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Diferenciação entre Consciência e Sabedoria#

3º Karmapa, Rangjung Dordje

Títulos de seções e notas baseadas no comentário de Djamgon Kongtrul
(rnam shes dang ye shes ‘byed pa’i bstan bcos kyi tshig don go gsal du ‘grel pa rang byung dongs pa’i rgyan)


1. Introdução: o início da composição#

1.1. Apresentação do título#

༄༅། །རྣམ་ཤེས་དང་ཡེ་ཤེས་འབྱེད་པའི་བསྟན་བཅོས། །

Tratado sobre a diferenciação entre consciência e sabedoria.

1.2. Reverência#

སངས་རྒྱས་དང་བྱང་ཆུབ་སེམས་དཔའ་ཐམས་ཅད་ལ་ཕྱག་འཚལ་ལོ།

Reverencio todos budas e bodisatvas.

1.3. Promessa para compor o texto#

།ཐོས་དང་བསམ་ལ་རབ་བརྟེན་ནས། །སྒོམ་པའི་ཚུལ་ལ་སྦྱོར་བའི་ཕྱིར། །བདག་ཉིད་དབེན་པར་འདུག་པ་ན། །ཚུལ་འདི་སྣང་བ་བརྗོད་པར་བྱ།

Baseado em intenso estudo e reflexão,
habitando um local de retiro
para aplicar a tradição da meditação,1
vou descrever como este princípio se manifesta.2

1 Rangjung Dordje foi um exemplo de mestre que combinou perfeitamente profunda instrução com ampla realização meditativa. No comentário, Djamgon Kongtrul explica extensamente a importância da renúncia e do estudo para a prática de meditação.

2 O princípio da consciência enganada e da sabedoria primordial que se revela quando os enganos são removidos.

2. Significado do texto#

2.1. Explicação do aspecto de consciência#

2.1.1. A raiz da confusão ou sua ausência é a mente#

2.1.1.1. As ideias enganadas de outras pessoas1#

།ཁམས་གསུམ་སེམས་ཅན་ཐམས་ཅད་ནི། །བདག་དང་གཞན་དང་གཉིས་ཀ་དང༌། །རྒྱུ་མེད་ལས་ནི་བྱུང་བར་རྟོག །བྱེད་པོ་ཕྱྭ་དང་དབང་ཕྱུག་དང༌། །ཚངས་དང་ཁྱབ་འཇུག་ཕྱི་རོལ་རྡུལ། །ཕག་ན་མོ་ཡི་རྫས་བདེན་པས། །བདག་དང་འཇིག་རྟེན་སྐྱེད་ཅེས་སྨྲ།

(Pessoas) imaginam que todos seres sencientes dos Três Reinos2
surgem de si, de outro, de ambos ou sem causa.3
(Elas) dizem que eu e o mundo surgem de um criador
como Tcha, Ishvara, Brahma, Vishnu,
de partículas externas ou de uma realidade verdadeira oculta.4

1 Nota do tradutor (NT): A maneira como outras crenças são apresentadas em alguns textos budistas é uma herança de um contexto histórico indiano em que validar a própria tradição e invalidar outras era uma questão de sobrevivência. Além de hoje isso não ter mais relevância, o objetivo deste texto não é rebaixar outras tradições mas, para clarificar sua visão (que combina Yogatchara e Madhyamaka), acaba sendo relevante demonstrar como ela se diferencia de outras.

2 NT: Reinos do desejo (seis destinos no samsara, com a exceção dos próximos dois), da forma e da não forma (reinos divinos elevados de transes meditativos, ainda dentro do samsara).

3 “Surgem de si” se refere à tradição hindu Samkhya, que afirma que tudo surge da modulação de uma substância primordial inerentemente existente. “De outro” se refere a religiões teístas em que há um deus criador. “De ambos” é sobre a combinação de um eu e um criador, ambos existentes. “Sem causa” é sobre a crença de que o mundo e os seres surgem sem nenhuma causa.

4 Teístas acreditam em divindades criadoras, como Tcha, da tradição tibetana Bön; ou deuses hindus como Ishvara etc. Já budistas da escola Vaibashika acreditam em partículas fundamentais indivisíveis (tanto na forma de instantes de consciência quanto de partículas materiais); e os da escola Sautrantika postulam uma realidade oculta que os sentidos não alcançam. As falhas das primeiras duas visões são bem conhecidas (por exemplo, no contexto Madhyamaka). Já a última posição é ilógica porque, se essa realidade é oculta, não pode criar algo visível; e se cria algo visível, então não é oculta.

2.1.1.2. O modo como o Vitorioso explicou isso#

།ཐམས་ཅད་མཁྱེན་པ་ཉག་གཅིག་ནི། །ཁམས་གསུམ་འདི་དག་སེམས་ཙམ་སྟེ། །བདག་ལས་མ་ཡིན་གཞན་ལས་མིན། །གཉིས་ལས་མ་ཡིན་རྒྱུ་མེད་མིན། །ཆོས་རྣམས་རྟེན་ཅིང་འབྲེལ་འབྱུང་སྟེ། །དེ་ཉིད་རང་གི་ངོ་བོས་སྟོང༌། །གཅིག་དང་ཐ་དད་རྣམ་བྲལ་བ། །རྫུན་དང་བདེན་པ་རྣམ་སྤངས་ཤིང༌། །སྒྱུ་མ་ཆུ་ཟླ་ལ་སོགས་ལྟར། །མཁྱེན་ནས་སེམས་ཅན་རྣམས་ལ་གསུངས།

Em sua sabedoria, o Onisciente sem par
ensinou aos seres sencientes que
estes Três Reinos são apenas mente:1
não surgem de si, de outro,
de ambos, nem de nenhuma causa.2
Todos os fenômenos são originação interdependente,
e a própria natureza dela é vazia,3
livre de unidade ou separação,4
além de falsidade ou verdade,5
como ilusões mágicas, a lua na água e outros exemplos.6

1 São um reflexo da mente conceitual comprometida pela ignorância. O Sutra da Viagem a Lanka diz: “Assim como, em um espelho, formas aparecem sem existir, ao não reconhecer as aparências da mente, surgem dois tipos de conceitos (eu e outro).” Um tantra diz: “Na joia da mente, não há budas ou seres que estejam fora, não há o menor traço de objetos externos para a consciência se fixar.”

2 As refutações desses quatro surgimentos são:

  • “Não surgem de si” porque, se já existem, não precisam surgir.
  • Não surgem “de outro” porque outro é algo que depende de um e, se não há um (conforme mencionado na nota anterior), não há outro. Além disso, por definição, “outro” é algo diferente; assim, se a origem de algo é um “outro”, a consequência absurda é que, por exemplo, a luz surgiria da escuridão (que é não-luz), ou a planta surgiria do vaso.
  • Não surgem “de ambos”, pois isso somaria as duas falhas anteriores. Além disso, algo em si e outra coisa não podem se combinar para dar origem a esse algo, porque duas coisas inerentemente existentes, logicamente, precisam estar separadas: se elas dependem uma da outra, não têm existência inerente e não estão separadas.
  • Não surgem “de nenhuma causa” porque podemos observar que um broto surge de uma semente, assim como nas causas e resultados envolvendo qualquer fenômeno.

NT: Argumentos mais detalhados sobre isso podem ser encontrados no 9º capítulo de Engajamento na Ação Bodisatva.

3 Fenômenos aparecem a partir de múltiplas causas e resultados interdependentes. Mas a interdependência em si é só uma aparência relativa, que surge na dualidade sujeito-objeto. Aparências são verdades relativas, sua natureza é vacuidade, livre de qualquer ponto de referência.

4 “Essas aparências relativas são a mesma coisa que sua natureza absoluta vazia? Ou são diferentes?” Não são a mesma coisa. Se fossem, ao ver aparências, a realidade absoluta seria vista. Mas também não são diferentes, porque a expressão é inseparável da natureza — se fossem separadas, a realidade última não seria a natureza das aparências. Assim, as realidades relativa e absoluta estão livres de “unidade ou separação”, sendo a inseparabilidade de aparência e vacuidade.

