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Capítulo 16 — Perfeição da concentração#

O resumo da perfeição da concentração é:

Contemplação das falhas (de não ter)
e os seus benefícios, constituição, tipos,
características de cada tipo, como expandir,
como torná-la pura e resultado. Estes sete pontos
resumem a perfeição da concentração.

1. Falhas da ausência de concentração e os seus benefícios#

Explicando o primeiro ponto, se alguém possui generosidade e tudo mais, mas não tem concentração, ao cair sob o poder da distração, sofrerá danos pelas mandíbulas das aflições mentais. Nesse sentido, Engajamento na Ação Bodisatva afirma:

A pessoa com uma mente distraída
permanece entre as mandíbulas das aflições.

Além do mais, sem concentração, não surge clarividência1. Sem clarividência, não há habilidade para beneficiar seres sencientes. Sobre isso, o texto Tocha para o Caminho da Iluminação menciona:

Não havendo a realização de shamata,
não surge clarividência.
Assim, não havendo o poder da clarividência,
não há habilidade para beneficiar seres sencientes.

Fora isso, sem concentração meditativa, não surge sabedoria. Sem sabedoria, a iluminação não é realizada. Sobre isso, Carta a um Amigo ensina:

Não havendo estabilidade meditativa, não há prajna.

O contrário disso é que, havendo concentração, o apego a coisas inferiores é abandonado, surge clarividência e diversas vias para o samadhi nascem no contínuo mental. Nesse sentido, o Sumário da Perfeição da Sabedoria diz:

Através da concentração, objetos inferiores do desejo são abandonados e há realização genuína de inteligência, clarividência e samadhi.

A concentração também dá nascimento à sabedoria, que pode destruir todas as aflições. Sobre isso, Engajamento na Ação Bodisatva menciona:

Tendo reconhecido que a aniquilação completa
das aflições se dá com a prática de vipashyana
em união com shamata...

Além do mais, havendo concentração, a realidade perfeita é vista e surge compaixão por seres sencientes. Sobre esse aspecto, o Sutra que Reúne Perfeitamente as Qualidades ensina:

Ao repousar a mente em equilíbrio, o absoluto é visto
do modo como é. Ao ver o absoluto assim como é, bodisatvas se engajam em grande compaixão
por seres sencientes.

Fora isso, tendo concentração, há habilidade para levar à iluminação todas as pessoas a serem treinadas, assim como afirma o Ornamento dos Sutras Mahayana:

Através da concentração em si, todas as pessoas são levadas às três iluminações2.

2. Constituição da concentração#

A concentração é constituída por um repouso tranquilo (shamata) interno que permanece com foco unidirecional na virtude. Nesse sentido, a seção de Níveis Bodisatva que trata da essência da concentração afirma:

É a mente que permanece na virtude de modo unidirecional.

Esse tipo de estabilidade meditativa é obtido abandonando distrações, que são os fatores antagônicos. Para abandonar distrações, é preciso isolamento: isole-se das atividades mundanas3 do corpo e dos conceitos da mente. Sobre isso, Engajamento na Ação Bodisatva menciona:

Ao isolar corpo e mente,
distrações não surgem.

Isolar o corpo#

O primeiro aspecto — atividades para isolar o corpo das distrações de atividades mundanas — deve ser compreendido com seis pontos: característica das ocupações mundanas, sua causa, seus malefícios, característica de um retiro, suas causas e suas qualidades.

Característica das ocupações mundanas#

A característica dessas ocupações é a distração inerente a atividades como cuidar de crianças, cônjuge, círculo de pessoas e bens materiais etc.

Causa das ocupações mundanas#

A causa é o apego — apego a seres como cônjuge, pessoas do trabalho e círculo próximo; a bens como comida e riquezas; ou apego a coisas como elogios e boa reputação. Tais apegos fazem com que essas ocupações dispersivas não sejam abandonadas. Assim, é ensinado (em Engajamento na Ação Bodisatva):

Devido à paixão e à ânsia por posses e bens,
as coisas mundanas não são abandonadas.

Malefícios das ocupações mundanas#

As falhas disso devem ser entendidas como sendo duas: malefícios gerais e um específico.

