadoras da virtude, jamais pedirão alguma outra proteção.”

  • Tendo se abrigado na proteção do Dharma, não prejudicar seres sencientes. Esse sutra diz: “Caso tenha se abrigado no refúgio do Dharma, a mente fica livre da violência e do desejo de prejudicar.”

  • Tendo se abrigado na proteção da Sangha, não depender de hereges (tirthika). O mesmo sutra diz: “A pessoa que se refugia na proteção da Sangha não toma o partido de hereges.”

Os três treinamentos similares são:

  • Respeitar representações da joia do Buda como estátuas do Tathagata, desde um pedaço de uma imagem do Buda moldada com barro em diante.

  • Respeitar representações da joia do Dharma como livros e volumes de escrituras, desde cada letra dessas obras em diante.

  • Respeitar representações da joia da Sangha como os mantos do Professor, desde um simples pedaço remendado de pano amarelo em diante.

9. Benefícios#

Há oito benefícios do refúgio: a pessoa se torna budista, isso é a base para todos os outros tipos de votos, todas as negatividades cometidas irão se extinguir, obstáculos de humanos e não humanos não prejudicarão, tudo que é planejado é realizado, o refúgio é uma grande causa de mérito, não haverá queda nos destinos inferiores, e a budeidade perfeita e manifesta será realizada rapidamente.


Preceitos pratimoksha#

O terceiro elemento11 (necessário para o cultivo da boditchita) são os votos de liberação individual (pratimoksha). Entre suas oito categorias, desconsiderando o “sojong”, qualquer um dos outros sete votos pratimoksha são assumidos como sendo a base substancial desse cultivo.

Os sete tipos de ordenação pratimoksha são: monge, monja, monja aspirante, monge noviço, monja noviça, leigo ordenado e leiga ordenada. Sobre isso, o texto Níveis Bodisatva afirma:

As sete categorias em que os votos pratimoksha são recebidos totalmente se referem às pessoas que mantém a disciplina de um monge, monja, monja aspirante, monge noviço, monja noviça, leigo ordenado e leiga ordenada. Conforme o caso, elas são reconhecidas como sendo pessoas leigas ou renunciantes.

— Mas por que votos pratimoksha são necessários para dar nascimento à boditchita da aplicação?

Essa necessidade deve ser compreendida com base em três motivos: através de um exemplo, de escrituras e da lógica.

Exemplo#

A analogia é: o local para onde convidamos um grande rei tchakravartin não tem sujeira, esterco e poeira por toda parte, mas sim é um belo palácio que foi minuciosamente limpo, ornamentado com joias e tudo mais.

Desse mesmo modo, a morada onde nasce e reside a majestade que é a mente do despertar não pode ser uma pessoa descomprometida com o abandono de ações demeritórias de corpo, fala e mente, e cujo contínuo mental está contaminado pelas máculas da negatividade.

A boditchita nasce e permanece em uma pessoa livre da contaminação das negatividades de corpo, fala e mente, em uma existência excelentemente ornamentada com o compromisso da disciplina.

Escritura#

A seção sobre o cultivo da boditchita do Ornamento dos Sutras Mahayana diz:

Sua base são votos de amplo alcance.

Nesse sentido, como os votos de sojong valem por um dia apenas, eles têm curto alcance. Já as outras sete categorias de votos não são assim, tendo amplo alcance. Por isso, elas foram ensinadas como sendo a base para o cultivo da boditchita. Tocha Para o Caminho da Iluminação menciona:

Pessoas que possuem de modo duradouro
algum dos sete votos pratimoksha
são recipientes adequados
para o voto bodisatva. Outras, não.

Por isso, é ensinado que a base (para o nascimento da mente do despertar) é o voto que for adequado entre os sete tipos de ordenação pratimoksha.

Lógica#

A formulação lógica é: com os votos de liberação individual, o dano aos outros seres é abandonado junto com suas causas; o voto bodisatva é sobre beneficiar outros seres; portanto, (votos pratimoksha são necessários porque) não há como beneficiar os seres se não pararmos de prejudicá-los.

Alguém poderia dizer:

— Não há lógica em dizer que votos pratimoksha são a base para o voto bodisatva, porque hermafroditas, seres sem sexo e divindades não podem receber votos pratimoksha, mas podem cultivar os votos da boditchita.