5 “Já que não são nem unidade nem separação, então são mentiras.” Não, as duas verdades não são falsas. A partir do ponto de vista da ilusão, a realidade relativa é a exibição infalível de causas e resultados; enquanto a realidade absoluta é sua natureza — não há mentira aí.

“Então, ambas são verdadeiras.” Também não. Apesar de haver aparências, elas são vazias de existência inerente, já o absoluto está além do domínio do intelecto. Assim, elas estão além de formulações.

6 As duas verdades são como ilusões mágicas ou o reflexo da lua na água, que surgem mas não existem do modo como aparentam. “Outros exemplos” são os fenômenos que costumam ser citados nas escrituras para ilustrar isso: miragens, ecos, reflexos, arco-íris etc. O Sumário da Visão, de Naropa, diz: “A lucidez autorreflexiva, livre de fabricações, aparece sendo vazia (de existência), é vazia mas aparece. Por isso, é a inseparabilidade de aparência e vacuidade, como no exemplo da lua na água.”

2.1.1.3. Como Rangjung Dordje realizou isso e, então, ensinará#

།དེ་ལྟར་འཁྲུལ་དང་མ་འཁྲུལ་བའི། །རྩ་བ་གང་ནས་བྱུང་ཡིན་ཞེས། །མེ་ལོང་ལས་ནི་རང་གཟུགས་དང༌། །དུ་བ་ལས་ནི་མེ་བཞིན་དུ། །རྟེན་ཅིང་འབྲེལ་འབྱུང་ཆོས་བརྟེན་ནས། །རྟོགས་པ་འདིར་ནི་གསལ་བརྗོད་བྱ།

“De onde surge a raiz dessa confusão ou sua ausência?”
Assim como o próprio reflexo no espelho
e fumaça (entendida como sinal) de fogo,1
com base na originação interdependente,
vou expressar claramente aqui essa realização.

1 Assim como o próprio reflexo pode ser reconhecido em um espelho, através das instruções do guru e do estudo do Dharma, Rangjung Dordje realizou a natureza das Duas Verdades. É isso o que será apresentado. Já nós podemos realizar isso da mesma maneira como, ao ver fumaça, compreendemos a presença de fogo — mesmo que inicialmente não haja realização direta, poderemos deduzir a realidade disso.

2.1.2. Estabelecer que aparências são a mente#

2.1.2.1. Interdependência da atividade das 5 consciências, que são a mente#

།སྒོ་ལྔའི་རྣམ་པར་ཤེས་པ་ནི། །གཟུགས་སྒྲ་དྲི་རོ་རེག་བྱ་ལ། །བླང་དོར་བྱས་པས་ཉོན་མོངས་བསྐྱེད། །ཡུལ་འདི་དག་ནི་གང་ཡིན་ཞེས། །ཤེས་རབ་ལྡན་པས་ལེགས་བརྟགས་ན། །རྣམ་རིག་ཤེས་པ་ལས་གཞན་པའི། །རྡུལ་སོགས་ཕྱི་རོལ་གྲུབ་པ་མེད།

As consciências das cinco portas adotam ou rejeitam
forma, som, odor, sabor e sensação tátil,
dando origem a aflições.1
Se alguém com prajna examinar bem:
“O que são esses objetos?”,
não é confirmada nenhuma existência externa,
como a de partículas, que não seja
a cognição conceitual da consciência.2

1 Quando os cinco sentidos e suas consciências encontram suas condições objetivas (os objetos dos sentidos), surge uma mente que deseja objetos agradáveis e rejeita os desagradáveis, produzindo assim apego e aversão. Não reconhecer a natureza neutra desses objetos (que não são nem bons nem ruins inerentemente) produz ignorância. É assim que o karma é criado, junto com o samsara, através da fixação em aparências enganadas como sendo reais.

2 Através do estudo, reflexão e meditação, há a compreensão (prajna) que enxerga: a partir do potencial (rtsal) de cognição conceitual (rnam par rig pa) da mente, objetos surgem como meras aparências das respectivas consciências. Aryadeva diz (no Compêndio da Essência da Sabedoria): “Algo feito de partes não é efetivo (não tem realidade inerente), e a realidade de coisas externas não procede. Fenômenos a serem rejeitados estão além de referenciais. Aquilo que é vivenciado é como um sonho.”

2.1.2.2. Os enganos que afirmam que isso não é a mente#

།གང་ཚེ་ཡུལ་གྱི་རྫས་འདི་དག །ཤེས་ལས་གཞན་ན་བདག་གཅིག་མིན། །བསྟན་མེད་ཐོགས་པ་མེད་པ་ཡི། །རིག་ལས་བེམ་པོའི་རྫས་མི་སྐྱེ། །དེ་ཕྱིར་དེ་བྱུང་འབྲེལ་བ་མེད། །དེ་འདོད་ཤེས་ལ་ཡུལ་རྣམས་ནི། །སྣང་བར་མི་རིགས་འབྲེལ་མེད་ཕྱིར།

Caso a substância desses objetos seja diferente
da consciência, não há base comum.1
A matéria não surge em uma mente
que não pode ser apontada nem obstruída,
por isso, não há relação causal.
É incoerente afirmar que esses objetos
aparecem para a consciência, pois estão desconectados.

1 Já que a consciência é imaterial, sendo diferente da matéria, não há base para interação. Naropa diz no Sumário da Visão: “Todos esses possíveis objetos aparentes não são nada mais que a autocognição da mente, já que aparecem com lucidez, assim como na experiência de autoconsciência. Se eles não fossem a mente, já que não há ligação, não apareceriam. Assim é estabelecido o nível relativo.”

2.1.2.3. Não há criadores externos#

།དེ་ཕྱིར་ཅི་ལྟར་སྣང་བ་འདི། །ཤེས་ལས་གཞན་པའི་ཡུལ་མེད་དེ། །དེ་བྱུང་རང་རིག་ཉམས་མྱོང་བཞིན། །ཆ་མེད་རྡུལ་དང་ཕྱ་ལེ་བ། །སྣང་བ་སེམས་ཏེ་དེ་ཡི་དོན། །ཕྱི་རོལ་གཞན་དུ་གྲུབ་མེད་ཕྱིར། །ཚངས་སོགས་བྱེད་པོ་མིན་པར་རྟོགས།

Por isso, quaisquer que sejam essas aparências,
elas não existem como objetos diferentes da mente.
Seu surgimento é como experimentar a própria cognição.1
Aparências como partículas indivisíveis
ou planícies2 são a mente.
O significado disso é: já que coisas externas não estão estabelecidas como algo diferente (da mente),
há a realização de que Brahma e outros3 não são criadores.

1 Por exemplo, quando lembramos da imagem de uma flor.

2 Ou seja, tanto objetos minúsculos quanto enormes.

3 “E outros” são os já mencionados deuses, partículas ou uma realidade externa que os sentidos não percebem.

2.1.2.4. A conexão da consciência mental com os fenômenos#

།ཡིད་དང་ཆོས་ཀྱི་འབྲེལ་བ་ཡང༌། །རྨི་ལམ་ཉམས་སུ་མྱོང་བ་བཞིན། །དེ་ཉིད་དེ་ལ་དམིགས་པ་ལ། །ཞེན་པར་ཟད་ཀྱི་དངོས་བདེན་མེད།

A ligação entre a consciência mental e os fenômenos
então é como a experiência de um sonho
— que é nada mais que a fixação
em suas imaginações, não há entidades reais.1

1 Os padrões habituais formados durante o dia, se tornam experiências que são percebidas como reais durante o sonho. Durante a vigília, ocorre algo similar: nos padrões habituais formados na mente, surge a lembrança de um vaso, por exemplo. A experiência em si do vaso já terminou, no entanto, conceitos posteriores sucessivos prolongam uma imaginação dele não examinada, em que há o pensamento de que esse fenômeno envolvendo forma (o 1º agregado de corpo-mente) é um vaso realmente existente. Mas aí não há nenhuma entidade substancial que seja diferente da mente. Em um sonho, todas as aparências não têm realidade inerente. Durante a vigília também: aquilo que dá a aparência de realidade a um vaso — os padrões habituais em torno dele, suas características e a ideia de que ele existe — são constituídos de múltiplos instantes mentais, ou seja, são todos fenômenos compostos. Se a experiência de um vaso é múltipla e composta, ele não tem existência inerente, pois é apenas um conjunto de outros fenômenos, que surgem na mente.