Do ponto de vista geral, o Sutra do Encorajamento à Intenção Superior ensina, entre mais menções:

Maitreya, ocupações mundanas trazem 20 malefícios. Quais são esses 20? Não há freio para o corpo, não há freio para a fala, não há freio para a mente. Aflições são mais intensas. A pessoa é maculada por conversas mundanas, fica vulnerável a danos infligidos por maras, fica descuidada e não realiza shamata e vipashyana...

O malefício específico é que, através do apego a seres sencientes, a iluminação não é realizada, assim como é dito no Sutra de Tchandraprabha:

Ao obedecer completamente os desejos,
cultivando apego a crianças e cônjuge,
seguindo ocupações mundanas inferiores,
a sagrada iluminação insuperável jamais é realizada.

Engajamento na Ação Bodisatva também diz:

O apego a esses seres obscurece
totalmente a natureza verdadeira.

Então esse apego deve ser abandonado, assim como é ensinado (no mesmo texto):

Elas não me beneficiam,
assim como eu não as beneficio.
Fique bem longe de pessoas imaturas.

O Sutra de Tchandraprabha menciona os benefícios de abandonar esses apegos:

Abandonar o apego a crianças e cônjuge,
temendo a vida mundana e renunciando-a
— para pessoas que fazem isso,
não é difícil encontrar a iluminação sagrada.

Os malefícios do apego a posses e fama também são dois: não é possível manter permanentemente bens e reputação, e eles geram sofrimento.

Sobre o primeiro aspecto, Engajamento na Ação Bodisatva diz:

É incerto onde essa acumulação
de bens e renome vai levar.

Sobre o segundo aspecto, o mesmo texto diz:

Quaisquer que sejam os desejos consumados,
eles se multiplicam por mil,
para então surgirem como sofrimento.

Característica de um retiro#

O que define um local de retiro é o isolamento em relação a ocupações mundanas.

Causas de um retiro#

A causa desse isolamento é permanecer só em um local de retiro. “Local de retiro” se refere a lugares como um campo de cadáveres4, floresta, abrigo em rochedo, planície etc, que estejam no mínimo a uma distância em que não se ouve mais a cidade — equivalente a 500 arcos (três quilômetros). O Tesouro do Abidharma afirma:

É afirmado que um local de retiro fica a uma distância
em que não mais se ouve (a cidade), de 500 arcos.

Qualidades de um retiro#

Sobre as qualidades do isolamento, há muitos benefícios em escapar das ocupações mundanas e praticar em um local de retiro, para a realização da iluminação e o benefício de seres sencientes. Essa é a melhor maneira de servir e venerar budas, a mente se desilude com o samsara, há libertação das oito preocupações mundanas, aflições não se multiplicam e surge samadhi no contínuo mental.

Explicando o primeiro benefício (“é a melhor maneira de servir e venerar budas”), dar apenas sete passos na direção de um local de retiro — tendo a intenção de permanecer ali com a boditchita de beneficiar seres sencientes — agrada mais a budas com iluminação perfeita do que uma profusão de oferendas de comida, bebida, flores e tudo mais. O Sutra de Tchandraprabha afirma:

Comida, bebida, roupas, flores, incenso, guirlandas
não veneram o Vitorioso Ser Sublime.
A pessoa que dá sete passos em direção a um retiro, desiludida com a insignificância das coisas compostas,
para beneficiar seres sencientes, tem um mérito superior, especialmente eminente.

Sobre a mente renunciar ao samsara, a libertação das oito preocupações mundanas e a não multiplicação das aflições, o mesmo sutra menciona:

Do mesmo modo, haverá desilusão constante
em relação a fenômenos compostos,
nenhum desejo por qualquer coisa mundana
e as contaminações não vão proliferar.

O fator principal entre as coisas necessárias — samadhi — também surge rapidamente, assim como diz esse sutra:

Ao abandonar a excitação das vilas e cidades,
sempre permanecendo em retiros e florestas,
fique sozinho como um rinoceronte, unidirecional.
Sem demora, o samadhi sublime será obtido.

Isso conclui a explicação sobre isolar o corpo das distrações de atividades mundanas.