Ou então:

— Um local de residência (para a boditchita), como sendo a base, também não tem sentido. Isso porque votos pratimoksha são abandonados na hora da transferência da morte, já o voto bodisatva perdura.

A resposta é que há três tipos de motivações para assumir os votos de liberação individual:

  • Quando algum desses sete tipos de votos pratimoksha são recebidos com a motivação de obter prazer nos três reinos, isso é chamado de “disciplina que deseja bens”.

  • Quando são recebidos com a motivação que deseja eliminar permanentemente o próprio sofrimento, isso é chamado de “disciplina da renúncia shravaka”.

  • Quando são recebidos com a motivação de realizar a grande iluminação, isso é chamado de “disciplina do voto bodisatva”.

As duas primeiras disciplinas não podem ser assumidas como base para o voto bodisatva por hermafroditas, seres sem sexo, divindades e equivalentes, pois são abandonadas na hora da morte e, se forem transgredidas, não podem ser reparadas.

Já a terceira, a disciplina do voto bodisatva, pode ser assumida por esses seres, pois não se perde com a transferência da morte e pode ser reparada caso degenere. Assim, ela é a base para o surgimento da boditchita e para sua continuidade. É por isso que o comentário (de Sthiramati) do Ornamento dos Sutras Mahayana afirma:

“Qual é a base da mente do despertar?”
É a disciplina do voto bodisatva.

Ou seja, votos pratimoksha são necessários como a base para o nascimento da boditchita. Já para sua continuidade são opcionais. (O mesmo texto diz:)

Por exemplo, isso é como a disciplina da concentração meditativa, que é uma base necessária para a disciplina sem contaminação, mas é opcional como uma base para sua continuidade.12

Não é necessário um ritual extra para receber os votos de liberação individual do contexto bodisatva. O próprio treinamento shravaka, se já tiver sido recebido, depois — quando houver a motivação especial (bodisatva) — vai continuar existindo e se transformará no voto pratimoksha do contexto bodisatva. Isso porque a mentalidade inferior13 é abandonada, mas a motivação de parar de prejudicar os seres não é descartada.

Desse modo, alguém que possui a descendência Mahayana, se refugia na proteção das Três Joias e tem algum dos sete tipos de preceitos de liberação individual é uma pessoa com a base necessária para dar nascimento à mente do despertar.

Este foi o “Capítulo 8 – Ensinamento sobre refúgio e assumir seus preceitos”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 A palavra “geral” significa que são fontes de refúgio compartilhadas entre todas as pessoas que se refugiam nas Três Joias.

2 Neste contexto, a verdade do caminho se refere à realização do caminho da iluminação; e a verdade da cessação, à extinção de todo sofrimento.

3 Pessoas que alcançaram as quatro realizações shravaka: entrada na corrente, só mais um renascimento, sem mais renascimentos e a realização da destruição de inimigos (arhat).

4 Estas são as fontes de refúgio Mahayana.

5 Três kayas: dharmakaya, sambhogakaya e nirmanakaya. Esses são os três “corpos” (sânsc.: kaya) da natureza buda, que serão explicados nos capítulos 20 e 21.

6 Realizar algo dentro da “pureza das três esferas” significa não se fixar no sujeito, ação e resultado como tendo existência inerente, ou seja, mantendo a visão da vacuidade. Antes da realização direta, isso é feito de forma conceitual.

7 Dharmadhatu é a realidade em seu aspecto essencial genuíno, sem ilusões.

8 Aqui, “fenômenos compostos” se referem a tudo que é ilusório e relativo; “não compostos” são os aspectos imutáveis e genuínos da realidade. A não dualidade desses dois se refere à não dualidade entre relativo e absoluto, ou seja, o relativo é uma expressão do absoluto.

9 A “visão dos agregados transitórios” é a ideia de que há um eu no corpo e mente formados pelos cinco agregados (forma/corpo, sensação, categorização, formações mentais e consciência).

10 Buscas exclusivas por bens, prazer ou liberação individual.

11 O primeiro elemento é a fundação (descendência Mahayana) e o segundo, o refúgio.

12 A “disciplina da concentração meditativa” se refere à fabricação da atenção para quem está começando a meditar, ou seja, ela é artificial. Já a “disciplina sem contaminação” se refere a uma atenção que é mantida naturalmente, sem esforço.

13 Desejar a liberação apenas para si.