2.1.3. A mente é não nascida#

2.1.3.1. Parte principal da explicação#

།དེ་ལྟར་ཚོགས་དྲུག་ཤེས་པ་འདི། །དོན་དང་སེམས་ཅན་སྣང་བ་དང༌། །བདག་འཛིན་དང་ནི་རྣམ་རིག་དང༌། །སྣང་བའི་རྣམ་པ་གང་བྱུང་བ། །འདི་ཅི་གཞན་གྱིས་བྱས་མིན་ན། །བདག་གིས་བྱེད་པ་འགྱུར་མ་ཡིན། །གཉིས་ཀྱིས་མ་བསྐྱེད་གཉིས་མེད་མིན།

Desse modo, esta consciência dos seis grupos1,
aparece como objetos e seres sencientes,
fixação no eu e cognição conceitual,
ou qualquer tipo de aparência que surgir.2
O que é tudo isso? Se não foi criado por um outro,
não foi criado por si mesmo,
não surgiu de ambos, nem de nenhum.3

NT: A expressão “não nascida” (no título da seção) indica algo que nunca veio a existir, não se trata de algo existente que não nasceu, ou seja, que é eterno.

1 NT: “Seis grupos” é o mesmo que Seis Consciências (que serão detalhadas adiante). Já que cada uma delas é um agrupamento, há seis grupos.

2 Esta seção responde o seguinte questionamento: “Sim, a realidade de objetos externos não procede. Mas e a consciência? Não teria ela uma existência real?” Também não. Por exemplo, quando dizemos “aquela montanha ali”, isso depende de um ponto de referência aqui: se não houver algo ali, chamar isto de “aqui” perde o referencial e não tem mais sentido. Do mesmo modo é a consciência: se seus objetos não existem, ela também não é o ponto de referência. Nagarjuna diz (no Louvor à Transcendência): “Sem um objeto, seu sujeito não existe. Não havendo isso, a consciência também não existe.” Seguindo este entendimento, os versos seguintes enfatizam novamente a vacuidade de objetos externos para, depois, concluírem que, já que não há objetos reais para a consciência apreender, ela em si também não têm existência inerente.

3 Todos esses fenômenos são apenas mente. Sendo assim, já que não há objetos reais, não há um sujeito real, um eu ou consciência. Fenômenos não foram criados por um outro, porque “outro” depende de “eu” (se não há eu, não há outro). Consequentemente, um eu que não existe inerentemente também não pode criar. Não foram criados por ambos — pois ambos não têm existência real — nem por nenhum dos dois, ou seja, sem nenhuma causa (como já demonstrado).

2.1.3.2. Confirmação por escrituras#

།དེ་ཕྱིར་རྒྱལ་བས་གསུངས་པ་ལྟར། །འཁོར་འདས་ཐམས་ཅད་སེམས་ཙམ་སྟེ།

Por isso, conforme ensinado pelo Vitorioso,
tudo no samsara e nirvana é apenas a mente.1

1 Entre os diversos sutras que ensinam isso, o Avatamsaka diz: “A mente é como uma pintora. Ela cria os agregados; todos os mundos que existem, a mente pintou.” Todo fenômeno da existência cíclica são aparências da mente enganada, e toda qualidade no nirvana é expressão da base natural, a natureza da mente livre das máculas de sujeito e objeto. O Ornamento dos Sutras Mahayana diz: “Com a compreensão de que, além da mente, não há nada, então, há a realização de que a própria mente também não existe. Pessoas perspicazes compreendem que ambos não existem, permanecendo no dharmadhatu além disso.”

2.1.4. Causas e condições da confusão: as Oito Consciências#

2.1.4.1. Resumo#

།འདི་ཡི་རྒྱུ་རྐྱེན་རྟེན་འབྲེལ་ནི། །ཚོགས་དྲུག་ཡིད་དང་ཀུན་གཞི་ཞེས། །གསུངས་ཏེ་༴

“A interdependência das causas e condições para tudo isso
está nas Seis Consciências, cognição1 e base de tudo”,2
(o Buda) ensinou.

1 NT: Aqui, “cognição” (yid) tem um sentido bem específico: a palavra está sendo usada como um sinônimo para a 7ª consciência, que é a “habilidade” que permite o surgimento da consciência.

2 As causas e condições do samsara surgem (relativamente) devido à originação interdependente baseada nas Oito Consciências: as seis consciências (dos cinco sentidos e de objetos mentais), cognição (a 7º consciência) e a base de tudo ou alaya (a 8º). Servindo como um tipo de camada básica, a consciência alaya funciona como a condição causal: seus resultados são as outras sete consciências. Todo o karma e sofrimento amadurecem a partir daí. Os padrões habituais que repousam na alaya são responsáveis por isso. O Yogatantra Ponta do Vajra diz: “A base de tudo, que possui todas as sementes, é a natureza de tudo que é interno ou externo, conforme o que foi estabelecido.”

Também é preciso entender a interdependência da realização da budeidade: devido ao poder do dharmakaya já presente agora (que é a natureza de tudo), o Buda Dharma surge como uma condição aparentemente externa, e o estudamos. Então, surge prajna que reconhece a natureza buda e suas qualidades como algo já existente e que pode ser realizado, junto com confiança e aspiração nesse sentido. Assim, surge dedicação nas Duas Acumulações, que possibilitam a liberação de todos obscurecimentos, quando o dharmakaya se manifesta plenamente.

NT: As Oito Consciências não se referem a tipos separados de mente. Elas devem ser entendidas mais como dinâmicas ou processos mentais, já que se interligam profundamente e — assim como nas Seis Consciências e outras divisões — são designações relativas, úteis meramente para ilustrar o processo de delusão. É por isso também que, em tradução literal, são chamadas de Oito Agrupamentos: cada uma delas é um conjunto de processos.

2.1.4.2. Explicação detalhada#
2.1.4.2.1. Explicação das Seis Consciências#

2.1.4.2.1.1. Identificação das Seis Consciências

༴ཚོགས་དྲུག་ཤེས་པ་ནི།

As consciências dos seis grupos1...

1 As consciências que apreendem os objetos dos cinco sentidos e os da mente.

2.1.4.2.1.2. Identificação das condições-objetos

།དམིགས་རྐྱེན་ལ་ལྟོས་དེ་དག་ཀྱང༌། །གཟུགས་སོགས་ཡུལ་ནི་དྲུག་པོ་ཡིན།

… dependem de condições-objetos1,
que são os seis objetos como forma e os restantes2.

1 Cada objeto é uma condição para que a consciência dele surja, por isso são chamados de condições-objetos (tib.: dmigs rkyen).

2 Os seis são: forma, som, odor, sensação tátil, sabor e objetos mentais.

2.1.4.2.1.3. Identificação das condições capacitadoras

།བདག་རྐྱེན་དབང་པོ་དྲུག་པོ་སྟེ། །དེ་ཡང་གཟུགས་ཅན་དྭངས་པའོ།

As condições capacitadoras1 são os seis sentidos2,
que possuem forma e são transparentes3.

1 NT: São capacitadoras porque são as faculdades que permitem o surgimento de objetos e a consciência deles.

2 Os cinco sentidos não são os órgãos dos sentidos — como olho, ouvido etc — mas sim, as faculdades que existem nesses órgãos. Através dessas faculdades, há a percepção de objetos, que permite o surgimento da consciência deles. Já o sexto sentido é a faculdade mental ou cognição — quando aspectos adicionais (que serão apresentados) dessa faculdade são considerados, ela é definida como a 7ª consciência.

3 “Possuem forma” se refere à explicação do Abidharma de que essas cinco faculdades não são totalmente inefáveis como a mente, mas sim, são constituídas de elementos mais sutis. “São transparentes” porque, ao mesmo tempo que possuem forma, têm uma natureza mais próxima da consciência inefável. Diferentemente do Abidharma, o Compêndio Mahayana (uma importante escritura Yogatchara) diz que essas faculdades fazem parte da alaya, mas são concebidas como tendo forma ou materialidade, ou seja, são mentais. No conjunto, não há contradição, pois estas são apenas maneiras diferentes de explicar, que mudam conforme o contexto.