Isolar a mente#

Sobre a atividade para se isolar de conceitos mentais, ao permanecer em um retiro, contemple: “Por que vim para este retiro? Vim com medo, para escapar de locais de distração como cidades.” Sobre o que causa esse medo, o Sutra Solicitado Pelo Leigo Ugra afirma:

Tenho medo e pavor de distrações mundanas; de bens e honrarias; de amizades negativas; de professores que ensinam desvirtudes; do apego, aversão e ignorância; dos maras dos agregados, das aflições, do Senhor da Morte e do filho dos deuses5; dos três destinos: inferno, de fantasmas famintos e de animais. Com tal medo e pavor, vim para este retiro.

Com esse tipo de medo, examine: “O que estou fazendo com meu corpo, fala e mente neste retiro?”

“Caso eu permaneça neste retiro usando meu corpo para matar, roubar etc, não sou diferente de animais predadores, caçadores ou ladrões — isso realiza minhas intenções últimas?” Refletindo assim, rechace isso.

Examine a fala: “Caso eu permaneça neste retiro usando minha fala para conversa inútil, criar discórdia, ofender etc, não sou diferente de animais como papagaios, pássaros ruidosos, etc — isso realiza minhas intenções últimas?” Refletindo assim, rechace isso.

Examine a mente: “Caso eu permaneça neste retiro usando minha mente para cultivar fixação no desejo, ódio, inveja etc, não sou diferente de animais como macacos e ursos6 — isso realiza minhas intenções últimas?” Refletindo assim, rechace isso.

Isto conclui a explicação sobre como isolar a mente de conceitos (prejudiciais).

Neutralizar aflições#

Isolando assim corpo e mente, distrações não surgem. Não havendo distrações, é possível adentrar a estabilidade mental. Portanto, é preciso treinar a mente: entre essas aflições, examine qual é mais forte, e contemple seu antídoto.

O antídoto para o desejo é a meditação em aspectos desagradáveis. O antídoto para a raiva é meditar no amor. O antídoto para a ignorância é meditar na interdependência. O antídoto para a inveja é a meditação na igualdade entre mim e outros seres. O antídoto para o orgulho é a meditação na troca entre mim e outros seres. Se todas as aflições são igualmente intensas, ou se há muitos pensamentos, medite na respiração.

Antídoto para o desejo#

Se o desejo for mais forte, medite da seguinte maneira nos aspectos desagradáveis. Primeiro, contemple considerando que este corpo é feito de 36 substâncias impuras, como carne, sangue, pele, osso, tutano, linfa, bile, muco, saliva, fezes etc.

Depois, indo para um campo de cadáveres, olhe os corpos ali abandonados após a morte: os que chegaram há um dia, dois, três, quatro ou cinco dias. Olhe o aspecto de decomposição, como eles se tornaram azulados ou escuros, sendo comidos por vermes. Contemple: “Meu próprio corpo tem essa natureza, é um fenômeno como esses, não transcendi essa condição”.

Fora isso, olhe os cadáveres trazidos ali com apenas um pouco de carne nos ossos, os reduzidos às fibras dos músculos, aqueles cujos ossos estão todos quebrados, ou os que estão ali há muitos anos, cuja cor dos ossos é como a de conchas ou cinzas. Contemple: “Meu próprio corpo tem essa natureza, é um fenômeno como esses, não transcendi essa condição”.

Antídoto para a raiva#

Se a raiva for mais forte, medite da seguinte maneira em seu antídoto, o amor. Em geral, há três tipos de amor, conforme explicado antes7. Esta seção é sobre o amor que foca em seres sencientes.

Primeiro, considere um ser senciente querido de coração e como realizar seu conforto e benefício. Isso lhe aproximará do amor afetuoso por tal ser.

Depois, faça isso com pessoas bem conhecidas. Então, com pessoas menos conhecidas. Depois, com pessoas vizinhas. Então, com os seres de sua cidade. Depois, medite dessa maneira com os seres ao norte, e em cada uma das outras direções e, por fim, de todas as dez direções juntas.

Antídoto para a ignorância#

Se a ignorância for mais forte, medite da seguinte maneira em seu antídoto, a originação interdependente. O Sutra do Broto de Arroz afirma:

Monges, quem compreende este broto de arroz compreende a originação interdependente. Quem compreende a originação interdependente compreende o Dharma. Quem compreende o Dharma compreende a budeidade.

Nesse sentido, há dois tipos: a interdependência da existência cíclica conforme a ordem de surgimento; e a do nirvana, em ordem reversa.

