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Capítulo 14 – Perfeição da paciência#

O resumo da perfeição da paciência é:

Contemplação das falhas (de não ter)
e os seus benefícios, essência, tipos,
características de cada tipo, como expandir,
como torná-la pura e resultado. Estes sete pontos
resumem a perfeição da paciência.

1. Falhas da ausência de paciência e os seus benefícios#

Explicando o primeiro ponto, se alguém possui generosidade e disciplina, mas não tem paciência, ainda surge raiva para ela. Com o surgimento da raiva, toda virtude da prática da generosidade, disciplina e outras pode ser extinta de uma só vez. Por isso, a Coleção de Escrituras de Bodisatvas afirma:

Isso que é chamado de raiva destrói
as virtudes fundamentais acumuladas
por cem mil eras cósmicas.

E Engajamento na Ação Bodisatva ensina:

Generosidade, oferendas aos sugatas
e todas outras atividades excelentes
acumuladas por mil eras:
um instante de raiva destrói.

Além disso, sem paciência, a raiva se aloja internamente como uma flecha envenenada: a mente atormentada não experimenta alegria, conforto, paz e, no final, não há descanso nem no sono. Sobre isso, é mencionado (no mesmo texto):

Uma mente que carrega o tormento da raiva
não experimenta paz, não obtém
alegria ou conforto. O sono não vem
e não há como contar com nada.

E também:

Em resumo, ao se enfurecer, não há
ninguém que permanece confortável.

Fora isso, quando não há paciência e a raiva se aloja internamente, surge agressividade externamente. Então, todas amizades, parentes e pessoas no trabalho lamentam e se irritam — mesmo com a doação de presentes, ninguém fica por perto. Por isso, é dito (Engajamento na Ação Bodisatva):

Seus amigos e parentes terão repulsa.
Apesar de atrair os outros com presentes,
eles não o servirão.

Além do mais, maras prejudicam quem não tem paciência e lançam obstáculos. Nesse sentido, a Coleção de Escrituras de Bodisatvas menciona:

Para alguém com mente raivosa, há danos causados por maras e obstáculos.

Na ausência da paciência, as Seis Perfeições da budeidade também ficam incompletas e a iluminação insuperável não é realizada. Sobre isso, o Sumário da Perfeição da Sabedoria ensina:

Com raiva e nenhuma paciência,
como pode haver iluminação?


O contrário disso é que ter paciência é a melhor entre as virtudes fundamentais. Sobre isso, é dito (Engajamento na Ação Bodisatva):

Não há negatividade igual à raiva.
Não há austeridade igual à paciência.
Então, familiarize-se insistentemente
com a paciência, de diversas maneiras.

Além do mais, com paciência, todo conforto e felicidade são obtidas em qualquer ocasião. Também é ensinado (no mesmo texto):

Já quem se esforça para destruir o ódio
tem conforto agora e no futuro.

Se alguém tem paciência, também realizará a iluminação insuperável. Sobre isso, o Sutra do Encontro da Criança com o Pai afirma:

Reconhecer que a raiva não é o caminho do Buda
e sempre se familiarizar com o amor
— daí surge a iluminação.

2. Essência da paciência#

A essência da paciência é não se ofender, como ensina Níveis Bodisatva:

A mente que não se preocupa com bens materiais, tendo apenas compaixão, sem se ofender: em resumo, isso deve ser entendido como a essência da paciência.

3. Tipos de paciência#

Há três tipos: a paciência de não se ofender com agressões, a de aceitar voluntariamente o sofrimento e a paciência motivada pela certeza no Dharma.

A primeira é ter paciência após analisar a natureza de seres prejudiciais. A segunda é ter paciência após analisar a essência do sofrimento. A terceira é ser paciente através do exame minucioso da natureza inequívoca dos fenômenos.

Além disso, as duas primeiras se referem ao cultivo da paciência do ponto de vista relativo; e a última, do ponto de vista absoluto.

4. Características de cada tipo de paciência#

As características de cada tipo serão explicadas.

Paciência de não se ofender com agressões#

Sobre o primeiro tipo de paciência, quando alguém fizer algo indesejável ou obstruir o que é desejado — como cometer violência física, abusos, demonstrar fúria ou expor falhas — para mim ou para pessoas próximas, cultive paciência.

— Nesses casos, o que é ter paciência?

Não se perturbar, não devolver a ofensa e não guardar ressentimento é chamado de paciência.

Além do mais, segundo atcharya Shantideva (em Engajamento na Ação Bodisatva1), é preciso ser paciente considerando:

  1. quem agride a mim ou outros seres não tem independência;

  2. as falhas de meu próprio karma;

  3. as falhas do corpo;

  4. as falhas da mente;

  5. não há diferença nas falhas;

  6. os benefícios;

  7. o grande favor;

  8. agradar budas;

  9. as imensas qualidades.