Já a faculdade mental (o sexto sentido) não é a consciência em si, mas sim a aptidão que permite o surgimento de objetos mentais e a consciência deles). No contexto Yogatchara, isso é explicado como sendo a cognição contígua (uma função da 7ª consciência, que ainda será detalhada): a faculdade que permite a percepção de objetos na alaya. Já no contexto do Abidharma, ela é explicada como sendo a base sensorial (sânscrito: dhatu; tibetano: khams) cognitiva. Essa faculdade mental também é explicada como sendo uma habilidade particular da alaya, entre outras definições.

NT: As 18 bases sensoriais são: os seis objetos da percepção (estímulos dos cinco sentidos e objetos mentais), as seis faculdades (mencionadas anteriormente) e as seis consciências.

2.1.4.2.1.4. De onde surge tudo isso

།གཉིས་ཀ་སེམས་ལས་བྱུང་བ་ཡིན། །ཡུལ་དང་དབང་པོར་རབ་སྣང་བ། །ཐོག་མེད་ཁམས་ལ་བརྟེན་པ་ཡིན། །དོན་མཐོང་རྣམ་པར་ཤེས་ཡིན་ཀྱང༌། །ཁྱད་པར་སེམས་བྱུང་འདུ་བྱེད་ནི། །ཡིད་ཀྱི་རྣམ་ཤེས་ལ་བརྟེན་ཏེ།

Ambos1 surgem da mente.
Aquilo que aparece completamente
como objetos ou sentidos
se baseia em disposições sem início2.
A consciência vê objetos, mas suas qualidades
são eventos mentais (no agregado da) categorização,
baseados na consciência mental.3

1 Os seis sentidos e seus objetos.

2 Desde um tempo sem início no samsara, há a tendência ou disposição (khams) de dar realidade a uma dualidade sujeito-objeto que não existe, devido à ignorância. Repousando na alaya, quando ativada pelo karma, ela se manifesta. (NT: A ilusão no samsara, ou existência cíclica, não tem um início, já que se baseia nas expressões ou aparências da natureza absoluta. O próximo texto, Introdução à Essência Tathagata, explica isso).

3 A consciência vê objetos aparentes, mas suas características ou qualidades ainda não foram concebidas. Aquilo que diz “isso é um vaso” ou “isso é azul” são eventos mentais do 3º agregado de corpo-mente, a categorização, e ela também é mental.

NT: O versos-raiz fazem referência ao 4º agregado: formações (‘du byed). No entanto, o comentário de Djamgon Kongtrul indica o 3º (‘du shes), para que o significado fique mais alinhado com a definição dos agregados.

2.1.4.2.2. O 7º agrupamento: condição contígua e cognição aflita#

2.1.4.2.2.1. Breve explicação sobre esses nomes

།དེ་མ་ཐག་དང་ཉོན་ཡིད་གཉིས།

Há dois tipos: cognição contígua e aflita.1

1 O 7º agrupamento de consciência (que repousa na consciência alaya, a 8ª) se divide em cognição contígua e cognição aflita.

NT: Apesar de “cognição” ser usado como um sinônimo para a 7º consciência, seguindo estritamente a terminologia Yogatchara, a palavra se aplica somente para o segundo aspecto desse 7ª agrupamento, a cognição aflita.

2.1.4.2.2.2. Explicação detalhada das características

2.1.4.2.2.2.1. Explicação da cognição contígua

།དྲུག་པོ་སྐྱེ་དང་འགག་པ་ཡི། །རྐྱེན་ཕྱིར་དེ་མ་ཐག་པ་ཡིན། །ཚོགས་དྲུག་སྐད་ཅིག་སྐྱེ་འགག་གི །གྲངས་བཞིན་དེ་དང་འབྲེལ་བ་ཡིན། །རྣལ་འབྱོར་ལྡན་པའི་ཡིད་དང་ནི། །རྒྱལ་བའི་བཀའ་ལས་འདི་ཤེས་འགྱུར།

Já que é a condição para o surgimento e cessação
das seis (consciências), ela é contígua.
Sendo simultânea aos instantes em que as Seis Consciências
surgem e cessam, ela está conectada a eles.1
Com a mente em ioga e as instruções do Vitorioso,
isso é reconhecido.2

1 A condição (ou cognição) contígua é a faculdade que permite o surgimento das Seis Consciências, correspondendo assim à base sensorial (dhatu; khams) cognitiva, do Abidharma. Além disso, quando qualquer uma dessas consciências cessa, essa condição planta as sementes — os potenciais (ou karma) gerados por essa consciência — na base alaya. É por isso que ela é contígua, sendo a “condição para o surgimento e cessação das seis (consciências).” Assim que as sementes são depositadas, isso agita a cognição que repousa na alaya, engajando-a novamente e tornando esse processo contíguo e imediato (NT: “cognição (ou condição) imediata” é outra possível tradução).

2 A fonte desse princípio é a percepção direta de iogues repousando na união de shamata e vipashyana (é por isso que esta tradição se chama Yoga-tchara, ou “prática de ioga”), junto com as instruções deduzidas a partir dos sutras do Buda.

2.1.4.2.2.2.2. Explicação da cognição aflita

།འདི་ཡི་ཆ་ཤས་སེམས་ཉིད་ལ། །ངར་སེམས་ང་རྒྱལ་འཛིན་པ་དང༌། །ང་ལ་ཆགས་ཤིང་མ་རིག་བཅས། །འཇིག་ཚོགས་ཐམས་ཅད་བསྐྱེད་པའི་ཕྱིར། །ཉོན་མོངས་ཅན་གྱི་ཡིད་ཅེས་བྱ།

Um aspecto da mente em si1 contém
a ideia do eu, fixação no orgulho,
apego ao eu e ignorância.2
Por gerar (enganos sobre os) agregados transitórios,3ela é chamada de cognição aflita.

1 Neste contexto, “mente em si” (sems nyid) se refere à consciência alaya.

2 A outra parte da 7ª consciência é chamada de “cognição aflita” e também se fundamenta na alaya. Ao não realizar a natureza da mente livre de máculas, ela se foca no aspecto impuro que é a alaya, surgindo assim (1) a ideia de um eu; (2) esse eu vem com orgulho inerente, que se imagina superior; (3) entretém apego a si, que dá melhor tratamento a si e negligencia outros seres; e (4) contém a ignorância de não enxergar a própria inexistência. A cognição aflita sempre tem essas quatro aflições.

3 Ela se fixa de quatro maneiras na base dos Cinco Agregados: considerando-os como sendo “meus”, como se eles fossem aspectos do eu, como se o eu habitasse neles, e como se o eu surgisse deles. Ao multiplicar esses quatro enganos pelos Cinco Agregados, chega-se a 20. Multiplicados por três (presente, passado e futuro) são 60. Ao considerar esse eu como sendo permanente ou impermanente (que se extingue na morte), no total são 62 visões enganadas sobre os agregados, que são agrupadas na expressão “visão dos agregados transitórios” (‘jig tshogs lta ba). Essa visão é a raiz da “natureza imaginada” (ver nota a seguir) e de todas as aflições. Apesar disso, a cognição aflita tem um tipo de neutralidade, no sentido de que não é ela que cria virtude ou desvirtude — isso é feito nas etapas menos sutis posteriores, dos Cinco Agregados. Mas como ela obscurece a visão do não eu, impedindo a liberação, deve ser abandonada.

NT: Na tradição Yogatchara, a relação entre realidade e ilusão é explicada conforme as Três Naturezas. A natureza absoluta se expressa na natureza dependente, que são as aparências surgidas de modo interdependente. Já a natureza imaginada é a conceitualização e fixação nessas aparências como sendo reais, não havendo o reconhecimento de que fenômenos dependentes são como reflexos inseparáveis da natureza absoluta.