Interdependência da existência cíclica

Este primeiro tipo também se divide em duas: interdependência de fenômenos externos8 e a interna. A interna também se divide em duas: interdependência interna de causas e a de condições.

Interdependência interna de causas

Sobre a interdependência interna de causas, foi ensinado (no Sutra do Broto de Arroz):

Monges, havendo isto, surge aquilo. Surgindo aquilo, surge isto. É deste modo. Devido ao condicionamento da ignorância, há desde formações até o nascimento. Devido ao condicionamento do nascimento, há envelhecimento e morte9; dor, pranto, sofrimento, desconforto mental e conflito. É desse modo que surge esta imensa massa de apenas sofrimento.

Isso se refere ao reino do desejo, entre os três reinos; e ao nascimento a partir do útero, entre os quatro tipos de nascimento.

(Os 12 Elos da Originação Interdependente são:)

  1. Antes de tudo, é estabelecido aquilo que é chamado de ignorância, a confusão sobre os objetos a serem compreendidos.

  2. Sob essa influência, são criadas formações10 manifestas de ações contaminadas de virtude ou desvirtude. É por isso que é dito: “Devido ao condicionamento da ignorância, há formações.”

  3. A mente direcionada por essas sementes de karma é a que se refere a frase (nesse sutra): “Devido ao condicionamento das formações, há consciência11.

  4. Pela força do karma, a mente se engana completamente e entra no útero materno, transformando-se no embrião, com todas suas fases de desenvolvimento. Por isso é dito: “Devido ao condicionamento da consciência, há nome e forma12.”

  5. Com o desenvolvimento de nome e forma, as faculdades da visão, olfato e todas as outras se tornam completas. Por isso é dito: “Devido ao condicionamento de nome e forma, há os seis fatores da percepção13.”

  6. Quando as faculdades como a visão, seus objetos e a consciência interagem plenamente, surge o que é chamado de “contato condicionado pelos seis fatores da percepção.”

  7. Conforme o tipo de contato, surge a sensação de prazer, dor ou indiferença. É a isso que se refere “sensação condicionada pelo contato.”

  8. Devido à experiência de uma sensação agradável, desejável ou intensamente desejável, surge o que é chamado de “anseio14 condicionado pela sensação.”

  9. Com o pensamento “que eu jamais me separe disso”, perseguindo esse objeto constantemente, sem soltar, há “fixação condicionada pelo anseio”.

  10. Devido a essa perseguição, através de ações de corpo, fala e mente que levam ao renascimento, há o chamado “vir a ser condicionado pela fixação.”

  11. Quaisquer que sejam os Cinco Agregados que surgem a partir dessas ações, eles são chamados de um “nascimento condicionado pelo vir a ser.”

  12. Após o nascimento, o desenvolvimento completo dos agregados até a maturidade implica envelhecimento; e, ao se desintegrarem, morte. Assim, há “envelhecimento e morte condicionadas pelo nascimento.”

Ao morrer, devido à confusão, há apego e desejo intensos, tormento interno completo — é a isso que se refere “dor” (no sutra citado). “Pranto” é a expressão verbal dessa dor. A experiência de incômodo que acompanha o conjunto dos Cinco Agregados é “sofrimento.” Na mente, a dor que acompanha os pensamentos é “desconforto mental”. Além do mais, quaisquer aflições secundárias similares a essas causam “conflito.”

Esses (12) elos devem ser compreendidos em três categorias:

  • Aflições: ignorância, anseio e fixação.

  • Karma: formações e vir a ser.

  • Sofrimento: consciência e os seis elos restantes.

O texto Originação Interdependente Madhyamaka diz:

Todos os doze elos específicos
devem ser entendidos em três grupos.
Esses elos da interdependência proclamados pelo Sábio
estão contidos em três aspectos:
aflições, karma e sofrimento.
O primeiro, o oitavo e o nono elos são aflições.
O segundo e o décimo são karma.
Os sete elos restantes são sofrimento.

Além disso, um exemplo ilustrativo é que a ignorância é como a pessoa que planta uma semente. Karma é como o campo. A consciência é como a semente. Anseio é como a umidade. Nome e forma são como o broto. Os elos restantes são como os ramos, folhas e outras partes da planta.