1. Quem agride não tem independência#

Sobre o primeiro ponto, examine: “Assim como Devadatta2, quem me agride não tem controle sobre a raiva. Ao surgir algo desagradável, a raiva se torna incontrolável. Já que esse ser não tem controle sobre si, é inapropriado que eu revide.” Nesse sentido, também é dito:

Assim, tudo é dependente e, dependendo
de outras coisas, não há autonomia.
Sabendo isso, não haverá raiva
com essas coisas que são como aparições.

2. As falhas de meu próprio karma#

A investigação das falhas do próprio karma é: “Essa agressão que experimento agora surge daquilo que cometi em vidas anteriores, exatamente como agora. Então já que meu karma negativo é falho, não é apropriado revidar em outros seres.” Sobre isso, é ensinado:

Eu mesmo antes prejudiquei os seres
dessas maneiras. Então é apropriado
que tais danos surjam para alguém
que machucou os outros como eu.

3. As falhas do corpo#

O exame das falhas de meu corpo é: “Se este corpo não existisse, coisas como as armas de outros seres não teriam o que agredir. Então, através da existência deste corpo, surge o dano. É inapropriado revidar nos outros.” Assim, é dito:

As armas deles. Meu corpo.
Ambos são causas de sofrimento.
Eles portam armas; eu, meu corpo.
Com quem vou me enraivecer?

4. As falhas da mente#

A investigação das falhas da mente é: “Minha própria mente não adotou um corpo excelente — imune a danos infligidos por outros seres — mas se fixou em um corpo fraco e vulnerável a lesões. Então, já que minha mente é a culpada, não é adequado revidar nos outros.” Sobre isso, também é ensinado:

Cego de avidez, assumi este abcesso
na forma de um corpo humano, que sofre tanto
que não aguenta ser tocado.
Quando ele for machucado, a quem dirigir a raiva?

5. Não há diferença nas falhas#

O exame sobre não haver diferença nas falhas é ensinado desse modo:

Algumas pessoas, por ignorância,
cometem negatividades. Outras, por ignorância,
se enfurecem com isso. Entre elas,
quem é inocente? Quem é culpada?

Por isso, evite as falhas e pratique a paciência.

6. Benefícios#

A investigação sobre os benefícios é: “A paciência é cultivada com base em agressões. Ao se familiarizar com a paciência, atos negativos são purificados. Ao purificar negatividades, as acumulações são completadas. Com a conclusão das acumulações, há iluminação. Portanto, já que esses seres prejudiciais, na verdade, são muito úteis, tenha paciência.” Sobre isso, também é dito, entre mais menções:

Usando-os como suporte para a paciência,
purifico muitas negatividades.

7. O grande favor (de quem prejudica)#

O exame sobre a agressão como sendo um grande favor é: “É impossível realizar a iluminação sem a perfeição da paciência. É impossível cultivar paciência sem agressão. Portanto, já que esses seres prejudiciais são um favor que auxilia a prática do Dharma, é preciso paciência.” Nesse sentido, é ensinado:

Então vou me regozijar
com pessoas inimigas,
que se tornam auxiliares
da conduta bodisatva. ...

Como pratiquei a paciência com
essas pessoas, é apropriado oferecer
antes seus frutos a elas, que assim
foram as causas da paciência.

8. A paciência agrada budas#

Considere como a paciência agrada budas, assim como é mencionado:

Além do mais, para esses amigos infalíveis
que realizam incontáveis benefícios,
de que outra maneira eu poderia retribuir
além de reverenciar seres sencientes?

9. As imensas qualidades#

Considere a paciência como tendo imensas qualidades, assim como é dito:

Muitos que reverenciaram (os seres)
assim cruzaram além para a perfeição.


Já o texto Níveis Bodisatva ensina a familiarização com a paciência através de cinco reconhecimentos, desse modo:

Reconheça a pessoa que causa danos como alguém querida no coração, como um mero fenômeno (composto), como impermanente, como tendo sofrimento e como alguém para ser cuidada com zelo.

O primeiro é reconhecer que esse ser senciente que agora prejudica, em vidas anteriores, foi diferente: sendo pai, mãe, professor, não havendo nenhum que não tenha sido sua mãe. Já que o quanto ele beneficiou não pode ser medido, cultive paciência com o reconhecimento de que esse ser que agora causa danos — que você imagina serem insuportáveis — é alguém querido no coração.

“Reconhecer como um mero fenômeno composto” é ver que a “pessoa que prejudica” é algo que depende de condições, é só uma categorização, só um fenômeno. Não há nenhuma identidade, ser senciente, vida ou pessoa que abusa, bate, critica ou repreende. Considerando isso, tenha paciência.