2.1.4.2.2.2.3. Resumo das características desses dois aspectos

།དྲུག་པོ་འགག་མ་ཐག་ཡིད་ནི། །རྣམ་ཤེས་སྐྱེ་བའི་གནས་ཡིན་ཏེ། །ཉོན་ཡིད་ཉོན་མོངས་གནས་སུ་འགྱུར། །བསྐྱེད་དང་སྒྲིབ་པའི་ནུས་པ་ལྡན། །དེ་ཕྱིར་ཡིད་དེ་རྣམ་པ་གཉིས།

A cognição contígua ao (início e) fim das Seis Consciências
é a fonte do surgimento da consciência.
A cognição aflita é a fonte das aflições.
Já que possui a capacidade de criar e obscurecer,
essa cognição tem dois aspectos.1

1 Além desse sumário, o comentário acrescenta: como ela percebe objetos (como os conceitos subliminares de eu e outro, que depois se tornam mais grosseiros nos Cinco Agregados), o 7º agrupamento da cognição é uma consciência. Já quando a cognição contígua produz uma consciência purificada — como devoção ou compaixão puras — a cognição não se agita em aflição. Por isso, alguns sutras mencionam também uma qualidade pura da condição contígua. A cognição aflita não existe na meditação de arhats ou bodisatvas do 1º bhumi em diante, mas permanece nos transes meditativos (da forma e da não forma).

2.1.4.2.3. Condição causal: consciência alaya#

2.1.4.2.3.1. Resumo sobre o nome

།ཁྱད་པར་བློ་གྲོས་ལྡན་རྣམས་ལ། །ཀུན་གཞིའི་རྣམ་པར་ཤེས་གསུངས་ཏེ།

Para quem possui discernimento especial,
o Buda ensinou a consciência alaya.1

1 Alaya (tib.: kun gzhi) significa “base”. Sendo a 8ª consciência e a fundação da 7ª, é a condição causal para as Seis Consciências. Ela foi ensinada apenas no Mahayana (Yogatchara) porque esse caminho penetra a realidade de modo único e também porque pessoas com menos discernimento poderiam confundir a consciência alaya com o Eu eternalista. O Sutra do Comentário Definitivo da Intenção Iluminada diz: “A consciência alaya é profunda e sutil. Todas suas sementes fluem como um rio. Sendo inapropriado entendê-la como o Eu, não a ensino na ausência de maturidade.”

A palavra “consciência” qualifica “alaya” para que isso não seja confundido com a alaya que é sinônimo da natureza buda em outros contextos. Sendo uma consciência, seu objeto são todas as sementes e frutos que repousam nela. Aquilo que é confundido como sendo o sujeito é seu aspecto de lucidez e clareza. Já que tudo está reunido nela, ela contém todos os amadurecimentos, ou frutos. Já que produz tudo o que é resultado de condições, ela atua como a causa, possuindo as sementes.

A alaya é acompanhada pelos “cinco fatores mentais sempre presentes” (entre os 51 do Abidharma): contato (sensorial), engajamento mental, sensação, categorização e pensamento. Isso a define como uma consciência. A sensação (fator mental que registra prazer, dor ou indiferença) mencionada é de neutralidade: sua natureza é ser desobstruída, clara e neutra (não cria nada), como um espelho. É como o fluxo ininterrupto de um rio, contendo as sementes ou potenciais de todo sujeito, objeto e faculdade dos sentidos.

NT: Apesar de geralmente ser descrita como um depósito ou substrato, essa imagem ilustra apenas um aspecto: o “armazenamento” de padrões habituais ou karma. Como diz a passagem anterior, uma ilustração mais completa é o contínuo de todas experiências. Não há um nenhum “depósito” separado desse fluxo. Uma outra metáfora é uma onda ou movimento (a experiência presente) que surge do mar (alaya) e se dissolve de volta nele, descarregando ali sua dinâmica, que depois reemerge.

2.1.4.2.3.2. Explicação detalhada das características específicas

།འདི་ནི་རྟེན་དང་གནས་དང་ནི། །ལེན་པའི་རྣམ་པར་ཤེས་ཀྱང་གསུངས། །ཚོགས་བདུན་གྱིས་བསྐྱེད་ལས་རྣམས་ཀུན། །མ་འདྲེས་ལུང་དུ་མ་བསྟན་པར། །བསགས་པས་རྣམ་པར་སྨིན་ཞེས་བྱ། །ཆར་ཆུ་རྒྱ་མཚོ་ཇི་བཞིན་ནོ། །ཐམས་ཅད་བསྐྱེད་པར་བྱེད་པས་ན། །ས་བོན་ཀུན་ལྡང་ཀུན་གཞི་སྟེ། །རྒྱུ་ཡི་རྐྱེན་ཞེས་བརྗོད་པ་ཡིན། །ཚོགས་བདུན་ལོག་ན་དེ་ལྡོག་ཕྱིར། །རྐྱེན་གྱི་རྣམ་ཤེས་ཞེས་ཀྱང་བྱ།

Ela também é ensinada como
a consciência que é a fundação, que é a fonte
e a que concebe continuamente.1
Já que acumula todo karma gerado pelas sete consciências,
de modo distinto e neutro, é chamada de
consciência maturadora, que é como chuva do rio para o mar.2
Já que produz tudo, sendo a base que contém todas as sementes,
é chamada de condição causal.3
Já que, quando as sete consciências são neutralizadas,
ela cessa, também é chamada de consciência condicionada.4

1 A consciência alaya é a base da confusão dos Três Reinos. Também é a “consciência que é a fundação” pois é a causa dos seis sentidos (que permitem o surgimento das Seis Consciências). É a consciência “que é a fonte” pois é a condição que concebe continuamente (nye bar len pa) todos padrões habituais e tipos de existência. É a consciência “que concebe continuamente” pois ao perpetuar o eu, os agregados, o desejo e as visões de mundo, isso faz a ligação com uma existência corpórea e sua manifestação completa.

2 Ela também reúne o karma de modo distinto (cada ação produz seu respectivo resultado) e neutro (esse processo em si não é virtude nem desvirtude). É isso que permite o amadurecimento do karma, então ela é a “consciência maturadora”.

As seis consciências são como a chuva. O karma gerado através da cognição (7º consciência) é como o conjunto de rios que receberam a chuva. A consciência alaya é como o oceano, onde os rios desembocam. O Abhidharmasutra diz: “A consciência surge da cognição, que surge da alaya. Na base alaya, todos os fenômenos se movem como ondas.”

3 Ela é também a “condição causal”, já que é a base de todas as sementes (ou potenciais) e das Seis Consciências.

4 Através do estudo e da meditação, as sete consciências podem ser neutralizadas. Sem elas, não há acumulação de novos padrões habituais, ou seja, o processo que mantém o fluxo que é a alaya é interrompido. Então, assim como a falta de chuva seca um lago, ela também desaparece. Assim, alaya é uma “consciência condicionada”, pois depende das condições dos sete agrupamentos (de consciência), não havendo nenhuma outra condição causal. A alaya é a “base de tudo”, menos das aparências puras, que são expressões do dharmakaya, a mente pura em essência, a natureza buda. Este princípio é ensinado em detalhes no texto Introdução à Essência Tathagata (o segundo texto deste livro), de Rangjung Dordje.

2.2. Sabedorias e kayas que são a transformação das consciências#

2.2.1. Resumo do significado geral#

Com ignorância sobre a natureza da base alaya, o movimento que cria sujeito e objeto atua como a causa da confusão, que cria a existência cíclica. A libertação em relação aos obscurecimentos superficiais que acompanham a fixação nos Cinco Agregados permite o aparecimento das Cinco Sabedorias, cuja natureza são os quatro kayas (os três primeiros mais o svabavikakaya, que serão explicados adiante). Resumindo, a base sobre a qual o rótulo “ser senciente” é aplicado são os Cinco Agregados; e a causa que os perpetuam (nyer len gyi rgyu) são os aspectos da mente (sems): cognição (yid) e consciência (rnam par shes pa); já a causa da budeidade surge da transformação ou purificação dos Cinco Agregados.

Resumindo a passagem sobre isso do Compêndio Mahayana, a purificação do agregado da forma resulta no domínio sobre terras puras, kayas e sinais da iluminação. A purificação do agregado da sensação resulta na maestria sobre o êxtase (sem ignorância) da budeidade. A purificação do agregado da categorização (ou discriminação) é o domínio sobre os ensinamentos. A purificação do agregado das formações resulta na maestria sobre emanações, transformação, atração etc. A purificação do agregado da consciência resulta no domínio das sabedorias como um espelho, da igualdade, da distinção e da atividade.