Se a ignorância não surgir, formações também não se manifestam, e assim por diante, até chegar à ausência de nascimento, que implica a não manifestação de envelhecimento e morte. No entanto, havendo ignorância, formações vão se manifestar, e assim por diante, até o nascimento, que leva à manifestação de envelhecimento e morte.

Nesse processo, a ignorância não pensa “eu vou manifestar as formações”; e as formações não pensam “nós fomos todas criadas pela ignorância15.” É desse mesmo modo até o nascimento, que não pensa “eu vou manifestar envelhecimento e morte”; e o envelhecimento e morte não pensam “fomos criadas de fato pelo nascimento”. No entanto, é devido à existência da ignorância que as formações surgem completas; e assim por diante, até o nascimento, que leva à manifestação de envelhecimento e morte.

A interdependência interna de causas funciona desse modo.

Interdependência interna de condições

A originação interdependente interna também está ligada a condições, porque o aspecto interno reúne seis elementos: terra, água, fogo, vento, espaço e consciência.

Em relação a eles, isto que define a solidez material visível do corpo é chamado de “elemento terra”. Isto que agrega o corpo como um todo é chamado de “elemento água”. Isto que digere comida, bebida e tudo mais é chamado de “elemento fogo”. Isto que move a respiração para fora ou dentro é chamado de “elemento vento”. A existência destas cavidades internamente no corpo se deve ao chamado “elemento espaço”. O grupo das cinco consciências mais a consciência de cognição condicionada é o chamado “elemento consciência”.

Sem essas condições, um corpo não surge. Com a reunião de todas essas seis condições internas completas, haverá a manifestação visível de um corpo.

Nesse processo, os seis elementos não pensam “nós vamos criar a materialidade do corpo e os outros aspectos”; e o corpo também não pensa “eu nasci dessas condições”. No entanto, é a partir dessas condições que ele surge completo.

— Sobre isso, em quantas vidas se completam esses 12 elos interdependentes?

O eminente Sutra dos Dez Níveis afirma:

As “formações condicionadas pela ignorância” se limitam à vida anterior. Consciência até sensação se referem ao que surge nesta vida. Anseio até vir a ser se referem à vida futura. Daí em diante, tudo surge novamente.

Interdependência do nirvana

Sobre a interdependência em ordem reversa do nirvana, ao realizar a verdadeira natureza de todos os fenômenos como sendo vacuidade, a ignorância é interrompida. Com isso, a sequência dos outros elos é interrompida, até envelhecimento e morte, assim como foi pronunciado (no Sutra do Broto de Arroz):

Então, ao interromper a ignorância, as formações são interrompidas...

E assim por diante, até:

… ao interromper o nascimento, o envelhecimento e morte são interrompidos — assim como a dor, pranto, sofrimento, desconforto mental e conflito. É desse modo que é interrompida esta imensa massa de apenas sofrimento.

Antídoto para a inveja#

Caso a inveja seja mais forte, cultive seu antídoto, a igualdade entre o eu e outros seres: “Já que, assim como eu desejo conforto, outros seres sencientes também desejam, e assim como eu não quero sofrimento, outros seres sencientes também não querem, então vou me familiarizar com a igualdade entre mim e outros seres”. Sobre isso, Engajamento na Ação Bodisatva afirma:

Primeiro, medite com vigor na igualdade
entre o eu e outros seres. Já que ambos
passamos por conforto e sofrimento,
protegerei a todos como sendo eu.

Antídoto para o orgulho#

Caso o orgulho seja mais forte, cultive seu antídoto, a troca entre o eu e outros seres. Seres sencientes sem maturidade, fixados em estimar e considerar apenas a si, sofrem na existência cíclica. Já budas, dedicados a prezar outros seres e atuando exclusivamente para o bem alheio, realizaram a budeidade. Por isso, é ensinado (no mesmo texto):

Seres imaturos ficam buscando o próprio bem.
Já seres sábios agem pelo bem alheio.
Veja o que diferencia esses dois.

Então, reconhecendo as falhas de prezar a si, abandone isso. Reconhecendo as qualidades de prezar outros seres, trate-os como a si mesma. Sobre isso, Engajamento na Ação Bodisatva também diz:

Reconhecendo que possuo falhas,
enquanto os outros são oceanos de qualidades,
vou me familiarizar com o abandono da fixação
no eu e vou considerar mais as outras pessoas.

