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Capítulo 18 – Ensinamento que apresenta os caminhos#

Ao gerar assim a sublime boditchita inicialmente e persistir nesses treinamentos, os níveis e caminhos bodisatva são percorridos gradualmente. Sobre isso, para explicar os caminhos, o resumo é:

Caminho da Acumulação, Caminho da Junção,
Caminho da Visão, Caminho da Familiarização
e Caminho da Finalização Completa.
Os caminhos estão todos contidos nesses cinco.

Esses Cinco Caminhos são ensinados da seguinte maneira, conforme o texto Tocha para o Caminho da Iluminação.

No primeiro (o Caminho da Acumulação), pessoas de capacidade menor e mediana1 se familiarizam com o Dharma, firmando uma fundação. Depois, vem o cultivo das duas boditchitas — da aspiração e da aplicação — seguido do esforço nas duas acumulações. Esses aspectos são habilmente ensinados como sendo o Caminho da Acumulação.

O Caminho da Junção é explicado no trecho: “Gradualmente, ao alcançar o estágio do calor e os demais…”.

Os caminhos da visão, familiarização e finalização completa são ensinados a partir da passagem: “Deleite intenso e os outros níveis são obtidos…”.

1. Caminho da Acumulação#

Ele inclui toda dedicação na virtude praticada por uma pessoa que possui a descendência Mahayana, começando com a geração da mente do despertar sublime e o recebimento de instruções de um mestre espiritual, até que surja a sabedoria do calor2. Nesse período, há quatro etapas, em que a prática se desenvolve a partir de: compreensão, aspiração, anseio especial e aquisição.

— Por que isso é chamado de Caminho da Acumulação?

Porque são acumuladas as virtudes necessárias para se tornar um recipiente adequado para o nascimento de realizações como a do calor. Então isso é chamado de Caminho da Acumulação. Essas práticas também são chamadas de “virtudes fundamentais que levam à liberação”.

Nesse período, em relação aos 37 Fatores da Iluminação, 12 deles são cultivados, em três grupos, com quatro em cada um: as quatro aplicações da atenção, quatro engajamentos perfeitos e as quatro bases para poderes milagrosos.

As quatro aplicações da atenção são: aplicação da atenção no corpo, nas sensações, na mente e aplicação da atenção nos fenômenos. Elas se referem ao estágio menor do Caminho da Acumulação.

Os quatro engajamentos perfeitos são: abandonar ações negativas e as desvirtudes já presentes, evitar o surgimento de novas, gerar novas virtudes que atuam como antídotos, e multiplicar aquelas já existentes. Isso se refere ao estágio intermediário do Caminho da Acumulação.

As quatro bases para poderes milagrosos3 são: samadhi baseado em aspiração, em diligência, em intenção e samadhi baseado em análise. Eles integram o estágio superior do Caminho da Acumulação.

2. Caminho da Junção#

Após a conclusão perfeita do Caminho da Acumulação, surgem os “quatro ramos da distinção definitiva”, que conduzirão à realização das Quatro Verdades. São eles: calor, pico, aceitação e realização mundana suprema.

— Por que isso é chamado de Caminho da Junção?

Porque é feita a ligação com a clara realização da verdade (na próxima etapa, o Caminho da Visão); então é chamado de Caminho da Junção.

Nele, durante as fases do calor e do pico, há a posse de cinco faculdades: a faculdade da fé, da diligência, da lembrança, do samadhi e a faculdade da sabedoria (prajna). Já durante as fases da aceitação e da realização mundana suprema, elas se tornam cinco poderes: o poder da fé, da diligência, da lembrança, do samadhi e o poder da sabedoria4.

3. Caminho da Visão#

O Caminho da Visão vem após a fase da realização mundana suprema, sendo idêntico à união de shamata e vipashyana com foco nas Quatro Nobres Verdades5. Para cada uma das verdades há quatro momentos (ou insights), totalizando 16 momentos de aceitação e reconhecimento que essa realização engloba.

(Sobre a verdade do sofrimento,) há a aceitação do reconhecimento da natureza de sofrimento, o reconhecimento em si da natureza de sofrimento, a aceitação do reconhecimento posterior do sofrimento e o reconhecimento posterior em si do sofrimento6. As outras verdades seguem o mesmo padrão.

— Por que isso é chamado de Caminho da Visão?

Porque a verdade que eminentes bodisatvas do passado viram é vista; então é o Caminho da Visão.

Nessa etapa, há a posse dos sete ramos da iluminação: o ramo da iluminação da lembrança perfeita, da perfeita distinção dos fenômenos, da diligência perfeita, da alegria perfeita, do resultado perfeito do treinamento, do samadhi perfeito e o ramo da iluminação da equanimidade perfeita.

4. Caminho da Familiarização#

O Caminho da Familiarização vem depois do Caminho da Visão, havendo dois aspectos: o caminho mundano e o supramundano.

O caminho mundano envolve a primeira concentração (dhyana) mundana, a segunda, terceira e quarta; e (também as quatro concentrações sem forma:) as esferas mentais do espaço infinito, da consciência infinita, do absolutamente nada e a esfera mental que não é nem cognição nem não cognição.

Essas meditações realizam três coisas necessárias: derrotar as aflições a serem abandonadas no Caminho da Familiarização, realizar qualidades extraordinárias como as Quatro Imensuráveis e criar a base para o caminho supramundano.