Sobre o último ponto (o agregado da consciência se transforma em quatro sabedorias primordiais), há quatro causas para sua realização: a causa da sabedoria como um espelho é o entendimento (prajna) que resulta de estudar e manter a compreensão do Dharma; a causa da sabedoria da igualdade é manter a equanimidade sobre todos os seres; a causa da sabedoria da distinção é ensinar o Dharma; a causa da sabedoria da atividade são ações que beneficiam os seres.

Sobre isso, há também quatro bases resultantes que permitem a purificação das consciências (ensinadas no Sutra da Introdução aos Três Kayas): o resultado da purificação da base alaya é a sabedoria primordial como um espelho, o da cognição aflita é a sabedoria da igualdade, o da consciência mental é a sabedoria da distinção, o resultado da purificação das consciências dos cinco sentidos é a sabedoria da atividade.

2.2.2. Parte principal#

2.2.2.1. Sabedoria do espelho: o dharmakaya#
2.2.2.1.1. O que purificar e o que purifica#

།ཕྱི་དང་ནང་གི་བདག་ཉིད་ན། །ཀུན་གཞིའི་རྣམ་ཤེས་འདི་ཉིད་ནི། །སྤང་བྱ་ཀུན་གྱི་རྩ་བ་སྟེ། །རྡོ་རྗེ་ལྟ་བུའི་ཏིང་འཛིན་གྱིས། །བཅོམ་པར་བྱ་བར་གསུངས་པ་ཡིན།

A identidade daquilo que é externo e interno
é esta própria consciência alaya,
a raiz de tudo que deve ser abandonado.1
Através do samadhi como um vajra2,
ela é vencida, conforme ensinou o Buda.

1 Por ser a base de toda dualidade sujeito-objeto, a fonte da ignorância, sendo aquilo que encobre a budeidade, ela é “a raiz de tudo que deve ser abandonado.”

2 A consciência alaya só é totalmente purificada pelo “samadhi como um vajra” do 10º bhumi bodisatva, que é a meditação que precede a realização da budeidade perfeita.

2.2.2.1.2. Resultado da purificação: kayas e sabedoria primordial#

།གང་ཚེ་སྒྲིབ་བཅས་ཀུན་གཞི་ལོག །དེ་ཚེ་མེ་ལོང་ཡེ་ཤེས་ཏེ། །ཡེ་ཤེས་ཀུན་སྣང་ང་ཡིར་མེད། །ཡོངས་སུ་མ་ཆད་རྟག་ཏུ་ལྡན། །ཤེས་བྱ་རྟོགས་ཤིང་དེར་ཕྱོགས་མིན། །ཡེ་ཤེས་ཀུན་གྱི་རྒྱུ་མཚན་ཕྱིར། །ཆོས་ཀྱི་སྐུ་ཞེས་བརྗོད་པ་ཡིན།

Quando a alaya é neutralizada junto com os obscurecimentos,
é a sabedoria primordial do espelho.1
Todas sabedorias aparecem, sem pertencerem a um eu.
Sem nenhuma obstrução, está sempre presente.
Há realização de todos objetos de conhecimento, sem fixação.2
Já que ela é a causa de todas as sabedorias primordiais,
é chamada de dharmakaya.3

1 Por não ter nenhum tipo de apego ou obstrução, o samadhi como um va-jra é o antídoto para os obscurecimentos mais sutis. Assim, a consciência alaya é neutralizada junto com os dois obscurecimentos (das aflições e de conhecimento) e seus padrões habituais, tornando-se a sabedoria como um espelho, na budeidade.

2 Ela tem esse nome pois, assim como reflexos surgem com base em um espelho, através dela, as outras três sabedorias e o sambhogakaya aparecem como reflexos. “Sem fixação” significa que, apesar de ela penetrar todos os fenômenos, nenhuma consciência é ativada nesse processo — como aconteceria na fase impura, em que a interdependência no surgimento de objetos dá origem à consciência, sujeito etc.

3 Assim como, na fase impura, a alaya é a base das outras consciências, na fase pura, a sabedoria do espelho é a base para as outras três sabedorias. O Ornamento dos Sutras Mahayana diz: “A sabedoria do espelho é inabalável, sendo a fundação das três sabedorias: da igualdade, da distinção e da atividade.” Já o Compêndio Mahayana ensina: “… é o Dharma completamente puro da budeidade, já que é a realização do dharmakaya, a transformação da consciência alaya.” O Glorioso Tantra do Oceano de Dakas e Dakinis menciona: “Alaya é a sabedoria do espelho, isso é o dharmakaya.”

2.2.2.2. Sabedoria da igualdade#
2.2.2.2.1. O que purificar e o que purifica#

།ཉོན་མོངས་ཅན་གྱི་ཡིད་དེ་ནི། །དཔའ་བར་འགྲོ་བས་རབ་བཅོམ་ནས།

A cognição aflita é derrotada inteiramente
com o samadhi do prosseguimento com bravura.1

1 A cognição aflita concebe ininterruptamente sujeito e objeto a partir da alaya, mantendo quatro aflições: a visão de um eu, ignorância sobre sua inexistência, apego a ele e orgulho. Desse modo, sua natureza é obscurecer a liberação e a equanimidade. O “samadhi do prosseguimento com bravura” é assim chamado pois é imune a aflições; assim, as máculas do engano não surgem mais e a sabedoria da igualdade é realizada. Ela tem esse nome pois é a sabedoria que, devido à familiarização com a igualdade entre eu e outros seres na fase do treinamento, realiza a igualdade entre samsara e nirvana na budeidade.

NT: O samadhi mencionado (sânsc.: surangama-samadhi) é descrito no Sutra Surangama como a realização de bodisatvas que dominam todos samadhis mundanos e transcendentes, entre outras.

2.2.2.2.2. A sabedoria que é o resultado dessa purificação#

།མཐོང་སྒོམ་ཉོན་མོངས་རབ་སྤངས་ནས། །ཉོན་མོངས་མེད་ཅིང་སྲིད་ཞི་མེད། །མཉམ་ཉིད་ཡེ་ཤེས་ཞེས་སུ་བརྗོད།

Abandonando inteiramente as aflições
(nos caminhos da) visão e familiarização,1
não há aflições, nem samsara ou nirvana.2
Isso é chamado de sabedoria primordial da igualdade.

1 NT: O caminho da visão é o terceiro entre os Cinco Caminhos (da acumulação, junção, visão, familiarização e liberação). Ele coincide com o 1º bhumi bodisatva, em que há a realização direta e irreversível da vacuidade. Já o caminho da familiarização abrange do 2º ao 10º bhumis.

2 No caminho da visão, não há mais aflições grosseiras, chamadas de “aflições com base conceitual”, no sentido de que têm objetos concebidos como sendo externos e reais. E o caminho da familiarização purifica aflições sutis, chamadas de “aflições coemergentes”, que tem objetos internos tênues. Portanto, após esses dois caminhos, não há mais nenhuma aflição. Ao prosseguir, sem cair nos extremos de samsara e nirvana, a sabedoria da igualdade é realizada com a budeidade (após o 10º bhumi).

O comentário então lista todas as aflições que são abandonadas nos caminhos da visão e familiarização, que podem ser estudadas em detalhes em outros textos, como o Ornamento da Realização Genuína (abhisamayalamkara; mngon rtogs rgyan).

2.2.2.3. Sabedoria da distinção#
2.2.2.3.1. O que purificar e o que purifica#

།དེ་མ་ཐག་པའི་ཡིད་དེ་ནི། །དྲུག་པོ་འཛིན་པས་འཛིན་པ་སྟེ། །རྣམ་པར་རྟོག་བྱེད་རྣམ་རྟོག་ཡིན། །དེ་ནི་ཡང་དག་ཤེས་རབ་དང༌། །སྒྱུ་མ་ལྟ་བུའི་ཏིང་འཛིན་གྱིས། །བཅོམ་པས་༴

Já que a cognição contígua se fixa
nas Seis Consciências, ela é fixação.
Já que conceitualiza, é conceitualização.
Com prajna perfeita e o samadhi
da ilusão mágica, ela é derrotada.1

1 A cognição contígua é a condição que acompanha o surgimento e cessação das Seis Consciências. Já que ela gera e se fixa nesses seis grupos, é chamada de fixação. Através dela, conceitos são criados, então, ela também é conceitualização. Esses conceitos são neutralizados pela compreensão perfeita (prajna) — que realiza todos os fenômenos como sendo impermanentes, fontes de sofrimento, vazios e sem identidade própria — e pelo samadhi que reconhece todos objetos e conceitos como sendo ilusões mágicas. Desse modo, a natureza da cognição contígua se revela como a sabedoria da distinção. Ela é chamada assim pois penetra todos os possíveis objetos de conhecimento sem misturá-los, instantaneamente e sem barreiras.