Antídoto para aflições na mesma proporção#

Caso as aflições estejam na mesma proporção ou haja muitos conceitos, pratique com a respiração, meditando das seis maneiras — contar, seguir etc — conforme o Tesouro do Abidharma:

Seis maneiras foram definidas:
contar, seguir, descansar,
pensar, transformar
e purificar completamente.

A tradição do Mantra Secreto — em que a prática é não rejeitar, criar ou transformar essas aflições — ou as instruções da tradição de Marpa e seus herdeiros devem ser aprendidas com transmissão oral. Isso deve ser entendido a partir da Yoga da Coemergência16 e dos Seis Dharmas do glorioso Naropa.

Todas essas etapas do treinamento da mente se referem ao engajamento na concentração.

3. Tipos de concentração#

A concentração em si divide-se em três: concentração meditativa que permanece confortável em relação aos fenômenos visíveis17, a que realiza qualidades e a concentração meditativa que beneficia seres sencientes.

O primeiro tipo faz do contínuo mental um recipiente adequado. Após tornar-se um recipiente adequado, o segundo tipo de concentração realiza qualidades da budeidade. O terceiro beneficia seres sencientes.

4. Características de cada tipo de concentração#

As características de cada tipo serão explicadas.

Concentração do conforto#

nos fenômenos visíveis

Sobre o primeiro tipo, a concentração meditativa que permanece confortável em relação aos fenômenos visíveis, o texto Níveis Bodisatva afirma:

Nela, a concentração de bodisatvas está livre de todos conceitos, surge flexibilidade de corpo e mente, é pacificação perfeita e sublime, não há orgulho, não há fixação no sabor da experiência e há liberdade em relação a todas características conceituais. É assim que deve ser compreendida a “permanência em conforto nesta vida”.

Nessa passagem, “livre de todos conceitos” significa permanecer com foco único, sem a tolice dos conceitos mentais sobre existência, não existência etc.

“Surge flexibilidade de corpo e mente” é sobre acabar com todas tendências negativas no corpo e na mente.

“É pacificação perfeita e sublime” se refere ao engajamento de modo natural nisso.

“Não há orgulho” significa que há liberdade em relação às aflições da visão enganada (que concebe um eu).

“Não há fixação no sabor da experiência” pois não há aflições que criam a existência condicionada.

“Liberdade em relação a todas características conceituais” significa não experimentar estímulos como formas visuais e dos outros sentidos (como tendo realidade).

Além disso, sobre a concentração meditativa ser a entrada para todas as qualidades, há quatro concentrações (sânsc.: dhyāna): a primeira concentração meditativa, a segunda, terceira e quarta. A primeira contém pensamento e investigação; a segunda, deleite; a terceira, êxtase; e a quarta, equanimidade.

Concentração que realiza qualidades#

A concentração que realiza qualidades se divide em dois tipos: as concentrações extraordinárias e as comuns.

As extraordinárias se referem aos diversos tipos de samadhi inacreditáveis e ilimitados que os Dez Poderes18 incluem. Se shravakas e pratyekabudas não conhecem nem os nomes disso, não é preciso falar sobre efetivamente se engajar neles.

As concentrações comuns (que realizam qualidades) compartilham os nomes com as de shravakas: liberação completa, dominante, bases da extinção, discriminação excelente etc. No entanto, apesar dos nomes serem os mesmos, sua natureza não é.

Concentração que beneficia seres#

Ao se engajar nessas concentrações meditativas, há a emanação de inúmeros corpos, com a concentração que realiza 11 benefícios19 — entre eles, ajudar com as necessidades de seres sencientes etc.

— Em relação às conhecidas meditações de shamata e vipashyana, qual é shamata e qual é vipashyana?

Shamata se refere a repousar a mente através de um samadhi excelente. Vipashyana é o que vem depois, uma lucidez discriminativa perfeita sobre os fenômenos: o que fazer e o que não fazer. Sobre isso, o Ornamento dos Sutras Mahayana afirma:

Já que, ao permanecer no que é excelente,
a mente repousa nela mesma,
e há discriminação perfeita dos fenômenos,
isso é shamata e vipashyana.

Alternativamente, shamata é a parte principal da concentração meditativa, vipashyana é o seu aspecto de sabedoria.