O caminho supramundano da familiarização se refere ao aprofundamento de shamata e vipashyana com foco nas duas sabedorias primordiais7. Em relação aos aspectos de aceitação e reconhecimento — quatro para cada uma das verdades (totalizando 16, como já mencionado) — do Caminho da Visão, suas oito aceitações já foram concluídas. Mas os oito reconhecimentos ainda são cultivados através de shamata e vipashyana, com base nos quatro dhyanas e os três primeiros samadhis sem forma, no Caminho da Familiarização.

Nisso, o cultivo da realização sobre a natureza da realidade é o aspecto de reconhecimento dos fenômenos, enquanto o cultivo da realização da sabedoria primordial é o aspecto de reconhecimento posterior (ou continuidade do reconhecimento).

Em relação à “esfera mental que não é nem cognição nem não cognição” (o quarto samadhi sem forma), ele é totalmente mundano, já que seu movimento de cognição não tem nenhuma clareza.

— Por que isso é chamado de Caminho da Familiarização?

Porque é praticada a familiarização com a qualidade daquilo que é, realizada no Caminho da Visão; então isso é chamado de Caminho da Familiarização.

Nesse estágio, há a posse do Nobre Caminho Óctuplo: visão correta, pensamento correto, fala correta, atividade correta, meio de vida correto, esforço correto, lembrança correta e concentração correta.

5. Caminho da Finalização#

O Caminho da Finalização8 surge depois do “samadhi como um vajra”, consistindo no reconhecimento da cessação do surgimento e no reconhecimento do não surgimento. O samadhi como um vajra é o momento final de eliminação no Caminho da Familiarização, estando incluído nos estágios de preparação e sem interrupção (desse caminho). Esse samadhi é ininterrupto, resistente, estável, com um só sabor e pervasivo; portanto, é chamado de “como um vajra9”.

É ininterrupto porque o engajamento em circunstâncias mundanas não o anula. É resistente porque mesmo todos os obscurecimentos não podem destruí-lo. É estável porque conceitos não o abalam. Tem um só sabor porque realmente não há outro. É pervasivo porque seu foco é a natureza comum de tudo o que pode ser conhecido.

Após o samadhi como um vajra, há o “reconhecimento da cessação do surgimento”, que é a sabedoria primordial voltada para as Quatro Verdades, no contexto da cessação do surgimento de todas as causas (de sofrimento). Já o “reconhecimento do não surgimento” também é sabedoria primordial voltada para as Quatro Verdades, mas no contexto da eliminação dos resultados, que são sofrimento.

Ou seja, a sabedoria primordial voltada para a cessação de causas e para o não surgimento de resultados é o reconhecimento da cessação e do não surgimento.

— Por que isso é chamado de Caminho da Finalização?

Porque é a finalização do treinamento, a chegada à cidade do nirvana; então é chamado de Caminho da Finalização10.

Nesse estágio, há dez qualidades em que não há mais treinamento: desde a visão correta do não treinamento até a concentração correta do não treinamento (somando oito, com os mesmos nomes do Nobre Caminho Óctuplo), mais a liberação completa do não treinamento e a sabedoria primordial do não treinamento.

Essas dez qualidades em que não há mais treinamento formam cinco agregados sem contaminação. A fala correta, atividade correta e meio de vida correto do não treinamento são o agregado da disciplina. Lembrança correta e concentração correta do não treinamento são o agregado do samadhi. Visão correta, pensamento correto e esforço correto do não treinamento são o agregado da sabedoria. A correta liberação completa é o agregado da liberação total. A sabedoria primordial correta é o agregado da visão da sabedoria da grande liberação.

Este foi o “Capítulo 18 – Ensinamento que apresenta os caminhos”, do Ornamento da Liberação Preciosa, o Dharma Sagrado que é Como Uma Joia que Realiza Desejos.


1 Sobre as três capacidades, veja “Capítulo 2 | 2. Vantagens | Imensos benefícios”.

2 “Calor” é uma metáfora para a proximidade com o fogo da sabedoria. Esse nível é a entrada no próximo caminho, o da junção.

3 Esse termo se refere ao fato de que essas qualidades atuarão como a base para futuras habilidades milagrosas.

4 Essas cinco faculdades e cinco poderes também integram os 37 Fatores da Iluminação. No Caminho da Acumulação, foram listados 12 e, agora, esses dez. Os fatores restantes serão listados nos próximos caminhos.

5 No Caminho da Visão, as Quatro Verdades são reconhecidas como realidades diretamente perceptíveis, em vez de meros conceitos.

6 “Aceitação do reconhecimento” é a abertura para que isso seja realizado. “Reconhecimento posterior” é a continuidade dessa realização.

7 As sabedorias sobre a natureza absoluta e sobre a multiplicidade de aparências, que serão explicadas adiante.

8 O 5º caminho é a própria iluminação final. Ela é referida como um “caminho” neste contexto porque está sendo enfatizado o processo de conclusão ou “chegada”.

9 O significado que costuma ser associado à palavra em sânscrito “vajra” (tib.: rdo rje) é “indestrutível”.

10 Um outro nome para esse quinto caminho, usado em outros textos, é “caminho em que não há mais treinamento”.