2.2.2.3.2. A sabedoria que é o resultado dessa purificação#

༴བཟོད་པ་ཆེ་ཐོབ་ཚེ། །དོན་བཅས་འཛིན་པ་གནས་གྱུར་པས། །ཞིང་ནི་དག་པ་སྟོན་པ་དང༌། །དུས་རྣམས་ཀུན་ཏུ་ཡེ་ཤེས་དང༌། །ལས་རྣམས་ཀུན་ཏུ་ཐོགས་མེད་པའི། །རྣམ་རྟོག་གནས་ཡོངས་གྱུར་པ་ནི། །སོ་སོར་རྟོག་པའི་ཡེ་ཤེས་ཏེ།

Com a realização da grande aceitação,1
objetos e a apreensão deles se transformam.
Há exibição de terras puras, sabedoria em qualquer tempo
e desobstrução de todas atividades.2
A transformação completa da conceitualização
é a sabedoria primordial da distinção.3

1 “Grande aceitação” (bzod pa chen po) é a prontidão para a realização do “não surgimento de todos os fenômenos”, que é realizada totalmente no 8º bhumi. Nesse ponto, os resquícios mais sutis da cognição aflita são dissolvidos, o que a transforma na sabedoria primordial não conceitual.

2 Essa realização traz também o domínio sobre a exibição de terras puras para guiar outros seres. No 9º bhumi, a sabedoria penetra passado, presente e futuro. E no 10º bhumi, há maestria sobre a atividade iluminada desimpedida para guiar seres.

3 “A transformação completa da conceitualização” ocorre na budeidade, quando a sabedoria da distinção é revelada.

2.2.2.4. Essas duas últimas sabedorias são o sambhogakaya#

།དེ་ལྟར་ཡེ་ཤེས་གཉིས་པོ་འདི། །སྒོམ་པ་དག་པས་སྲིད་ཞི་ལ། །མི་གནས་ཞི་དང་བྱམས་པ་དང༌། །ཐུགས་རྗེར་ལྡན་ཞིང་འཁོར་རྣམས་ལ། །སྣ་ཚོགས་སྐུ་དང་གསུང་སྟོན་མཛད། །ཆོས་ཆེན་དབྱངས་ཀྱི་དཀྱིལ་འཁོར་འབྱུང༌། །ཏིང་འཛིན་གཟུངས་རྣམས་ཀུན་གྱི་གཏེར། །ལོངས་སྤྱོད་རྫོགས་སྐུ་ཞེས་སུ་བརྗོད།

Assim, essas duas sabedorias,
através de um cultivo puro,1
são a paz sem fixação no samsara ou nirvana,
com amor e compaixão, que se expressam
em uma profusão de kayas e ensinamentos
para seus círculos2, com o surgimento
da mandala da grande melodia do Dharma.3Esse tesouro de todos samadhis e dharanis__4
é chamado de sambhogakaya.

1 As mencionadas sabedorias da igualdade e da distinção são cultivadas por bodisatvas até a budeidade, quando se manifestam plenamente.

2 “Círculos” são os séquitos dessas deidades e budas, que incluem quaisquer grupos de seres que tenham conexão com elas. O Ornamento dos Sutras Mahayana diz: “Possuindo amor e compaixão em todos os tempos, em acordo com as aspirações dos seres, os corpos de budas certamente aparecem.”

3 A função da sabedoria da distinção é emanar bens para as mandalas ao seu redor, conforme desejados; e, como som, expressar a “grande melodia do Dharma.”

4 NT: No sentido estrito, dharani é um mantra longo. No sentido mais amplo, é entendido como encantamento ou algo que é retido sem falha na memória.

2.2.2.5. Sabedoria da atividade: o nirmanakaya#
2.2.2.5.1. O que purificar e o que purifica#

།སྒོ་ལྔ་ཡིད་ཀྱི་ཆ་གཅིག་ནི། །ཡང་དག་ཀུན་རྟོག་ལས་སྐྱེས་པ། །བདེན་བཞིའི་ཚུལ་གྱི་རྣམ་པ་ཅན། །ཤེས་བཟོད་ལ་སོགས་བཅུ་དྲུག་གིས། །དོན་མཐོང་བདེན་པར་རྟོགས་པ་ལས།

(No caminho da visão,) que nasce da discriminação correta1,
as cinco portas e uma parte da cognição (são abandonadas)2.
Com os princípios das Quatro Verdades,através das 16 sabedorias — como a “aceitação do Dharma3 ”—
o absoluto é visto e é realizado como verdadeiro.4

NT: Esta estrofe está repleta de termos técnicos sobre a realização do 1º bhumi, que é estudada em detalhes em textos como o Ornamento da Realização Genuína e seus comentários.

1 A realização do caminho da visão surge da “discriminação correta” no caminho da junção que o precede, ou seja, do entendimento e realização dos pontos que conduzem ao 1º bhumi.

2 A frase “as cinco portas e uma parte da cognição (são abandonadas)” se refere à neutralização das consciências dos cinco sentidos e do aspecto da sexta (a consciência mental) que se volta para objetos externos. Essa neutralização necessariamente ocorre com a realização da vacuidade, já que não há mais as consciências que consideram seus objetos como sendo inerentemente reais.

3 A meditação que desemboca no 1º bhumi envolve 16 insights ou sabedorias derivadas das Quatro Realidades (ou Quatro Verdades). A primeira delas é a “aceitação do Dharma”, que é a compreensão genuína (prajna) da realidade do sofrimento como algo diretamente perceptível — ela surge nas contemplações do caminho da junção. Através dessa sabedoria, as respectivas aflições são abandonadas.

4 Quando “o absoluto é visto e é realizado como verdadeiro”, essa é a visão direta da vacuidade: o caminho da visão e o 1º bhumi bodisatva. É isso que abre as portas para a sabedoria da atividade.

2.2.2.5.2. Resultado da purificação: kayas e sabedoria primordial#

།དབང་པོ་ལྔ་རྣམས་གནས་གྱུར་ནི། །དོན་ཀུན་འཇུག་དང་ཐམས་ཅད་ཀྱི། །ཡོན་ཏན་བརྒྱ་ཕྲག་བཅུ་གཉིས་ལ། །དབང་འབྱོར་དེ་ཉིད་མཐར་ཕྱིན་པས། །བྱ་བ་གྲུབ་པའི་ཡེ་ཤེས་ཏེ། །ཁམས་རྣམས་ཀུན་ཏུ་སྣ་ཚོགས་པའི། །དཔག་མེད་བསམ་ཡས་སྤྲུལ་པ་ཡིས། །སེམས་ཅན་ཀུན་དོན་སྒྲུབ་པའོ། །འདི་ནི་སྤྲུལ་པའི་སྐུ་ཆེན་པོ།

Com a transformação das cinco faculdades dos sentidos,1há domínio no engajamento com todos objetose sobre todas as 200 qualidades.2
A realização final dessa maestria é a sabedoria da atividade.
Através de uma profusão de emanações inconcebíveis3
e incontáveis em todos os reinos, o bem de todos os seres
é realizado. Isso é o grande nirmanakaya.

1 NT: O termo “cinco faculdades” aqui significa Cinco Consciências.

2 Com a purificação das Cinco Consciências, o engajamento com os cinco tipos de objetos dos sentidos se expande, e bodisatvas manifestam as 200 qualidades do 1º bhumi, chamado Deleite Intenso. Nesse nível, em um único instante, é possível encontrar 100 budas, receber o Dharma deles, manifestar 100 emanações, exibindo-as por 100 eras cósmicas, lembrar de 100 vidas passadas ou futuras, repousar em 100 tipos de samadhis, mover e iluminar 100 mundos, abrir 100 entradas para o Dharma, exibir 100 emanações do próprio corpo, cada uma delas com um séquito com 100 excelências. Segundo o eminente Sutra dos 10 Bhumis Bodisatva, no 2º bhumi as qualidades citadas se referem ao número 1.000; no 3º bhumi, 1,2 milhão; no 4º bhumi, 120 milhões; no 5º bhumi; 12 trilhões; e assim por diante até o 10º bhumi, em que o número é 12 vezes os átomos de um milhão de terras puras. A perfeição final desse poder, na budeidade, é chamada de sabedoria da atividade.