5. Como expandir a concentração#

A concentração meditativa é expandida através da sabedoria primordial, prajna e dedicação, conforme já explicado (sobre a perfeição da generosidade).

6. Como torná-la pura#

A concentração se torna pura quando praticada com a visão da vacuidade e compaixão, conforme já mencionado (em relação à generosidade).

7. Resultado#

Os frutos da concentração meditativa devem ser entendidos como sendo dois: o resultado final e o provisório.

O resultado final é a realização da iluminação insuperável, como é mencionado em Níveis Bodisatva:

Completando perfeitamente a transcendência da concentração, bodisatvas realizaram genuinamente a iluminação perfeita e completa, realizarão a iluminação perfeita e completa, ou estão realizando a iluminação perfeita e completa.

O resultado provisório é a obtenção de uma existência divina, livre do desejo e apego, assim como diz atcharya Nagarjuna (em Carta a um Amigo):

Através das quatro concentrações
— que abandonam objetos do desejo,
prazer físico, mental e o sofrimento —
é obtida uma fortuna divina, igual à dos reinos
de Brahma, da Luz Clara, do Desabrochar da Virtude
e do Grande Resultado.

Este foi o “Capítulo 16 – Perfeição da concentração”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 Clarividência (tib.: mngon shes) se refere a um conjunto de habilidades extrassensoriais. É dito que, com base nesse poder, mestres com realização sabem exatamente a maneira mais efetiva de beneficiar cada ser.

2 As iluminações arhat, pratyekabuda e da budeidade.

3 “Atividades mundanas” (tib.: ‘du ‘dzi) se referem à condição de envolvimento contínuo com tarefas e ocupações que não são a prática do Dharma.

4 Comum na Índia na época, “campo de cadáveres” (tib.: dur khrod) é um local afastado e ermo onde cadáveres são abandonados ao ar livre.

5 Esses são os quatro maras. Traduzido geralmente como “demônio”, a palavra “mara” (tib.: bdud) significa influências que obstruem a prática do Dharma. O mara dos (5) agregados se refere à fixação no corpo e mente, e todos os fenômenos que vêm através deles, como sendo reais. O das aflições são as emoções negativas. O do Senhor da Morte se refere ao fim da vida humana e ao medo disso. O mara do filho dos deuses é o apego ao prazer e conforto. Essa explicação vem dos sutras. Há uma outra enumeração no contexto Vajrayana.

6 Esses animais costumavam ser associados com estupidez e agressividade.

7 No “Capítulo 7 – Ensinamento sobre amor e compaixão”.

8 Este primeiro tipo, a originação interdependente de fenômenos externos, não é explicado neste texto.

9 Esta passagem se refere aos 12 Elos da Originação Interdependente: ignorância, formações, consciência, nome e forma, seis fatores da percepção, contato, sensação, anseio, fixação, vir a ser, nascimento, e envelhecimento e morte. Eles serão explicados a seguir.

10 Aqui, “formações” (tib.: ‘du byed) se referem à formação do karma.

11 O karma gerado pelas formações cria a consciência do próximo renascimento.

12 O termo “nome e forma” significa mente e corpo, respectivamente — ou seja, são os Cinco Agregados.

13 Aqui, “seis fatores” são os seis sentidos. “Fatores da percepção” (ayatana; skye mched) geralmente são referidos como 12 Ayatanas: as seis faculdades dos sentidos (a faculdade mental é a sexta) e seus seis objetos.

14 “Anseio” (tib.: sred pa), neste contexto, significa um apego ou desejo mais intenso e constante do que o mero desejo.

15 O sentido aqui é que, nos 12 elos, não há agentes intencionais que criam resultados, mas sim, um processo orgânico e interdependente.

16 “Yoga da Coemergência” (sahajayoga; lhan cig skyes sbyor) é um sinônimo para Mahamudra, a prática do reconhecimento da natureza da mente e todas suas expressões.

17 “Fenômenos visíveis” se referem a percepções imediatas, ou então, a fenômenos desta vida.

18 Sobre os Dez Poderes, ver “Capítulo 3 | 3. Características de mestres”.

19 Os 11 benefícios estão listados em “Capítulo 13 | 4. Características de cada tipo | Disciplina de beneficiar seres”.