“Reconhecer como impermanente” é considerar que seres sencientes são impermanentes e mortais. Para eles, o maior dano é perder a vida. Assim, já que seres morrem por natureza, não há sentido em interromper suas vidas3. Contemplando isso, pratique paciência.

“Reconhecer como tendo sofrimento” é considerar: “Todos seres sencientes são afligidos pelos três tipos de sofrimento. Devo dissipar seu sofrimento e não provocá-lo. Ao reconhecer o sofrimento deles, seja paciente com agressões.

“Reconhecer como alguém para ser cuidada com zelo” é considerar: “Se eu cultivo a mente do despertar e digo ‘vou beneficiar todos seres sencientes’, então vou cuidar intensamente de todos os seres, do modo como alguém se preocupa profundamente com seu cônjuge. Assim, sendo inapropriado revidar danos insignificantes causados por um ser tão querido, cultive paciência.

Paciência de aceitar voluntariamente o sofrimento#

O segundo tipo de paciência é aceitar voluntariamente os sofrimentos para a realização da iluminação insuperável, com deleite e sem arrependimento. Nesse sentido, o texto Níveis Bodisatva afirma:

É a aceitação voluntária dos oito sofrimentos, como o relacionado à moradia e os outros, conforme ensinado.

O significado disso é aceitar voluntariamente, sem arrependimento, os sofrimentos de procurar coisas como mantos monásticos e doações de alimento, após a ordenação de renúncia; de fazer oferendas e servir às Três Joias e o guru; de ouvir o Dharma, ensinar, recitar e meditar; da dedicação em ioga no início e no final da noite (em vez de dormir). Esses 11 pontos anteriores são praticados para o bem dos seres, sem deixar-se perturbar pelo desconforto, cansaço físico ou mental, o calor, frio, fome e sede que surgem disso.

Um exemplo para isso é o modo como é aceito voluntariamente o sofrimento de tratamentos médicos como sangria ou moxabustão, que pacificam as dores de doenças graves. Sobre isso, Engajamento na Ação Bodisatva menciona_:_

O sofrimento para eu realizar
a budeidade é limitado, similar
à dor de uma incisão necessária para
curar o mal de uma hemorragia interna.

Desse modo, quem aceita voluntariamente sofrimentos na prática do Dharma, vencendo a batalha do samsara e destruindo as aflições inimigas, possui bravura heroica. Pessoas que matam inimigos ordinários — que já vão morrer de qualquer jeito — são renomadas no mundo como heroicas, mas não são: isso é como golpear um cadáver com uma arma. Nesse sentido, Engajamento na Ação Bodisatva afirma:

Desconsiderando todo sofrimento,
destruir o inimigo: as aflições como a raiva.
Essas são as vitórias de pessoas heroicas.
O resto é matar quem já está morto.

Paciência motivada pela certeza no Dharma#

Sobre o terceiro tipo, a paciência motivada pela certeza no Dharma, o texto Níveis Bodisatva diz:

… é a confiança em oito aspectos, como as qualidades das Três Joias e as restantes.

Ela também se refere à paciência que surge da contemplação da realidade como ela é, a natureza vazia dos dois tipos de identidade.

5. Como expandir a paciência#

A paciência é expandida com sabedoria primordial, prajna e dedicação, conforme já explicado (sobre a generosidade).

6. Como torná-la pura#

A paciência se torna pura quando praticada com a visão da vacuidade e compaixão, conforme já mencionado (em relação à generosidade).

7. Resultado#

Os frutos da paciência devem ser entendidos como dois: resultado final e o provisório.

O resultado final é a realização da iluminação insuperável, como menciona o texto Níveis Bodisatva:

Com uma paciência ampla e sem limites, surge o fruto, a grande iluminação. Com essa base, bodisatvas realizam perfeitamente a iluminação insuperável.

O resultado provisório é que, em todas as vidas, será obtida uma forma atraente, sem doenças, com renome, longevidade e o poder de tchakravartins — mesmo sem ter isso como objetivo. Nesse sentido, Engajamento na Ação Bodisatva diz:

Com a paciência no samsara, obtemos
beleza e outros atributos, ausência de doenças,
prestígio, grande longevidade e o poder
de tchakravartins de propagar o conforto.

Este foi o “Capítulo 14 – Perfeição da generosidade”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 Todas as citações nos nove pontos a seguir são de Engajamento na Ação Bodisatva.

2 Devadatta foi um primo do Buda Shakyamuni, que tentou prejudicá-lo diversas vezes por inveja.

3 A lógica aqui é que quem sente raiva tem a vontade de prejudicar. O maior prejuízo possível é a morte, que vai acontecer de qualquer maneira. Portanto, mesmo para quem imagina que a intenção de prejudicar é válida, ela não tem sentido no final.