3 As emanações nirmanakaya se dividem em três tipos: emanações sublimes que demonstram os 12 atos de um Buda, como Shakyamuni; emanações de habilidades (bzo’i sprul pa), como o cantor que pacificou o rei dos gan-dharvas; e emanações nascidas, como um cervo. O Ornamento dos Sutras Mahayana diz: “Através de habilidades, do nascimento e da iluminação, sempre demonstrando a transcendência do sofrimento, este corpo iluminado de emanação (nirmanakaya) da budeidade é o grande método para a liberação.”

Este modo como os Três Kayas aparecem com a purificação das consciências alaya, da cognição e dos cinco sentidos é ensinado no Sutra da Luz Dourada.

2.2.2.6. Sabedoria do dharmadhatu: o svabhavikakaya#
2.2.2.6.1. Explicação principal#

།སེམས་ཡིད་རྣམ་ཤེས་གནས་གྱུར་པའི། །སྐུ་གསུམ་མཛད་པར་བཅས་པ་རྣམས། །ཆོས་དབྱིངས་སྤྲོས་བྲལ་དཀྱིལ་འཁོར་དུ། །རྫོགས་པ་འཁོར་འདས་ཐོག་མེད་ཀུན། །

གཅིག་དང་ཐ་དད་བྲལ་བ་རུ། །བཞུགས་པ་ངོ་བོ་ཉིད་སྐུར་བཞེད།

Os Três Kayas junto com a atividade iluminada
— que são a purificação da mente, cognição e consciência —
estão completos na mandala do dharmadhatu
livre de fabricações.1Aquilo que é considerado o svabhavikakaya
é todo o samsara e nirvana sem início
que se encontra além da unidade ou separação.

1 A inseparabilidade dos Três Kayas é o dharmadhatu (“dimensão de todos os dharmas”), livre de sujeito e objeto, samsara e nirvana, sem diferenças de tipo ou significado, início ou fim, unidade ou separação. Permanecer além de todos os pontos de referência é ensinada como sendo a sabedoria do dharmadhatu, ou svabhavikakaya (“corpo iluminado da natureza”). O significado de dharmadhatu é a liberdade em relação às nuvens dos obscurecimentos, pura como o espaço, que se torna a fonte de todos os dharmas sublimes e sabedorias primordiais.

2.2.2.6.2. Exame dos kayas#

།རྒྱལ་བས་གཞུང་གཞན་ཁ་ཅིག་ཏུ། །འདི་ལ་ཆོས་ཀྱི་སྐུ་ཞེས་བསྟན། །དེ་ཚེ་མེ་ལོང་ཡེ་ཤེས་སྐུ། །གཞན་ནི་གཟུགས་སྐུ་གཉིས་ཞེས་བརྗོད།

Em outras escrituras, o Vitorioso ensinou isso1
como sendo o dharmakaya.
Nesse contexto, é mencionado que
(a sabedoria do) espelho é o kaya da sabedoria;
e as outras, os dois rupakayas.2

1 “Isso” se refere ao svabhavikakaya.

2 Há contextos em que o 4º kaya não é mencionado. Nesse caso, o “kaya da sabedoria” (ou svabhavikakaya) é a sabedoria do espelho, e as sabedorias da igualdade, distinção e atividade são os rupakayas. Caso surja a dúvida se os corpos iluminados estão separados ou unidos, budas não são diferentes, na dimensão livre de contaminações, assim como o céu é inseparável da natureza do espaço. No entanto, como a budeidade surge da prática bodisatva de um ser senciente específico, budas também não são uma unidade. O Ornamento dos Sutras Mahayana diz: “Na dimensão sem contaminações, budas não são nem muitos nem um; porque não possuem corpo, como espaço e, no entanto, estão de acordo com suas existências prévias.”

O comentário menciona diversas outras formas de dividir os corpos iluminados, mas não há diferença no significado essencial.

2.3. Resumo de todos esses pontos#

།ཡེ་ཤེས་ལྔ་དང་སྐུ་བཞི་ཡི། །རང་བཞིན་མངོན་གྱུར་སངས་རྒྱས་ཏེ། །སེམས་ཡིད་རྣམ་པར་ཤེས་པ་ཡི། །དྲི་མར་ལྡན་གང་ཀུན་གཞི་ཡིན། །དྲི་མེད་རྒྱལ་བའི་སྙིང་པོར་བརྗོད། །མ་དག་ཀུན་རྟོག་འཇོམས་བྱེད་པ། །དག་པའི་ཀུན་རྟོག་ལས་སྐྱེས་པའི། །འཕགས་པའི་ཤེས་རབ་དབང་པོ་ནི། །འཛིན་པ་ལམ་གྱི་བདེན་པར་གསུངས།

A manifestação da natureza que são as Cinco Sabedorias
e os quatro kayas é a budeidade.
Aquilo que possui as máculas
da mente, cognição e consciência é a alaya.
A ausência de máculas é chamada de Coração dos Vitoriosos1.
O que derrota a conceitualização impura
é a conceitualização pura2, de onde nasce
a nobre capacidade de compreensão (prajna).
Mantê-la é a verdade do caminho, conforme ensinou o Buda.3

1 NT: “Coração dos Vitoriosos” é um sinônimo de natureza buda ou essência tathagata.

2 Sobre a “conceitualização impura”, Nagarjuna menciona o desejo, maldade, preguiça, agitação e desconfiança (em Louvor ao Dharmadhatu). Já Maitreya lista (no Sublime Contínuo): hostilidade ao Dharma, visões que dão realidade ao eu, pavor do sofrimento do samsara (no sentido escapista) e desconsideração do bem alheio. Os antídotos para isso — “a conceitualização pura” — são as sementes de fé e aspiração pelo Mahayana e pela sabedoria (prajna) que realiza a ausência de identidade (do eu e dos fenômenos).

3 No caminho da acumulação, devido à virtude de praticar, através da aspiração, há a realização sobre o que deve ser abandonado. No caminho da junção, há a realização dos antídotos. Nos bhumis impuros (1º ao 7º), há a realização da não dualidade entre o que deve ser abandonado e seus antídotos. Nos bhumis puros (8º ao 10º), há a realização sobre o que é o fruto da budeidade. Este processo é a verdade do caminho (entre as Quatro Verdades).

3. Conclusão#

3.1. Propósito deste texto#

།དོན་དམ་ཚུལ་འདི་མ་རྟོགས་པས། །རྨོངས་རྣམས་འཁོར་བའི་རྒྱ་མཚོར་འཁྱམས།
།ཐེག་ཆེན་གྲུ་འདི་མ་རྟོགས་པས། །གང་གིས་ཕ་རོལ་ཕྱིན་པར་འགྱུར།

Ao não realizar este princípio absoluto,
seres confusos vagam pelo oceano da existência cíclica.
Sem esta embarcação do Mahayana,
como a outra margem seria alcançada?

3.2. Aspiração para que isso seja realizado#

།ཀུན་གྱིས་འདི་དོན་རྟོགས་པར་ཤོག

Que todos os seres realizam esta realidade!

3.3. Como este texto foi composto#

།རྣམ་ཤེས་ཡེ་ཤེས་འབྱེད་པའི་བསྟན་བཅོས། ཕག་ལོ་ཟླ་བ་བཅུ་པའི་ཚེས་གཅིག་ལ་རང་བྱུང་རྡོ་རྗེས་བདེ་ཆེན་སྟེང་གི་རི་ཁྲོད་དུ་སྦྱར་བའོ།

O _Tratado da Diferenciaç__ão entre Consciência e Sabedoria_foi composto no 1º dia do 10º mês do Ano do Porco (1335 EC), no eremitério do alto de Detchen.